Artigo da seção grupos Oito Batutas

Oito Batutas

Artigo da seção grupos
 

Oito Batutas forma-se em abril de 1919, para tocar na sala de espera do Cine Palais, no Rio de Janeiro. O grupo carioca reúne alguns instrumentistas que se transformam em ícones da música popular brasileira, como Pixinguinha (1897-1973), Donga (1890-1974), João Pernambuco (1883-1947) e João da Baiana (1887-1974). A trajetória do conjunto – que sobrevive, com diferentes formações, até 1928 – é representativa das transformações da música popular brasileira dos anos 1920.

Originalmente, o grupo é formado por Pixinguinha (flauta), Donga (violão), Otávio Viana (1888-1927), irmão de Pixinguinha, mais conhecido como China (voz, violão e piano), Raul Palmieri (1887-1968) (violão), Nelson Alves (1895-1960) (cavaquinho), José Alves (bandolim e ganzá), Jacó Palmieri (pandeiro) e Luís Silva (bandola e reco-reco). Os integrantes são remanescentes do bloco carnavalesco carioca Grupo do Caxangá, surgido na esteira do sucesso da embolada “Cabocla de Caxangá” (1913), de João Pernambuco. Trajados com chapéu de cangaceiro e lenço no pescoço, os membros do bloco valem-se do crescente interesse das elites cariocas pela música regional brasileira. O fenômeno é denominado pelo historiador José Ramos Tinhorão (1928) de “gosto pelo exótico nacional”1. Esse processo de valorização da cultura popular liga-se à necessidade de definição da identidade nacional, entendida como soma de manifestações regionais brasileiras. Nesse contexto, emboladas do Norte, toadas mineiras, modas paulistas, cateretês, batuques e outros gêneros identificados como “regionais” ou “sertanejos”2 são considerados manifestações “genuinamente brasileiras”.

Ao migrarem das ruas para a sala de espera do cinematógrafo, os ex-integrantes do Grupo do Caxangá trocam as vestes sertanejas por trajes sociais, mas continuam a explorar a música regional e autodenominam-se “orquestra típica” Oito Batutas. O sucesso do grupo atrai multidões ao cinema, mas suscita manifestações racistas contra quatro membros. Por meio da imprensa, vozes, como a do cronista musical e pianista Júlio Reis (1863-1933), dizem-se envergonhadas pela presença de músicos negros em uma requintada sala da capital federal. Esse discurso ecoa as teorias eugenistas, que, desde 1870, com o declínio do sistema escravista, procuram impedir a integração de ex-escravos à nascente sociedade capitalista. Imediatamente, outros jornalistas e intelectuais saem em defesa dos músicos e criticam o estrangeirismo esnobe das elites, a quem os Batutas vêm mostrar “as belezas do nosso característico samba, o descante da marroada, o batuque, o canto e a música populares, reais e positivamente nossos” [3].

O discurso nacionalista, que vê nas expressões populares afro-brasileiras a verdadeira manifestação da alma nacional, oferece, com uma mão, aquilo que as teorias racistas tiram com a outra. É assim que a população negra das cidades brasileiras, marginalizada do mundo do trabalho formal, encontra na indústria do entretenimento (especialmente na música e, mais tarde, no futebol) uma fonte de subsistência.

Em novembro de 1919, após oito meses em cartaz no Palais, os Batutas excursionam por diversos estados brasileiros, patrocinados por Arnaldo (1884-1963) e Carlos Guinle (1919-1956). Os irmãos  incumbem os músicos de recolher, durante a viagem, material folclórico para publicação de uma antologia de música popular. O grupo excursiona por São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. João Pernambuco integra o conjunto no lugar de José Alves de Lima, que passa a secretariar o grupo. As excursões projetam os Batutas nacionalmente e fomentam o surgimento de outras orquestras típicas, como Turunas Pernambucanos, Turunas da Mauriceia (ambos de Pernambuco) e Bando de Tangarás. O material folclórico recolhido nas viagens chega às mãos do pesquisador Mário de Andrade (1893-1945), que pretende incorporá-lo ao livro Na Pancada do Ganzá, jamais publicado.

