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Artes visuais

Galeria Relevo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 30.03.2021
12.1961 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
12.1969 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
A Galeria Relevo é inaugurada em dezembro de 1961 pelo romeno Jean Boghici (1928-2015), colecionador, marchand e galerista, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 252, no Rio de Janeiro. Participam em sociedade Jonas Prochovnic, sócio de uma loja de automóveis, Eryma Carneiro, tributarista, e seu filho, Carlos Eryma. A primeira exposição realiz...

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A Galeria Relevo é inaugurada em dezembro de 1961 pelo romeno Jean Boghici (1928-2015), colecionador, marchand e galerista, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 252, no Rio de Janeiro. Participam em sociedade Jonas Prochovnic, sócio de uma loja de automóveis, Eryma Carneiro, tributarista, e seu filho, Carlos Eryma. A primeira exposição realizada é a do pintor Emeric Marcier (1916-1990), em comemoração aos 25 anos do trabalho em desenho do artista.

A Relevo surge em um período de ascensão de novas galerias, como a Petite Galerie, adquirida por Franco Terranova (1923-2013) em 1954, e a Galeria Bonino, aberta em 1960 pelo próprio Bonino. As três são marcos iniciais do mercado de arte no Rio de Janeiro, já que os anos 1960 assinalam o início de um adensamento do campo das artes no Brasil, processo que assiste ao surgimento de uma série de espaços de arte. As atividades de marchands e galerias1 são responsáveis pela constituição de um mercado de arte propriamente dito. Ao lado das bienais e dos museus de arte moderna do Rio de Janeiro e de São Paulo, que surgem em 1948,2 tais galerias têm papel importante na formação dos artistas a partir da década de 1960, incentivando a exposição de arte moderna e contemporânea brasileira e internacional3 e estabelecendo-se como ponto de encontro de artistas e intelectuais.

Boghici possui coleção relevante de arte moderna quando funda a Relevo – com obras de Alfredo Volpi (1896-1988), José Pancetti (1902-1958), Milton Dacosta (1915-1988), Cicero Dias (1907-2003), Iberê Camargo (1914-1994), Ismael Nery (1900-1934) e Guignard (1896-1962) – e a utiliza na segunda mostra da casa, realizada em janeiro de 1962. A arte moderna é um dos focos da galeria, que organiza retrospectivas de grande repercussão de Di Cavalcanti (1897-1976) e Oswaldo Goeldi (1895-1961). Já a arte popular, outra vertente privilegiada, aparece em mostras de Grauben do Monte Lima (1889-1972), Benjamin Silva (1927), Francisco da Silva (1910-1985), Carlos Louzada (1905-1984) e Pedro Paulo Leal (1894-ca.1968).

Antes de criar a Relevo, Boghici conhece Lygia Clark (1920-1988) e pesquisa arte popular com o cronista José Carlos de Oliveira (1934-1986) na Fundação Cultural do Distrito Federal,4 dirigida pelo poeta e crítico Ferreira Gullar (1930). O poeta, a propósito da inauguração da Relevo, escreve que o espaço “tem em seus planos a publicação de livros de arte, inclusive experiências gráficas de vanguarda”, e ressalta: “Esperemos que o entusiasmo não passe e que as condições reais permitam aos idealizadores levar adiante iniciativas de tal importância para a vida cultural do país”.5

Em pouco tempo, a Relevo adquire prestígio,6 tornando-se um local de aglutinação de artistas, críticos e colecionadores.7 Passa a expor artistas estabelecidos, como Inimá de Paula (1918-1999), Rubem Valentim (1922-1991), Carlos Scliar (1920-2001) e Ione Saldanha (1919-2001) – a primeira a assinar contrato com a galeria.

