Artigo da seção instituições Companhia Cinematográfica Vera Cruz

Companhia Cinematográfica Vera Cruz

Artigo da seção instituições
Cinema  
Data de aberturaCompanhia Cinematográfica Vera Cruz: 1949 Local de abertura: (Brasil / São Paulo / São Bernardo do Campo) | Data de fechamento 1954 Local de fechamento: (Brasil / São Paulo / São Bernardo do Campo)

A Companhia Cinematográfica Vera Cruz é uma produtora brasileira dos anos 1950. Destaca-se principalmente pela qualidade técnica e artística de seus dramas e comédias, que ajudam a modernizar o cinema brasileiro, e pela repercussão internacional de filmes como O Cangaceiro (1953) e Sinhá Moça (1953). De seus estúdios, saem filmes realizados com orçamentos generosos, recursos técnicos avançados e profissionais bem remunerados.

Na década de 1950, o Brasil do pós-guerra vive um impulso modernizador e industrializante. Em São Paulo, os imigrantes desempenham papel importante nessa fase, ao fomentar iniciativas culturais como o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e a Vera Cruz. A companhia é fundada em 1949 pelo engenheiro italiano Franco Zampari (1898-1966) e pelo industrial ítalo-brasileiro Francisco Matarazzo Sobrinho (1898-1977), dono do terreno onde o empreendimento é erguido, em São Bernardo do Campo, São Paulo. Para produtor geral, eles convidam o cineasta Alberto Cavalcanti (1897-1982), brasileiro radicado na Europa.

Com apoio da intelectualidade e da elite financeira paulista, o cinema deixa de ser uma atividade marginal. A Vera Cruz constrói quatro estúdios de 1,4 mil metros quadrados cada um, equipados com itens de última geração, e investe em 8 caminhões, 3 jipes, 3 caminhonetes e 1 ônibus. Alguns autores qualificam os moldes de trabalho da empresa como hollywoodianos, mas outros defendem que se aproximam mais dos modelos de organização europeus, especialmente o italiano e o inglês.

De 1950 a 1954, a Vera Cruz lança 22 filmes, entre eles, 18 longas de ficção. A primeira produção, Caiçara (1950), de Adolfo Celi (1922-1986), é sobre uma jovem que deixa um orfanato para viver no litoral com um viúvo construtor de barcos, mas acaba despertando o interesse de um marinheiro aventureiro. O filme conquista espaço sem precedentes para um título brasileiro na imprensa e amplia o espectro de discussões sobre o cinema nacional.

Em 1951, a Vera Cruz perde Cavalcanti – por desentendimentos com Zampari – e contrata o ator Anselmo Duarte (1920-2009). No mesmo ano, chega o comediante radiofônico Amácio Mazzaropi (1912-1981) para interpretar o caminhoneiro Isidoro em Sai da Frente (1952), de Tom Payne (1914-1996) e Abílio Pereira de Almeida (1906-1977). Ele estreia no cinema quando a Vera Cruz busca criar um estilo brasileiro de comédia. Outro destaque do mesmo ano, inspirado na vida do músico e compositor Zequinha de Abreu (1880-1935), é Tico-Tico no Fubá (Celi), primeiro filme de Anselmo Duarte na companhia, lançado em 22 salas.

A bibliografia disponível diverge sobre a brasilidade existente no catálogo da Vera Cruz. Muitos autores afirmam que a produção é caracterizada por certo estrangeirismo, ou até um brasileirismo artificial, na escolha dos temas e na abordagem, consequência de os cineastas serem, em boa parte, estrangeiros, e também da intenção de fazer cinema em moldes internacionais. Outros sustentam que o Brasil retratado pelos filmes da companhia traduz o contexto da época e o reflexo desse contexto na produção cultural. Nesse sentido, a comunidade onde se passa a trama de Caiçara, com suas práticas religiosas e outras manifestações culturais, seria uma representação fílmica da nação brasileira.

