Artigo da seção grupos Grupo Clariô de Teatro

Grupo Clariô de Teatro

Artigo da seção grupos
Teatro  
Data de criação da obra Grupo Clariô de Teatro: 2002 Local de crição: (Brasil / São Paulo / Taboão da Serra)

O Grupo Clariô de Teatro surge em 2002, em Taboão da Serra, município da região metropolitana de São Paulo. Originalmente batizado como Grupo Lasca o Oco, o coletivo participa, nos seus primeiros anos, do maior evento teatral da cidade, a encenação de A Paixão de Cristo na Semana Santa. Participam da fundação do grupo diversos artistas da região, como a atriz e compositora Naruna Costa (1983), o diretor Mario Pazini (1962-2014), a atriz Naloana Lima e o dramaturgo Will Damas.

Em 2005, o coletivo inaugura o Espaço Clariô, primeiro centro cultural de Taboão da Serra, o que fortalece sua identidade como um grupo de periferia, voltado para o cotidiano da comunidade. Além de sediar ensaios e apresentações, abriga oficinas culturais e atividades de trocas artísticas com os moradores da cidade. Entre elas, o Sarau do Binho, o Quintasoito e o Clariô Recebe a Mostra Mario Pazini de Teatro do Gueto1. Durante seus três primeiros anos, o espaço é mantido pelos próprios integrantes do grupo, sem qualquer apoio financeiro, público ou privado.

Após a fase inicial, o coletivo inicia um período de criações autorais, centradas no diálogo com a cultura nordestina, com as estéticas de periferia e com questões vinculadas à afrodescendência. A pesquisa resulta em uma trilogia de obras teatrais, iniciada em 2008, com o espetáculo Hospital da Gente.

Inspirado em contos do escritor pernambucano Marcelino Freire (1967), a montagem aborda o cotidiano e a força de mulheres que vivem nas periferias das grandes cidades. Dirigida por Mario Pazini, a encenação convida o espectador a transitar pelos espaços cênicos vinculados à moradia dessas personagens – como a rua, o quintal e a casa. O espetáculo explora também o diálogo com a música, por meio de canções interpretadas ao vivo pelas atrizes.

Depois de temporada de três anos na sede do grupo, Hospital da Gente vence o 1º Prêmio da Cooperativa Paulista nas categorias Grupo Revelação, Ocupação de Espaço e Melhor Espetáculo do Interior e Litoral de São Paulo. Sobre o trabalho, a crítica de teatro Beth Nespoli (1958), de O Estado de São Paulo, escreve:

(...) há um desejo manifestado por esses artistas de entender e discutir a vida nas bordas da metrópole – sem drama. A ausência de autopiedade é elemento essencial na poética da trupe e se faz presente na encenação, na dramaturgia e, sobretudo, nas interpretações2.

Nesse período, o grupo ganha novos integrantes, como a atriz Martinha Soares, o iluminador Alexandre Souza e o ator Washington Gabriel. O espetáculo apresenta-se no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (2011) e no Festival Recife do Teatro Nacional (2013). 

Com o incentivo de editais públicos, o grupo realiza atividades culturais em sua sede e monta o segundo trabalho da trilogia, Urubú Come Carniça e Vôa (2011). Novamente, a inspiração vem da obra de um artista pernambucano, o escritor João Flávio Cordeiro, conhecido como Miró da Muribeca (1962).

Além de crônicas e poesias, é a própria biografia de Miró que surge no espetáculo. O bairro de Muribeca2, onde existiu um dos maiores lixos a céu aberto da América do Sul, serve de cenário e metáfora para refletir sobre a vida do homem pobre e negro de periferia, traçando um paralelo entre distintos contextos geográficos. 

Como observa o professor e historiador Salloma Salomão sobre Urubú Come Carniça e Vôa, “(...) a interpretação costura, cinge, religa memórias, histórias e ficções de Miró de Muribeca. (...) A ponte-poesis é feita entre contextos tão similares quanto distantes. Recife-Taboão da Serra”4. Pelo trabalho, o grupo recebe o Prêmio Cooperativa de Teatro de 2011 na categoria Elenco.

A trilogia encerra-se com a adaptação para o teatro do famoso poema de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), “Morte e Vida Severina”. É a primeira direção de Naruna Costa no grupo, após o falecimento de Mario Pazini, em 2014. A montagem Severina – da morte à vida (2015) reflete sobre a construção da identidade humana, baseada em vínculos e rupturas entre história e memória.

Na encenação, os atores são batizados de “caminhantes” e constroem sua ação cênica com base nesse movimento, projeção de uma “sociedade que não pode parar nunca”, como aponta a atriz Martinha Soares5. Além do elenco original do Grupo Clariô, participam da montagem o ator e bonequeiro Rager Luan e o ator-brincante e figurinista Cleydson Catarina, que atualmente integram o coletivo.

A pesquisa artística do Clariô desdobra-se, ainda, na criação do grupo musical Clarianas, formado pelas cantoras/atrizes Martinha Soares, Naloana Lima e Naruna Costa, entre outros músicos convidados.

Em 2012, o grupo lança Girandêra, seu primeiro disco, composto por 15 canções autorais de Naruna Costa e uma faixa do cantor e compositor Chico César (1964). O show, apresentado na Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, inclui uma performance musical, com trechos de textos e poesias de escritores brasileiros, como Marcelino Freire, Binho, Luiz Gonzaga (1912-1989) e Miró da Muribeca. 

Notas

1. Originalmente batizada como Mostra Teatro do Gueto, o atual nome é uma homenagem ao diretor e ator da Clariô, Mario Pazini, falecido em 2014.

2. NÉSPOLI, Beth. Vida na periferia, por quem é de lá. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 28 out. 2009. Cultura.

3. Localizado em Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana de Recife.

4. SALOMÃO, Salloma. Clariô Redentor em nova temporada no Taboão. São Paulo, 25 mai. 2011. Disponível em: http://mosaiconegrobras.blogspot.com.br/2011/05/clario.html. Acesso em: 22 nov. 2016.

5. Em entrevista concedida à pesquisadora Julia Guimarães Mendes

Fontes de pesquisa (6)

  • GRUPO Clariô de Teatro. Blog oficial da companhia. São Paulo. Disponível em: http://espacoclario.blogspot.com.br/ Acesso em: 21 nov. 2016
  • GRUPO Clariô de Teatro. Site oficial da companhia. São Paulo. Disponível em: www.grupoclariodeteatro.com.br Acesso em: 22 nov. 2016
  • NÉSPOLI, Beth. Vida na periferia, por quem é de lá. O Estado de São Paulo, São Paulo, 28 out. 2009. Caderno 2, p. 4. Acesso em: 22 nov. 2016
  • SALOMÃO, Salloma. Clariô Redentor em nova temporada no Taboão. São Paulo, 24 mai. 2011. Disponível em: http://mosaiconegrobras.blogspot.com.br/2011/05/clario.html Acesso em: 22 nov. 2016
  • SOARES, Martinha. Martinha Soares. São Paulo: [s.n.], 2016. Depoimento concedido a Julia Guimarães Mendes.
  • SOARES, Martinha. [Currículo e clipping]. Enviado pela artista em: 22 out. 2016.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GRUPO Clariô de Teatro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo636264/grupo-clario-de-teatro>. Acesso em: 08 de Ago. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7