Texto do escritor e artista Lúcio Cardoso (1912-1968) acompanha a mostra de Ione Saldanha. Já Gullar redige a apresentação da mostra de Goeldi em 1962, enquanto Mário Pedrosa (1900-1981) apresenta as de Maria Leontina (1917-1984) e Di Cavalcanti, em 1963 e 1964, entre outros. A Relevo expõe artistas estrangeiros como Wassily Kandinsky (1866-1944), Pablo Picasso (1881-1873), Joan Miró (1893-1983) e Salvador Dali (1904-1989). Também apresenta uma geração mais jovem, como Piero Dorazio (1927-2005); Nemésio Antunes (1918-1993), apresentado por Pablo Neruda (1904-1973) e Natalia Dumitresco (1915-1997); e Alexandre Istrati (1915-1991), com texto de Eugene Ionesco (1909-1994).

A vocação vanguardista da galeria se deve à repercussão da mostra Nova Figuração da Escola de Paris,8 realizada em agosto de 1964, com Wright Adzak (1927), Peter Foldès (1924), Gérard Tisserand (1934) e Antonio Berni (1905-1981) – que também participam de individuais em 1965 e 1966 –, entre outros artistas. O catálogo é apresentado pela marchand e jornalista Ceres Franco, com quem Boghici organiza, em 1965, a mostra Opinião 65, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). Estão presentes dois artistas lançados pela Relevo no ano anterior: Antonio Dias (1944), apresentado com textos de Pierre Restany (1930-2003); e Rubens Gerchman (1942-2008), apresentado por Mário Pedrosa.

Em 1966, é organizada outra mostra de grande impacto, Supermercado 66, que reúne obras de pequeno formato e a baixo preço de 90 artistas brasileiros, as quais o comprador leva em um saco de papel, pagando na saída. Na ocasião, Hélio Oiticica (1937-1980) e Lygia Clark apresentam a obra Diálogo de Mãos (1966).

A galeria também realiza individuais de Ivan Freitas (1932), Aluísio Carvão (1920-2001), Carlos Leão (1906-1983) e Dionísio del Santo (1925-1999), em 1966; Antonio Dias, Anna Bella Geiger (1933) e Miguel Rio Branco (1946), em 1967. Em 1968, expõe gravuras de Picasso e individuais de Kasuo Ikeda (1941), Newton Rezende (1912-1994) e Scliar, além de uma exposição de Gerchman realizada em uma única noite, antes de seu embarque para os Estados Unidos. A última exposição da galeria é uma individual de Wanda Pimentel (1948), em março de 1969.

Em abril do mesmo ano, Frederico Morais publica nota em sua coluna no jornal Diário de Notícias anunciando a paralisação das atividades da galeria e apontando para a nova situação do país, que deixa de ser propícia aos investimentos culturais como no começo da década: “[...] a arte de vanguarda, como é notório, não é comerciável. A vanguarda, no Brasil, para sobreviver, necessita do apoio dos salões e bienais (o que nem sempre ocorre). Na Guanabara [...] a Galeria G-4 iniciou uma programação ousada [...], mas logo teve de baixar o nível. E encerrou as atividades. A Galeria Relevo, também, teve de intercalar exposições digestivas e de arte amena. Hoje, está vai não vai, com uma programação irregular. Agora é a vez da art-art”.9

Boghici fecha a galeria e deixa o país em 1969, retornando apenas em 1979, quando inaugura a Galeria Jean Boghici, em Ipanema, Rio de Janeiro.

