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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Os Originais do Samba

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 15.03.2022
1965 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Criado em 1965, na cidade do Rio de Janeiro, por ex-integrantes da banda Os Sete Modernos do Samba, o grupo musical Os Originais do Samba é um dos mais longevos e influentes coletivos da música popular brasileira.

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Criado em 1965, na cidade do Rio de Janeiro, por ex-integrantes da banda Os Sete Modernos do Samba, o grupo musical Os Originais do Samba é um dos mais longevos e influentes coletivos da música popular brasileira.

A primeira formação do grupo, liderada pelo cantor, percussionista e ator Antônio Carlos Bernardes Gomes (1941-1994) – então conhecido como Carlinhos da Mangueira ou Carlinhos do Reco-Reco e, posteriormente, no auge do estrelato, como Mussum –, conta com Zeca da Cuíca (1935-2020), Chiquinho (1944) no ganzá, Lelei (1946) no tamborim, Bigode (1942) no pandeiro e Rubão (1933-1977) no surdo.

Os fundadores do sexteto cantam, tocam e se apresentam juntos desde o início da década de 1960. Muitos deles carregam forte ligação com escolas de samba do Rio de Janeiro, como a Mangueira e o Salgueiro. O grupo se apresenta na noite carioca como Os Modernos do Samba (depois, Os Sete Modernos do Samba) em teatros de revista e até no luxuoso Golden Room do hotel Copacabana Palace, além de realizarem turnê no México em 1964. Entretanto, desavenças financeiras com o empresário os levam a romper e formar uma nova banda, cujo nome cogitado chega a ser Os Globetrotters do Samba, em referência aos performáticos jogadores de basquete do Harlem nova-iorquino. Batizados de Os Originais do Samba, logo passam a tocar no Teatro de Arena do grupo Opinião, foco de resistência cultural à recém-instalada ditadura militar (1964-1985)1, e assumem, em seguida, a trilha musical do programa televisivo burlesco Pussy Pussy Cats, roteirizado pelo escritor Sérgio Porto (1923-1968).

Em 1968, acompanham a cantora Márcia (1943) e o violonista Baden Powell (1937-2000) no disco Baden, Márcia & Os Originais do Samba — Show Recital, que marca a estreia da banda na indústria fonográfica. No mesmo ano, acompanhando Powell e a cantora Elis Regina (1945-1982), o grupo vence a I Bienal do Samba da TV Record com a canção “Lapinha”, o que eleva o prestígio e a projeção do conjunto. Trasladada para a capital paulista, a banda é então contratada para a badalada boate Blow Up, localizada na Rua Augusta, em São Paulo, onde se apresenta como atração principal e em elogiadas performances ao lado de cantores como Elza Soares (1937-2022), Jorge Ben Jor (1942) e Clara Nunes (1942-1983).

Em 1969, lançam o primeiro álbum da banda, Os Originais do Samba. A faixa “Cadê Tereza”, composta por Jorge Ben Jor, torna-se o primeiro sucesso radiofônico do grupo, embora seja desvalorizada pela crítica. Apesar do desprezo de parte da imprensa especializada, a virada entre as décadas de 1960 e 1970 marca um momento de efervescência para os sambistas. A banda participa, novamente ao lado da cantora Márcia, do V Festival da Música Popular Brasileira, na Record, e de todas as edições do Festival Internacional da Canção, na TV Globo. Os sambistas acompanham o cantor Jair Rodrigues (1939-2014) em turnês nacionais e internacionais, além de manter o ritmo de lançarem um long-play por ano. Esses discos contêm hits como “É de Lei” (composta por Powell e Paulo César Pinheiro), em 1970, “Do Lado Direito da Rua Direita” (Luis Carlos e Chiquinho), “Esperanças Perdidas” (Adeílton Alves e Delcio Carvalho), ambas de 1972, e “Tragédia no Fundo do Mar” (Zeré e Ibrahim), de 1974.

No entanto, para certos críticos musicais, como os jornalistas Ary Vasconcelos (1926-2003) e José Ramos Tinhorão (1928-2021), o grupo está afastado da suposta autenticidade do samba, na tentativa de imprimir em suas interpretações a estética apelativa às rádios comerciais. Curiosamente, esse traço também pode ser lido como uma notável característica da banda, traduzindo para grande parte do seu repertório o que há de mais genuíno nas rodas e escolas de samba — não à toa os vários sambas-enredos são gravados pela banda em sua discografia. É preciso salientar que a sonoridade aperfeiçoada pelo grupo ao longo do tempo, ou seja, a base percussiva e o canto coletivo masculino negro em uníssono, resultam numa importante inflexão para setores da música popular a partir do final dos anos 1970 e nas duas décadas seguintes, no que se costuma denominar de movimento do pagode. A própria recorrência ao humor debochado, traço marcante da persona de Mussum nos palcos, representa um ingrediente da espontaneidade festiva do samba dos morros cariocas.

Com o sucesso crescente da carreira no humor televisivo, sobretudo o alcançado ao lado dos comediantes Renato Aragão (1935), Dedé Santana (1936) e Zacarias (1934-1990) nas emissoras Record, Tupi e, a partir de 1977, na Globo, Mussum deixa o grupo musical em 1979. Antes, porém, em função de sua fama estelar como um dos “trapalhões” na televisão e no cinema, o músico contribui para aumentar a procura por apresentações da banda, com público recorde. Para o reco-reco, a segunda formação de Os Originais do Samba convoca Joãozinho Carnavalesco (1947). No surdo, Branca di Neve (1951-1989) ocupa o lugar deixado pela repentina morte de Rubão. Por sua vez, Bidi (1932-1983) passa a comandar a cuíca desde a saída de Zeca, ainda antes do lançamento do primeiro disco. Outras formações se sucedem nos anos 1990 e no início do século XXI. O álbum mais recente, Ontem, Hoje e Sempre, de 2017, executado pelo vocalista Juninho, Marcos Scooby no cavaco, Rogério Santos no violão e Bigode, único remanescente da formação original.

Em sua longa história, Os Originais do Samba conhecem o apogeu musical nos anos 1970 e conjugam simpática irreverência, refinada habilidade musical e disposição para manter vivas duas das principais marcas da música popular no Brasil: persistência e autenticidade.

Nota

1. Também denominada de ditadura civil-militar por parte da historiografia com o objetivo de enfatizar a participação e apoio de setores da sociedade civil, como o empresariado e parte da imprensa, no golpe de 1964 e no regime que se instaura até o ano de 1985.

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