Em 1922, financiada por Arnaldo Guinle, a trupe embarca para Paris e entra em contato com o jazz. Durante cinco meses, a orquestra Les Batutas, reduzida a sete integrantes, apresenta-se em casas noturnas da capital francesa. De volta ao Brasil, influenciados pelas jazz bands parisienses, o grupo introduz alguns shimmies e foxtrotes no repertório composto majoritariamente de gêneros brasileiros. Além disso, novos instrumentos são incorporados pelo grupo: o banjo de Donga, o saxofone de Pixinguinha e a bateria de João Tomás.

No ano seguinte, com nova formação, que inclui piano (J. Ribas) e mais o violão de Josué de Barros (1888-1959), os Batutas seguem para Argentina. Apesar dos novos instrumentos, a sonoridade do grupo permanece “típica”, como se nota nos registros realizados pelo grupo na gravadora Victor, de Buenos Aires.  Na capital portenha, entretanto, a influência do jazz provoca cisão do grupo, que reorganiza outra formação, em que predominam os metais. Além de Pixinguinha, Raul Palmieri, China e J. Ribas, os Oito Batutas, como o grupo passa a se denominar, conta com Bonfiglio de Oliveira (1891-1940) (pistão), Euclides Gladino (trombone), Eugênio de Almeida Gomes (bateria) e Luiz Americano (1900-1960) (saxofone). A famosa fotografia do grupo, em pose típica de uma jazz band, testemunha a guinada.

Depois de várias reformulações, em 1928, a Orquestra Típica Oito Batutas participa das primeiras gravações elétricas realizadas no Brasil, pela Victor. O grupo preserva Donga e Pixinguinha da formação original e conta com o pandeiro de João da Baiana. A banda mantém a seção de metais (pistão, saxofone alto e tenor, trombone e tuba), responsável pela execução da melodia e dos contracantos, além de violão, cavaquinho, piano e bateria. Embora inclua números estadunidenses nas apresentações públicas, o conjunto grava unicamente gêneros brasileiros, com predomínio do samba.

Notas:

1. TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular. São Paulo: Círculo do Livro, [s.d.], p. 33.

2. Importante ressaltar que, diferentemente da conotação atual, o termo "música sertaneja" naquela época refere-se à música popular cultivada nos rincões do país, de norte a sul.

3. A Notícia, Rio de Janeiro, 15 out. 1919.

Outras informações do grupo Oito Batutas:

Fontes de pesquisa (8)

  • BESSA, Virgínia de Almeida. A escuta singular de Pixinguinha: história e música popular no Brasil dos anos 1920 e 1930. São Paulo: Alameda Editorial, 2010.
  • CABRAL, Sérgio. Pixinguinha: Vida e Obra. 4. ed. Rio de Janeiro: Funarte, 2007.
  • COELHO, Luís Fernando Hering. Palcos, enterros e gravações: os Oito Batutas na Argentina (1922-1923). ArtCultura, Uberlândia, v. 13, n. 23, p. 65-83, jul./ dez. 2011.
  • FERNANDES, Antonio Barroso (Org.). As vozes desassombradas do Museu – Volume 1: Donga, Pixinguinha e João da Baiana. Extraído dos depoimentos realizados no Museu da Imagem e do Som (MIS). Rio de Janeiro: Secretaria da Educação e Cultura: Museu da Imagem e do Som, 1970.
  • FERNANDES, Antonio Barroso (Org.). As vozes desassombradas do Museu – Volume 1: Donga, Pixinguinha e João da Baiana. Extraído dos depoimentos realizados no Museu da Imagem e do Som (MIS). Rio de Janeiro: Secretaria da Educação e Cultura: Museu da Imagem e do Som, 1970.
  • LEAL, José de Souza. João Pernambuco: a arte de um povo. Rio de Janeiro: Funarte, 1982.
  • PIXINGUINHA – No tempo dos Oito Batutas. Curitiba: Revivendo, [s.d.]. 1 CD.
  • SILVA, Marília T. Barbosa da; OLIVEIRA FILHO, Artur L. de. Filho de Ogum Bexiguento. 2. ed. Rio de Janeiro: Gryphus, 1998.

Como citar?

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  • OITO Batutas. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo636293/oito-batutas>. Acesso em: 13 de Abr. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7