Notas

1. Em São Paulo, Raquel Arnaud e Luisa Strina começam a atuar no mercado de arte no começo dos anos 1960, bem como a Galeria Collectio.
2. O mercado de arte brasileiro tem uma história bastante curta, praticamente só se efetiva e ganha força com os anos 70. O que havia antes era um comércio rarefeito (…). Houve, é claro, várias tentativas para a fixação de um mercado de arte (…), no rastro do prestígio da Bienal de São Paulo”. ZILIO, Carlos; REZENDE, José; BRITO, Ronaldo; CALDAS, Waltercio. A questão da arte/O boom, o pós-boom e o dis-bomm. Opinião, 3 set. 1976, p. 26.
3. Rodrigo Naves comenta que os espaços de arte que surgem a partir da década de 1960 possuem papel formador para a geração de artistas que começa a aparecer naquele momento, todavia ressaltando que “foi somente no final dos anos 80 que passamos a ter no Brasil alguma coincidência entre qualidade artística e reconhecimento público”. NAVES, Rodrigo. Um azar histórico: sobre a recepção das obras de Hélio Oiticica e Lygia Clark. In: O vento e o moinho: ensaios sobre arte moderna e contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 201.
4. Tais obras formariam mais tarde o acervo do Museu da Arte Popular de Brasília.
5. GULLAR, Ferreira. Publicação de livros de arte. Jornal do Brasil, Caderno B, 8 dez.1961. O Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (Relevo apresenta Marcier, de 23 e 24 dez. 1961) também comenta a inauguração da galeria.
6. O jornal Última Hora (edição de sexta-feira, 30 mar. 1962) publica que “o êxito dessa galeria está ligado ao bom nível que vem mantendo na apresentação de exposições”.
7. Além das mostras, também há lançamentos de livros, como Seis desenhistas de humor, que reúne para autógrafos Ziraldo, Jaguar, Fortuna, Hilde, Borjado e Claudius, em 1962, ou o de um álbum de pintores brasileiros modernos, que leva Di Cavalcanti e Djanira à galeria, em 1963.
8. Jornal do Brasil acompanha a repercussão da mostra. Cf.: G. C. Zunzunzum. Jornal do Brasil, Revista de Domingo, 6 set. 1964.
9. MORAIS, Frederico. Diário de Notícias, 2. seção, 29 abr. 1969.

Exposições 21

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Fontes de pesquisa 17

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  • ARCO das rosas: o marchand como curador. Apresentação José Roberto Aguilar; texto Celso Fioravante; trad. Camila Henman Belchior. São Paulo: Casa das Rosas, 2001.
  • BOGHICI, de volta ao mercado. Arte hoje, Rio de Janeiro, n.º 2, p. 53, ago. 1977.
  • BOGHICI: 25 anos caçando as obras de arte. O Liberal, Pará, 19 abr. 1987.
  • CARLOS, Esther Emilio. Valores novos. Diário de Notícias, 2. seção, 10 abr. 1965.
  • FIGURA inteligente e sensível. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 27 jan.1954.
  • IV RESUMO de arte JB. Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 17 mai. 1966, p. 2.
  • LAUS, Harry. O jovem Antonio. Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 18 dez. 1964, p. 5.
  • LAUS, Harry. Quando os quadros são muitos, bons e baratos. Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 12 abr. 1966, p. 5.
  • LAUS, Harry. Visitando exposições. Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 7 abr. 1965, p. 2.
  • LOURENÇO, Maria Cecília França. Museus acolhem moderno. São Paulo: Edusp, 1999. 293 p., il. p&b. (Acadêmica, 26).
  • MORAIS, Frederico. Cronologia das artes plásticas no Rio de Janeiro: da Missão Artística Francesa à Geração 90: 1816-1994. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.
  • MORAIS, Frederico. Panorama das artes plásticas: séculos XIX e XX. 2. ed. rev. São Paulo: Instituto Cultural Itaú, 1991. 164 p.
  • NAVES, Rodrigo. Um azar histórico: sobre a recepção das obras de Hélio Oiticica e Lygia Clark. In: ______. O Vento e o moinho: ensaios sobre arte moderna e contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 531 p., il. p&b. p.195-197.
  • RÊGO, Norma Pereira. Situação do Mercado de Arte. [Enquete realizada com Jean Boghici e Franco Terranova] In: GULLAR, Ferreira (org.). Arte brasileira hoje. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1973, p. 205-211.
  • STROZENBERG, Armando. A arte de investir em arte. Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 27 abr. 1966.
  • ZANINI, Walter (org.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Fundação Djalma Guimarães: Instituto Walther Moreira Salles, 1983. v. 1.
  • ZILIO, Carlos; REZENDE, José; BRITO, Ronaldo; CALDAS, Waltercio. A questão da arte: o boom, o pós-boom e o dis-bomm. Opinião, 3 set. 1976, p. 25-28.

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