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Olhar Eletrônico

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 04.02.2015
1981 Brasil / São Paulo / São Paulo
Produtora independente criada em 1981 por Fernando Meirelles (1955), Marcelo Machado (1958), José Roberto (Beto) Salatini e Paulo Morelli (1956), grupo de jovens recém-formados na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) com a ambiciosa missão de “fazer a televisão do terceiro milênio”. Mais tarde fariam parte ...

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Histórico
Produtora independente criada em 1981 por Fernando Meirelles (1955), Marcelo Machado (1958), José Roberto (Beto) Salatini e Paulo Morelli (1956), grupo de jovens recém-formados na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) com a ambiciosa missão de “fazer a televisão do terceiro milênio”. Mais tarde fariam parte do grupo Marcelo Tas (1959) - consagrado pelo personagem do repórter Ernesto Varela -, Toniko Melo, Renato Barbieri (1958) e Dário Vizeu, entre outros.

A Olhar Eletrônico é pioneira no segmento das produtoras independentes de conteúdo audiovisual para televisão, até então inexistentes no país, já que cada emissora produzia seu próprio conteúdo. O concretizado desejo de entrar na programação da televisão nacional coincide com o primeiro Festival Videobrasil, em 1983, que marca o início do videomaking - à época, devido ao alto custo das câmeras portáteis, poucos tinham acesso a elas, mas, com o advento do vídeo e o barateamento do equipamento, o acesso torna-se mais democrático. Na Mostra de Tapes do festival, a produtora Olhar Eletrônico ganha três troféus, incluindo o primeiro e o segundo prêmios, com os filmes Marly Normal, Garotos do Subúrbio e Brasília.

A visibilidade adquirida no festival atrai o interesse do jornalista Goulart de Andrade (1933), que convida o grupo, no mesmo ano, a compor a equipe de reportagem do seu programa Comando da Madrugada e, posteriormente, do 23a Hora, ambos na TV Gazeta. Pelos próximos quatro anos a Olhar Eletrônico atinge seu auge criativo e comercial, colaborando em programas experimentais na TV Gazeta, TV Manchete, TV Cultura e Abril Vídeo.

O 23a Hora incorpora e torna conhecida a figura do repórter Ernesto Varela, que depois migraria para os outros programas. Esse pseudônimo de Marcelo Tas nasce devido ao rodízio de funções que a produtora adota. O personagem do repórter de óculos vermelhos é dono de uma sagacidade travestida na forma de perguntas ingênuas que constrangem os entrevistados pela sinceridade, criando um novo formato de jornalismo. O personagem entrevista personalidades como o cacique Raoni, garimpeiros de Serra Pelada, Nelson Piquet, Sarney e Lula, além de viajar para Cuba e União Soviética, sempre acompanhado de seu parceiro, o câmera Valdeci, personagem encarnado por Fernando Meirelles. Varela é eternizado em 1984 devido a uma rápida entrevista com o político Paulo Maluf (1931), que vira as costas para o repórter após ele ter cantado parabéns em uma coletiva de imprensa e perguntado se era verdade que o político roubava os cofres públicos.

Outro programa criado pela produtora a convite da Abril Vídeo e transmitido pela TV Gazeta é o semanal Crig-Rá, de meia hora de duração. Voltado ao público jovem, o apresentador Bob Macjack, também vivido por Tas, trata sobre música e apresenta os primeiros videoclipes feitos no país, em plena efervescência na década de 1980. Com Crig-Rá, que se autodenomina “o melhor programa de rádio da TV brasileira”, uma nova leva de colaboradores passa a fazer parte do grupo, como Sandra Annenberg (1968), Adriano Goldman (1967), Hugo Prata, Giulia Gam (1966), Paulo Cesarino Costa, Yone Sassa e José Roberto Sadek.

A Olhar Eletrônico deixa contribuições importantes para a produção audiovisual brasileira e para o modo de fazer jornalismo televisivo. Elas  se devem principalmente a inovações de linguagem e ampliação do repertório de programas, com fortes traços de metalinguagem e críticas não só políticas, mas ao mundo do consumo – todas marcadas por um espírito jocoso, traço forte do grupo. No gênero do telejornalismo pode-se destacar não só a oscilação entre verdade, humor e ficção – representada principalmente por Ernesto Varela –, como também o ato de ir às ruas e dar voz ao cidadão comum, permitindo que ele se torne entrevistador, algo inédito. Exemplo disso é Do Outro Lado da Sua Casa (1985), em que um catador de papelão protagoniza uma reportagem sobre a rotina de quem mora na rua e sobrevive do lixo. Gilberto, personagem real, se mostra tão articulado que acaba assumindo o microfone e entrevistando outros colegas catadores.

