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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Os Tincõas

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.04.2022
1960
2000
Os Tincoãs (Cachoeira, Bahia, 1960 – Luanda, Angola, 2000). Trio vocal e instrumental formado, em diferentes momentos, por Erivaldo (Erivaldo Souza Brito), Heraldo (Heraldo Costa Bouzas, 19??-1975), Dadinho (Grinaldo Salustiano dos Santos, 19??-2000), Mateus Aleluia [Mateus Aleluia Lima (1943)], Morais e Badu (Getúlio Souza). Suas canções se car...

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Os Tincoãs (Cachoeira, Bahia, 1960 – Luanda, Angola, 2000). Trio vocal e instrumental formado, em diferentes momentos, por Erivaldo (Erivaldo Souza Brito), Heraldo (Heraldo Costa Bouzas, 19??-1975), Dadinho (Grinaldo Salustiano dos Santos, 19??-2000), Mateus Aleluia [Mateus Aleluia Lima (1943)], Morais e Badu (Getúlio Souza). Suas canções se caracterizam por fundir temas e elementos rítmicos do candomblé às harmonias vocais da música sacra católica.

Intérprete de boleros, ritmo bastante difundido na cidade baiana de Cachoeira nos anos 1950, o trio traz na primeira formação os músicos Dadinho no violão e primeira voz, Heraldo nas maracas e segunda voz e Erivaldo no tantã e terceira voz. Em 1961, grava o primeiro LP, Meu último bolero (1961). Centrado no gênero hispano-americano, o disco reflete a influência do trio mexicano Los Panchos e do brasileiro Trio Irakitan, bem como apresenta contornos harmônicos de vozes que caracterizam a sonoridade do grupo.

Com a saída de Erivaldo, Mateus Aleluia passa a integrar o conjunto em 1962 e promove o redirecionamento de repertório do grupo. Os arranjos vocais, criados de maneira intuitiva, passam a ser combinados com ritmos e temas vindos do candomblé que, assim como os coros católicos, permeiam a escuta dos integrantes do conjunto. Isso implica uma mudança na instrumentação, que, além do violão, passa a incluir atabaque, agogô e cabaça.

O primeiro disco nesse novo formato, de 1973, conta apenas com as vozes e os instrumentos do grupo. As canções são, em sua maioria, adaptações de temas tradicionais, reunindo cantos da umbanda, como o tema de canjira “Deixa a Gira Girar”, e do candomblé, como os toques “Ogundê” e “Obaluaê”, cantados em iorubá. O sincretismo religioso também está presente na capa do disco: na frente, uma foto dos três integrantes usando guias de orixás e, no verso, uma ilustração que remete à figura do Preto-Velho. O repertório revela um denso trabalho de pesquisa em terreiros do Recôncavo Baiano, e o tratamento musical demonstra o diálogo com o samba urbano, como em “Capela d’Ajuda”, de autoria do trio, e “Embola Embola”, um tema tradicional. A essas características se soma o colorido barroco das vozes que soam a maior parte do tempo em uníssono, contrastando os falsetes de Dadinho com os graves de Mateus, maneira de cantar aprendida em corais católicos de Cachoeira.

Inserida na indústria fonográfica em um momento propício para a difusão das religiões afro-brasileiras na música, a obra de Os Tincoãs se difere das produções da época por assumir o candomblé como elemento central da criação musical do grupo. O trabalho do trio tampouco se restringe ao registro documental de temáticas religiosas, mas reelabora seus elementos à luz de múltiplas referências. Em O Africanto dos Tincoãs (1975), segundo LP do grupo, apenas duas canções não têm o universo religioso como tema: “Dora”, samba de Dorival Caymmi (1914-2008), e o samba de roda “Anita”, de Mateus e Dadinho. Algumas mudanças se notam nesse trabalho: a sonoridade está mais preenchida por arranjos, a cargo de Oberdan Magalhães (1945-1984) e João Donato (1934); as faixas são quase todas de autoria de Mateus e Dadinho, e não adaptações de toques do candomblé; e a ausência de Heraldo, morto em 1975. Após uma breve passagem de Morais, o trio é refeito com Badu no agogô e segunda voz.

