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Loja Oca

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 17.09.2019
1955 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Criada em 1955, no Rio de Janeiro, pelo designer de móveis Sérgio Rodrigues (1927-2014), a loja Oca é um espaço misto (comércio, galeria de arte e escritório) que contribui para a consolidação e difusão do design moderno brasileiro até o final da década de 1960, momento de grande inserção dessa produção no mercado.1 Na trajetória de Rodrigues, o...

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Criada em 1955, no Rio de Janeiro, pelo designer de móveis Sérgio Rodrigues (1927-2014), a loja Oca é um espaço misto (comércio, galeria de arte e escritório) que contribui para a consolidação e difusão do design moderno brasileiro até o final da década de 1960, momento de grande inserção dessa produção no mercado.1 Na trajetória de Rodrigues, o desenvolvimento da marca ocorre paralelamente a sua consagração como um dos mais importantes designers de móveis do país, inserindo-se no circuito internacional.

Inaugurada em 10 de maio de 1955 na rua Jangadeiros, a Oca havia sido idealizada, inicialmente, como um espaço para comercializar os móveis da Loja Forma depois que Rodrigues voltou ao Rio de Janeiro, em 1954. Em sociedade com o conde italiano Leoni Paolo Grasselli, com quem também havia trabalhado na Forma, aluga uma sala em um prédio comercial próximo à praça General Osório e, aos poucos, inclui peças de outros designers e artistas. Entre itens de outros artistas comercializados ou exibidos na loja, podem-se destacar os tecidos de Fayga Ostrower, além de obras das artistas Manabu Mabe e Ione Saldanha.

O nome da marca também teve um papel preponderante em introduzir o espírito agregador do novo negócio, seguindo os princípios modernistas de aproximar o design, a arquitetura e a arte, além de uma vocação essencialmente brasileira.

O primeiro evento marcante da OCA é o lançamento da Poltrona Mole, na exposição O móvel como objeto de arte, em 1958. Repetida em 1962, a exposição é descrita por Afonso Luz como "uma das referências históricas mais importantes para a ideia do design de autor, até mesmo em plano internacional."

Embora a Poltrona Mole não tenha atraído a atração de nenhum comprador no período de um ano em que ficou na vitrine2, a sessão de fotos feita por Otto Stupakoff (1935-2009) nas areias do Leblon acaba se tornando o primeiro catálogo da loja. Pouco antes, em 1956, uma cadeira que havia desenhado para o Jockey Club, tendo sido reprovada, chama a atenção de Oscar Niemeyer ao ver a peça na vitrine da Oca. Batizado com o nome do arquiteto posteriormente, o móvel dá origem a uma parceria que rende projetos como a mesa Itamaraty, desenhada em 1960 para o Ministério das Relações Exteriores de Brasília, similar à que seria usada na  Embaixada do Brasil em Roma. Rodrigues faria também todo o mobiliário do Palácio do Itamaraty.

Entre 1961 e 1962, a Oca tem duas encomendas importantes na trajetória da marca. A primeira foi a do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), na época reitor da Universidade de Brasília, para o mobiliário  da universidade inaugurada em 1962.Um desses desenhos se tornaria o protótipo do SR2 – Sistema de Industrialização de Elementos Modulados Pré-Fabricados para Construção de Arquitetura Habitacional em Madeira, utilizado no restaurante da UNB. Embora ainda não tivesse esse nome na época, o SR2 foi também desenvolvido pela OCA em  encomenda ao governo da Amazonas para substituir os barracos palafitas. Em um texto publicado na revista Módulo em 1962, o projeto é descrito em detalhes que incluem a estrutura das placas ("placas de compensado forrado ou não, com esqueleto de madeira maciça") e o material ("O piso é de tábuas de peroba, sistema macho-fêmea, com revestimento de material plástico na cozinha e no banheiro quanto a divisão dos cômodos").4

Durante 13 anos sob comando de Sergio Rodrigues, a OCA é mencionada diversas vezes especialmente pelo seu caráter democratizante e inovador para a época. Em um texto escrito para o catálogo da exposição “Casa individual pré-fabricada”, realizada em 1960 no MAM do Rio de Janeiro, o crítico e curador Mario Pedrosa (1900-1981) assim descreve a produção do designer junto à OCA: "Nesta época de irreprimível individualismo, com profundo caráter anárquico e pessimista (...), exposição como esta, em boa hora promovida pelo MAM, é iniciativa que podemos saudar pelo seu otimismo. (...) Trata-se de experiências em módulos pré-fabricados para habitação individual, projetados pelos arquitetos da Oca. (...) uma solução possível, dentro de certos limites, para esse problema fundamental, o da habitação comum, popular, longe de resolvido."5