Em 1953, a Vera Cruz abre as portas do mercado internacional com O Cangaceiro, de Lima Barreto (1906-1982), inspirado na vida do bandoleiro Lampião (1898-1938). A fita estreia em 24 cinemas e registra 800 mil pessoas, recorde de bilheteria até então no país. Depois, conquista um prêmio no Festival de Cannes. Outro lançamento exitoso, também de teor histórico e social, é o drama Sinhá Moça (Payne), que ganha o Leão de Bronze, terceiro maior prêmio do Festival de Veneza, ao romantizar um episódio da abolição da escravatura. Esses dois são os longas mais premiados da Vera Cruz que abordam fenômenos profundamente nacionais.

A essa altura, no entanto, a companhia já enfrenta problemas de caixa, pois a maior parte dos lucros é revertida para distribuidores e exibidores, geralmente internacionais. Com isso, o retorno do capital investido é lento, de modo que o dinheiro obtido com um filme não pode ser usado para financiar o próximo. A empresa contrai empréstimos e se endivida, até que, em 1954, tem suas ações assumidas pelo Banco do Estado de São Paulo. Em dezembro, a Vera Cruz faz seu último lançamento: o documentário São Paulo em Festa, de Lima Barreto, sobre os festejos do Quarto Centenário da cidade. Posteriormente, a companhia segue como distribuidora de seu acervo, de propriedade da família do cineasta Walter Hugo Khouri (1929-2003).

Em 2003, é publicado o livro Vera Cruz – Imagens e história do cinema brasileiro, organizado por Sérgio Martinelli, que propõe uma revisão sobre o legado da produtora, questionando se a companhia é um projeto da burguesia paulista para criar uma Hollywood dos trópicos. Martinelli alega que tal percepção é causada pelas críticas do Cinema Novo aos filmes que o antecederam. Vale notar que Zampari foi acusado de fazer algo semelhante quando criou a Vera Cruz, ignorando os veteranos da época e evitando se informar sobre as dinâmicas do cinema.

Embora não tenha praticado um modelo sustentável de negócio, a Vera Cruz precipitou a industrialização do cinema brasileiro, contribuindo para a elevação do nível artístico e técnico dos filmes nacionais.

Outras informações da instituição Companhia Cinematográfica Vera Cruz:

  • Outros nomes
    • Vera Cruz
  • Atuação
    • Produtora
    • Estúdio cinematográfico
  • Relações com outros artigos da enciclopédia:

Fontes de pesquisa (8)

  • GALVÃO, Maria Rita. Burguesia e cinema: o caso Vera Cruz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/Embrafilme, 1981.
  • GONÇALVES, Maurício Reinaldo. Companhia Cinematográfica Vera Cruz: inspiração europeia e discurso de brasilidade. In: Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação. São Paulo, v. 33, p. 127-144, jan./jun. 2010.
  • MARTINELLI, Sérgio (org.). Vera Cruz: Imagens e histórias do cinema brasileiro. São Paulo: ABooks, 2003.
  • MERTEN, Luiz Carlos. Obra elucida o mistério da Vera Cruz. Agência Estado, 29 mar. 2003. Disponível em: https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,obra-elucida-o-misterio-da-vera-cruz,20030329p74266. Acesso em: 25 mai. 2020.
  • RAMOS, Fernando Pessoa; SCHVARZMAN, Sheila (org.). Nova história do cinema brasileiro. vol. 1 (edição ampliada). São Paulo: Edições Sesc, 2018.
  • SIMONARD, Pedro. A geração do Cinema Novo: para uma antropologia do cinema. Rio de Janeiro: Mauad, 2006. 
  • SOCINE (org.). Estudos de cinema II e III. São Paulo: Annablume, 2000.
  • VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Embrafilme, 1987.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • COMPANHIA Cinematográfica Vera Cruz. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/instituicao272447/companhia-cinematografica-vera-cruz>. Acesso em: 25 de Out. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7