A proposta incomum faz com que a obra não seja prontamente assimilada, embora tenha contado com o apoio do radialista Adelzon Alves (1939), que, além de participar da produção dos discos, os promove no rádio. O trio obtém maior projeção a partir da inclusão da canção “Banzo” (Heckel Tavares e Murillo Araújo) na trilha da novela Escrava Isaura, da TV Globo, em 1976. Suas composições também são incluídas em coletâneas editadas pelo selo Som Livre, como a marcha “Quebra, Quebra Guabiraba”, no LP Carnaval 76 – Convocação Geral Nº 2, e “Promessa ao Gantois”, no LP Canto de Fé (1977). Em 1977, o grupo lança outro álbum, que traz entre suas faixas “Cordeiro de Nanã”, a canção do trio mais regravada por outros artistas, entre os quais João Gilberto (1931-2019). A capa traz uma composição serigráfica a partir da fotografia dos três integrantes, com cabelo black power, reforçando o símbolo de resistência da cultura negra.

Em 1982, o trio participa do Festival MPB Shell com a composição “Ajagunã”, incluída no LP das músicas finalistas e em um compacto simples lançado no mesmo ano. Além das vozes dos três integrantes, a canção conta com um coro de vozes femininas e um trecho recitado. No ano seguinte, o trio acompanha o cantor Martinho da Vila (1938) em uma temporada em Luanda, Angola. A experiência faz com que Mateus e Dadinho se estabeleçam no país africando e Badu se desligue do trio e siga carreira na Espanha. Em 1986, Dadinho e Mateus lançam o único disco em dupla, cujo repertório faz o cruzamento entre música popular brasileira e angolana, e assimila a sonoridade pop dos anos 1980, como se nota no baixo proeminente e na presença de sintetizadores de “Luanda Ê, Lembrança Feliz”.

Com a morte de Dadinho, em 2000, o grupo chega ao fim. Mateus Aleluia retorna ao Brasil em 2002 e inicia carreira solo bem-sucedida. A memória do grupo é reavivada tanto por músicos de gerações mais jovens como pela reedição dos álbuns de 1973, 1975 e 1977 simultaneamente à publicação do livro Nós, Os Tincoãs.

Ao incorporar os ritos de candomblé fora da chave do exotismo, Os Tincoãs deixam um importante legado, tanto por contribuírem para a divulgação dessas tradições, como por conectá-las à produção musical brasileira de sua época.

Fontes de pesquisa 9

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  • ALELUIA, Mateus. Mateus Aleluia: a música de matriz africana na indústria cultural. Canal Nós Transatlânticos, 13 jan. 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=YwJwgoN5r5w. Acesso em: 27 jul. 2021.
  • CASTRO, Roberto Luis. Duplas e Trios vocais da Bahia – Os Tincoãs. Blog Tempo Música: estudos cronológicos. Salvador, 2012. Disponível em: https://tempomusica.blogspot.com/2012/08/os-tincoas.html. Acesso em: 27 jul. 2021.
  • FALCÓN, Bárbara. O reggae de Cachoeira: produção musical em um porto Atlântico. Camaçari, Bahia: Pinaúna Editora, 2012. (Sons da Bahia, 3).
  • LOPES, Nei. “Mateus Aleluia, o último Tincoã”. In: Afro-Brasil reluzente: 100 personalidades notáveis do século XX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.
  • MARIA, Julio. Um elo perdido chamado Tincoãs. O Estado de S.Paulo, 8 dez. 2016, p. 53. Caderno 2.
  • MOURA, Milton Araújo. A presença das religiões brasileiras de matriz africana no repertório musical da mídia. Revista Trilhos, Santo Amaro, v. 1, n. 1, Pp. 9-32, out. 2020. Disponível em: https://revistatrilhos.com/home/index.php/trilhos/article/view/11. Acesso em: 27 jul. 2021.
  • OS TINCOÃS: Os ritmos e cantos da cultura negra do recôncavo baiano. Estúdio F – momentos musicais da Funarte, n. 372. Rio de Janeiro: Rádio Nacional do Rio de Janeiro, EBC, 17 out. 2018. 1 programa de rádio. Disponível em: http://culturabrasil.cmais.com.br/programas/estudio-f/arquivo/os-tincoas-2. Acesso em: 27 jul. 2021.
  • PINHEIRO, Lisandra Barbosa Macedo. Do canto popular ao “ponto cantado”: canção popular e musicalidade afro-religiosa. Mouseion, Canoas, n. 30, pp. 85-104, ago. 2018.
  • VIANNA, Luiz Fernando. Som cultuado do trio Os Tincoãs renasce. Folha de S.Paulo, 15 fev. 2018, C3. Ilustrada.

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