Também é herança do grupo a figura do apresentador que adentra a redação e mostra seus bastidores, o uso da cidade como cenário do telejornal (ideia inspirada no fato de o prédio da TV Gazeta estar localizado na Avenida Paulista) e os jump-cuts, técnica em que as marcas de edição no depoimento do entrevistado não são escondidas. Todas estas características são adotadas até hoje por diversas emissoras de TV nacionais.

Apesar de informais e divertidas, as criações da Olhar Eletrônico não são acidentais. O amplo repertório dos integrantes do grupo deve-se principalmente ao Cultural, reunião ocorrida às segundas-feiras, voltada à pesquisa teórica sobre diversos assuntos, na qual todos participam. Coordenada por Dário Vizeu, aborda de Platão a astrologia e tem convidados importantes como Mino Carta (1933), Antunes Filho (1929) e Walter Clark (1936-1997).

O grupo dissolve-se de forma gradual, no final da década de 1980, quando seus integrantes começam a trabalhar individualmente. Em 1991, Fernando Meirelles e Paulo Morelli fundam a O2 Filmes, com foco inicial em filmes publicitários. Entre os trabalhos realizados por seus integrantes após o fim da produtora, estão os programas Rá-Tim-Bum, na TV Cultura, com direção de Fernando Meirelles, tendo Marcelo Tas e Paulo Morelli como convidados; e o Telecurso 2000, para a Fundação Roberto Marinho, com direção de criação de Tas e Dário Vizeu.

Fontes de pesquisa 13

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  • ANDRADE, Goulart de. Entrevista concedida pelo jornalista para a série Videobrasil na TV, parte da temporada 2013 do Festival Videobrasil, São Paulo, 2013.
  • DO OUTRO LADO DA SUA CASA. Direção: Marcelo Machado, Paulo Morelli, Renato Barbieri. Produtora: Olhar Eletrônico. Documentário, vídeo, 1985, Brasil, 19 min.
  • ERNESTO VARELA EM SERRA PELADA, 1984. Documentário, Direção Marcelo Tas, Fernando Meireles. Realização Olhar Eletrônico.
  • HAMA, Lia. Ernesto Varela, o repórter. Revista Trip, n. 221, São Paulo, mai. 2013.
  • MACHADO, Marcelo. Entrevista concedida pelo jornalista para a série Videobrasil na TV, parte da temporada 2013 do Festival Videobrasil, São Paulo, 2013.
  • MEIRELLES, Fernando. Entrevista concedida pelo diretor para o projeto Sonhar TV, da Academia DCultura. São Paulo, 31 mar. 2012.
  • MEIRELLES, Fernando. Entrevista concedida pelo jornalista para a série Videobrasil na TV, parte da temporada 2013 do Festival Videobrasil, São Paulo, 2013.
  • MELLO, Christine. Olhar eletrônico. In: Extremidades do vídeo. São Paulo: Editora Senac, 2008.
  • MENA, Fernanda. Fernando Meirelles e Tadeu Jungle eram a dupla dinâmica do vídeo no Brasil. Folha de S.Paulo, Revista Serafina. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/serafina/2013/09/1348438-fernando-meirelles-e-tadeu-jungle-eram-a-dupla-dinamica-do-video-no-brasil.shtml. Acesso em: 13 jan. 2014.
  • OLHAR Eletrônico: da nova TV ao sucesso. Revista Bizz, n. 1, São Paulo, jun. 1985, p. 50-51.
  • OS HOMENS-bomba que inventaram a internet. Matéria no portal do Festival Videobrasil 2013, postada em 18 out. 2013. Disponível em: http://site.videobrasil.org.br/news/1713293. Acesso em: 13 jan. 2014.
  • TAS, Marcelo. A minha história da olhar eletrônico. In: MACHADO, Arlindo (org.). Made in Brasil: três décadas do vídeo brasileiro. Curador Arlindo Machado; Texto Walter Zanini, Fernando Cocchiarale, Cacilda Teixeira da Costa et al.. São Paulo: Itaú Cultural, 2003. 275 p., il. p&b.
  • TAS, Marcelo. Entrevista concedida pelo jornalista para a série Videobrasil na TV, parte da temporada 2013 do Festival Videobrasil, São Paulo, 2013.

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