Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas

A Enciclopédia é o projeto mais antigo do Itaú Cultural. Ela nasce como um banco de dados sobre pintura brasileira, em 1987, e vem sendo construída por muitas mãos.

Se você deseja contribuir com sugestões ou tem dúvidas sobre a Enciclopédia, escreva para nós.

Caso tenha alguma dúvida, sugerimos que você dê uma olhada nas nossas Perguntas Frequentes, onde esclarecemos alguns questionamentos sobre nossa plataforma.

Enciclopédia Itaú Cultural
Dança

Companhia Étnica de Dança e Teatro

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.04.2022
1994 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Fundada em 1994, a Cia. Étnica de Dança é um projeto da diretora Carmen Luz (1959) que articula ao mesmo tempo ação formativa e criação artística. O grupo se torna reconhecido entre 1997 e 2010, período em que está sediado no bairro do Andaraí, na zona norte do Rio de Janeiro.

Texto

Abrir módulo

Fundada em 1994, a Cia. Étnica de Dança é um projeto da diretora Carmen Luz (1959) que articula ao mesmo tempo ação formativa e criação artística. O grupo se torna reconhecido entre 1997 e 2010, período em que está sediado no bairro do Andaraí, na zona norte do Rio de Janeiro.

A companhia é inicialmente criada com o nome de Cia. Étnica de Dança e Teatro, pela coreógrafa Carmen Luz e pela bailarina e atriz Zenaide Zen (1956-2011). Em 1993, ambas integram a Companhia Black e Preto, formada por um grupo de atores e atrizes negros. Saindo do grupo, a dupla cria a Cia. Étnica, mantendo a pesquisa e a valorização da temática dos sujeitos afrodiaspóricos e transitando entre dança, teatro e performance.

Inicialmente, a companhia trabalha com Carmen coreografando e escrevendo a dramaturgia para solos interpretados por Zenaide. Essa formação se apresenta no ano de 1996, momento de maior projeção do Festival Panorama da Dança Contemporânea, do Rio de Janeiro.

Em 1997, o grupo atua em duas frentes e passa a integrar trabalho artístico e projeto social. Esse viés social oferece cursos de formação para a comunidade do Morro do Andaraí, para onde se transfere a sede da companhia. Os cursos são construídos com parcerias públicas e privadas e propostos para qualificar artistas, que passam a compor a companhia, e técnicos para o mercado das artes cênicas.

Essas duas vertentes de ação estão coladas na prática e na estética da companhia, que trabalha e discute as realidades dos sujeitos que recebe, sua movimentação, seus corpos no espaço onde vivem e os elementos de sua própria cultura. É nesse momento que se firma o trabalho coreográfico característico da Cia. Étnica, a partir da experiência pessoal dos intérpretes para falar para além de si. Nesse processo, os intérpretes se descobrem em seus corpos, encontram seus movimentos próprios e trabalham a subjetividade e a identidade a partir de movimentos.

De 1997 a 2000, a Cia. Étnica trabalha a obra Cobertores (2000), apresentada em performances e intervenções em versões ainda em processo de criação antes de se finalizar enquanto espetáculo. Na obra, os intérpretes partem da observação de indivíduos em situação de rua, focando em sua movimentação ao andarem com cobertores. A coreografia mostra o corpo em cena dançando sem que se veja o indivíduo, apenas aquilo que o recobre. A pesquisa trabalha a observação do outro e a percepção de seus contextos e situações particulares. O olhar do outro também importa como forma de validação interna: o grupo se empenha por levar seus próximos para assistirem aos trabalhos, promovendo o reconhecimento desses jovens artistas também dentro da comunidade do Andaraí.

Desse modo se constrói o processo experimental e o método de fazer da Cia. Étnica. Essa constante circulação entre o artístico/profissional e o formativo/social, entretanto, nem sempre é bem vista pela comunidade da dança e pela mídia: o trabalho da companhia é insistentemente visto como restrito ao projeto social, e a atividade da dança é questionada.

