Artigo da seção instituições ,Ovo

,Ovo

Artigo da seção instituições
 

O estúdio de design ,Ovo surge no início dos anos 1990 com a parceria criada por Luciana Martins (1967) e Gerson de Oliveira (1970), então estudantes de cinema na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), mesmo que só tenham adotado o nome fantasia – que faz referência à forma simples e perfeita do alimento – em 2002. A dupla descobre o interesse pela criação e construção de objetos utilitários ao realizar uma oficina livre de escultura e muito cedo definem as características principais que norteiam sua produção. Desde as primeiras peças, impõe-se a tônica que se torna a sua principal marca identitária: a preocupação em conciliar forma e função, própria do design, com um intenso diálogo com questões derivadas do campo da arte.

Uso da ironia, mascaramento da forma para surpreender o usuário, exploração do caráter lúdico e sensual dos objetos e adoção da cor como elemento constitutivo são algumas das características do trabalho do estúdio e estão presentes em peças como a cadeira Cadê, que recebe, em 1995, o primeiro lugar na categoria mobiliário residencial do Prêmio Design do Museu da Casa Brasileira (MCB) – instituição que reconhece em diversas edições de sua premiação o trabalho da dupla. Com a aparência de um cubo feito de tecido flexível, a peça na verdade está oculta, como indica a pergunta  – cadê? – contida em seu nome. A forma do assento – elemento fundamental do design moderno – só se revela sob a pressão do corpo do usuário, que aciona com seu peso a estrutura retilínea e estandartizada do tecido que a recobre, criando uma nova relação – não apenas de uso, mas de cunho estético e sensorial – com o objeto.

Outra obra desse mesmo período inicial é Pigmento, uma mesa de centro, quadrada, sob cujo tampo de vidro se vê uma estrutura de metal sobre a qual se deposita uma generosa quantidade de pigmento azul, com a mesma intensidade cromática da cor explorada por Yves Klein (1928-1962) em suas pinturas e ações. O psicanalista Tales Ab’Saber também sublinha a relação entre esse objeto e a obra Glove Trotter, de Cildo Meireles (1948).

Essa intensa troca com as artes plásticas leva Luciana Martins e Gerson de Oliveira a participar de uma série de exposições em museus brasileiros, como o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP) e o Museu Brasileiro de Escultura (MuBE), e a desenvolver parcerias com galerias como a Vermelho e a Luciana Brito. Não por acaso a dupla é autora de projetos de mobiliário para importantes espaços institucionais, como a Pinacoteca do Estado e o Itaú Cultural, que abrigam – entre outros trabalhos da dupla – os assentos modulares Campo.

Tal anseio em estabelecer novos diálogos e possibilidades também se verifica no próprio campo do design. O estúdio ,Ovo tem se movido por um interesse em estabelecer uma reflexão nessa área, buscando conciliar elegância do desenho e uso adequado do mobiliário a um ajuste equilibrado entre conforto, adequação funcional e sedução estética. A pesquisa de materiais, procedimentos e técnicas também é elemento importante nesse cenário. Nos anos 1990, quando iniciam seus trabalhos, verifica-se simultaneamente uma forte tendência à expansão e à diversificação do mercado de móveis mais sofisticados e exclusivos e o processo de exaustão do modelo excessivamente amaneirado das criações dos anos 1980, representado sobretudo pela escola italiana. 

Beneficiando-se desse novo contexto, o ,Ovo promove um resgate sutil de soluções típicas da escola modernista de mobiliário aliado à pesquisa de novos meios de produção. Não aposta na produção serial, mas sim nas parcerias com pequenos produtores, capazes de trazer alternativas inovadoras em escala menor. Segundo a crítica de design Ethel Leon, essa opção por uma produção mais intimista caracteriza toda essa geração, marcada por um estilo pós-fordista de produção. 

A intenção de revigorar esse mobiliário e reafirmar seu pertencimento em uma tradição cultural é explicitada em peças como os biombos Beg your Pardon ou a cadeira Terceira, que reatualizam a palhinha, material típico do mobiliário colonial brasileiro, bastante usado por seu frescor e leveza, extraindo novas possibilidades de composição visual (a dupla camada das tramas cria uma interessante ilusão de ótica) e de arranjo técnico. Ao final, a dupla deixa de lado a fibra tradicional para utilizar um material sintético similar, de maior resistência.

A limpeza e a busca de simplicidade e seriação modernas lhes serve de inspiração (trabalhos como Cubos e Box in the Box são referências claras às pesquisas concretas). No entanto, se a modernidade era feita de certezas, a dupla de designers contemporâneos sustenta sua obra sobre as potencialidades criativas da ambiguidade, do jogo entre opostos. A indeterminação controlada garante, segundo o crítico Rodrigo Naves (1955), a força de seus projetos. “O bom problema é que nossos designers se recusam a decidir por nós algo que apenas o uso e a experiência decidirão”, afirma.

Esse forte teor experimental, aliado à busca pela elegância, sintetizada pela historiadora do design Adélia Borges como “o poder de conciliar a concisão com a capacidade de surpreender” se corporifica também no uso recorrente da linguagem. É interessante notar a inclusão de uma vírgula antes da palavra “ovo” (,Ovo) no logotipo da dupla, sinalizando uma consciência clara de sua inserção num contexto prévio extremamente rico. Os títulos das peças também contêm sempre uma dose de enigma, ironia ou poesia. E jogam com a percepção do espectador, seduzindo-o dessa forma e levando-o a tentar entender não apenas para que servem, mas a diversidade de usos e apreciações que um simples jogo como Huevos Revueltos (conjunto de ganchos de parede na forma de coloridas bolas de sinuca) pode suscitar.

Notas

1. LEON, Ethel. Design brasileiro: quem fez, quem faz. Rio de Janeiro: Viana & Mosley: Editora Senac Rio, 2005, p. 84.

2. NAVES, Rodrigo. Adição. In: Desenho de mobiliário: Ovo. São Paulo: Cris Correa Editorial Ltda., 2012.

3. BORGES, Adélia. Haikai. In op. cit., p. 12.

Fontes de pesquisa (6)

  • DESENHO de mobiliário: Ovo. São Paulo: Cris Correa Editorial Ltda., 2012.
  • GROSSMANN, Martin. Campo para jogar. (fôlder da Exposição Playground). In: Playground. São Paulo: Galeria Brito Cimino, 2000. 
  • HIRSZMAN, Maria. Dupla transforma móveis em arte. Jornal da Tarde, São Paulo,  25 jan. 1997.
  • HIRSZMAN, Maria. Exposição mostra que design também é arte. O Estado de S. Paulo, Caderno 2, São Paulo, 23 nov. 2000.
  • LEON, Ethel. Design brasileiro: quem fez, quem faz. Rio de Janeiro: Viana & Mosley, 2005.
  • MOLINA, Camila. Dupla subverte design em novo espaço expositivo. O Estado de S. Paulo, Caderno 2, São Paulo, 8 nov. 2002.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ,OVO . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/instituicao637142/ovo>. Acesso em: 24 de Fev. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7