A tentativa de pensar o design e a arquitetura como função social e participativa é também destacada em comentário crítico mais recente de Afonso Luz, que menciona a dimensão colaborativa que vigora na OCA na relação com os clientes. "Sergio gostava de afirmar essa sua característica de designer: dava a liberdade de escolha a quem fazia as encomendas (...). Este “processo participativo”, por assim dizer, no desenvolvimento do design é algo que está posto nas propostas das casas individuais e modulares de forma plena."6

O interesse de Sérgio Rodrigues em produzir móveis em série, dialogando com uma dimensão social da arquitetura, faz com que, em paralelo à OCA, ele crie a fábrica Taba, inaugurada em 1956 em Bonsucesso. A empresa é uma tentativa de aproximar a  OCA de uma produção mais industrial. Outra iniciativa de difundir o alcance de suas peças vem com a loja Meia Pataca, criada em 1963 com o objetivo de comercializar móveis mais econômicos – no lugar da madeira jacarandá característica da OCA, era usada a madeira gonçalo alves, entre outras iniciativas para reduzir o preço.7

Ambas as empresas encerram suas atividades sob o comando de Sérgio Rodrigues em 1968, quando a OCA é assumida por outros sócios. Antes disso, entre 1965 e 1968, a OCA tem ainda uma incursão em Carmel, na Califórnia (EUA), o que contribui para a internacionalização do mobiliário moderno brasileiro.

A importância da Loja OCA, inserida em um contexto no qual a cena cultural brasileira se desenvolve em diversas áreas, ainda iria reverberar durante muitos anos. Diretamente associada à difusão de novas expressões no campo do design moderno brasileiro, a marca criada por Sérgio Rodrigues é uma das responsáveis pela consolidação de uma produção local cuja identidade começa a se desenhar naquela época.

 

Notas

1. Sérgio Rodrigues se desliga da OCA em 1968. Depois disso, como conta, a marca segue em funcionamento sob o comando de outros sócios, que continuam produzindo alguns modelos do designer. Em: Serapião, Fernando, Entrevista Sérgio Rodrigues, revista Projeto Design, Edição 284. Disponível em: https://arcoweb.com.br/projetodesign/entrevista/sergio-rodrigues-ninguem-cria-30-10-2003.

2. Gerbase, Fabióla; Autran, Paula; Candida, Simone. "Sergio Rodrigues, um mestre atemporal do mobiliário." Coluna Design Rio, O Globo. Disponível em:

3. Entre os projetos estava a cadeira Candango (1962), para o auditório Dois Candangos, depois usada em outros teatros pelo país. Zappa, Regina. "A Bossa em Brasília - o móvel com pinta de Brasil". Sérgio Rodrigues - o Brasil na ponta do lápis. p. 52.

4. O texto não está assinado, mas especula-se que tenha sido escrito pelo próprio Sérgio Rodrigues, que colaborou para a revista em outras ocasiões. "Oca – a originalidade do estilo em função do conforto e do ambiente". Módulo – revista de arquitetura e artes visuais no Brasil, Rio de Janeiro, n. 29, p. 28, ago.1962. Disponível em:

5. Pedrosa, Mario, "Casa pré-fabricada e individual". Texto para o catálogo da exposição realizada no MAM-RJ em 1960. Disponível em:

6. Luz, Afonso. "Oca: a originalidade do estilo em função do conforto e do ambiente." Fortuna Crítica - Sérgio Rodrigues. Instituto Sérgio Rodrigues p. 75, 2018.

7. Zappa, Regina. p. 38. 

Fontes de pesquisa 7

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  • "OCA – a originalidade do estilo em função do conforto e do ambiente". Módulo – revista de arquitetura e artes visuais no Brasil, Rio de Janeiro, n. 29, p. 28, ago. 1962.
  • HUGERTH, M. W. (2014). Móveis Artesanal: prelúdio à Forma, OCA e Mobilinea. Histórias do Design no Brasil II. 1ed. São Paulo: Annablume. p. 150-189
  • LEAL, Joice Joppert, ed. Um olhar sobre o design brasileiro. SENAI-SP Editora, 2012.
  • LUZ, Afonso (org). Fortuna Crítica - Sérgio Rodrigues. Instituto Sérgio Rodrigues, 2018. Disponível em: http://www.institutosergiorodrigues.com.br/Projetos/PDF/14/Fortuna-Critica-Sergio-Rodrigues.pdf.
  • MARI, M. (2017). Melancolia do moderno: móveis esquecidos de Sergio Rodrigues. ARS (São Paulo), 15(29), 122-145.
  • SANTOS, Maria Cecilia Loschiavo. Móvel moderno no Brasil. São Paulo: Olhares, 2015.
  • ZAPPA, Regina, Sergio Rodrigues - o Brasil na Ponta do Lápis. Instituto Sérgio Rodrigues. Disponível em: http://www.institutosergiorodrigues.com.br/Biografia.pdf. Acesso em: 17 set. 2019

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