A dinâmica com a mídia, no entanto, é responsável pela projeção do grupo. Durante o Festival Panorama de 2000, Carmen Luz é entrevistada pelo Jornal do Brasil, e a matéria sobre a apresentação de Cobertores ganha a capa do caderno de cultura do periódico, o que leva filas de público para a plateia do teatro Cacilda Becker.

O reconhecimento institucional da companhia se dá em diversas instâncias. Em 2010, o grupo se transfere para o Centro Cultural da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e se torna companhia residente da instituição. Em 2014, quando a companhia é contemplada com o Prêmio Afro da Fundação Palmares, recebe o patrocínio da Petrobrás para a realização do espetáculo Chica (2015).

Na obra, o grupo reflete sobre as várias facetas historiográficas de Chica da Silva (ca. 1732-1796). Multiplicam-se em cena não apenas as intérpretes de Chica, mas também as referências às cidades, às artes visuais e às ancestralidades. Aqui, são inter-relacionadas a figura histórica de Chica da Silva, a percepção sociocultural dela e a realidade e o contexto contemporâneos da personagem. Um dos pontos de partida para a criação da obra foi a imagem, que circulou pelas redes sociais em 2013, de um trote ocorrido na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG): uma caloura pintada de preto, acorrentada e com uma placa no pescoço na qual se lê “caloura Chica da Silva”.

A Cia. Étnica de Dança se dedica à pesquisa e à criação artística a partir da experiência de seus intérpretes e diretora e com referência a múltiplas técnicas e linguagens artísticas. Realiza obras de dança e teatro, performance e documentário, ao lado do trabalho social e formativo por meio de projetos educacionais e culturais. Ao trabalhar a herança cultural como tema e processo, em todas as áreas de atuação da companhia se evidencia o foco nas relações de encontro e desencontro dos afrodescendentes em diáspora.

Fontes de pesquisa 8

Abrir módulo
  • CUNHA, Milton. Semiologia de pele negra. O Dia, 2 jun. 2015. Disponível em: https://odia.ig.com.br/noticia/opiniao/2015-06-02/milton-cunha-semiologia-de-pele-negra.html. Acesso em: 16 jun. 2021.
  • DOUXAMI, Christine. Teatro negro: a realidade de um sonho sem sono. Revista Afro-Ásia, Salvador, n. 25-16, pp. 313-363, 2001. Disponível em: http://dx.doi.org/10.9771/aa.v0i25-26.21016. Acesso em: 16 jun. 2021.
  • FERREIRA, Cláudia; BUARQUE DE HOLLANDA, H. (Orgs.) A nova expressão das mulheres da periferia: relatório de pesquisa. Rio de Janeiro, 2009. Disponível em: http://www.memoriaemovimentossociais.com.br/?q=pt-br/node/18. Acesso em: 16 de jun. 2021.
  • LUZ, Carmen. A escrita do corpo negro. [Entrevista cedida a] Renato Farias. Ciência & Letras, nov. 2018. Disponível em: https://youtu.be/VK7z64cz37o. Acesso em: 16 de jun. 2021.
  • LUZ, Carmen. Carmen Luz. [Entrevista cedida a] Henrique Rochelle. São Paulo, 2021.
  • NOGUEIRA, Italo Conrado Monteiro Nogueira. A arte-cidadania nas editorias de cultura: a experiência da Companhia Étnica de Dança e Teatro. Monografia (Graduação em Comunicação Social/ Jornalismo) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.
  • SILVA, Denise Espírito Santo. Diáspora, poesia urbana e africanidades nos espetáculos da Cia. Étnica de dança teatro. Concinnitas, v. 1, n. 18, pp. 157-165, 2011.
  • STROZENBERG, Ilana; CONTINS, Marcia. Jogo de identidades entre jovens negros no Rio de Janeiro: a construção da identidade racial no contexto de iniciativas de combate à discriminação. Cadernos de Estudos Culturais, v. 4, n. 8, 2012. Disponível em: https://periodicos.ufms.br/index.php/cadec/article/view/3529. Acesso em: 16 jun. 2021.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: