Artigo da seção grupos Bixiga 70

Bixiga 70

Artigo da seção grupos
Música  
Data de criação da obra Bixiga 70: 2010 Local de crição: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Em 2010, músicos independentes de São Paulo reúnem-se para acompanhar o compositor paulistano Pipo Pegoraro (1978) em seu primeiro disco, Táxi Ímã. Gravado no estúdio Traquitana, no número 70 de uma via do bairro do Bixiga (rua 13 de maio), o disco dá origem à big-band Bixiga 70. O nome remete ao histórico grupo do músico nigeriano Fela Kuti (1938-1997), Africa 70. A banda é liderada pelo baterista Décio 7 e pelo guitarrista Cris Scabello, sócios do Traquitana, e formada por Marcelo Dworecki (baixista), Rômulo Nardes e Gustávo Cék (percussionistas), Cuca Ferreira e Daniel Nogueira (saxofonistas), Daniel Gralha (trompetista), Mauricio Fleury (tecladista e guitarrista) e Douglas Antunes (trombonista). Apresentam-se em bares e casas de espetáculo paulistanos, figurando entre os melhores shows de 2010 numa enquete realizada pelo jornal Folha de S.Paulo1.

Ao lado de outras bandas da virada dos anos 2010, como a paulistana Afroelectro (2009), a carioca Abayomy (2012), ou a soteropolitana IFÁ (2013), Bixiga 70 integra um duplo movimento: de um lado, a valorização da música instrumental; de outro, a reivindicação de certa “herança africana” da música brasileira. Tal herança manifesta-se, por exemplo, num revival do afrobeat, gênero criado por Fela Kuti nos anos 1970 com a fusão da polirritmia do oeste africano ao jazz e ao funk. Apesar da influência do nigeriano, o grupo rejeita a associação unívoca com o gênero e ressalta outras. De fato, a sonoridade da banda deriva de experiências de seus integrantes, incluindo a música da Guiné, o maracatu pernambucano  e o dub jamaicano . Além delas, a música tradicional do interior do Brasil, o jazz contemporâneo, o funk e soul e o carimbó paraense

No plano histórico, Bixiga 70 é tributária da orquestra de Abigail Moura (1904-1970) que, nos anos 1940, une pela primeira vez instrumentos percussivos afro-brasileiros (como o agogô e o berimbau) a sopros de big-band, e do afro-jazz de Moacir Santos (1926-2006). A banda também é comparada à orquestra Rumpilezz, de Letieres Leite (1959) pelo caráter polirrítmico e a extensão alongada de suas composições, cuja base rítmico-temática repetitiva e dinamogênica2 produz uma espécie de transe nos shows. O Bixiga 70, entretanto, apresenta sons mais dançantes e sonoros do que os da orquestra baiana. 

Em 2011, o grupo grava seu primeiro álbum pela Traquitana Discos, Bixiga 70, lançado em CD, vinil e download na internet. Seguem-se mais dois álbuns homônimos em 2013 e 2015, identificados como “segundo” e “terceiro”. Neles, o caráter coletivo das composições se acentua, e a mistura de ritmos e estilos torna-se mais abrangente. “Deixa a Gira Girar” (Matheus Aleluia, Dadinho, Eraldo), que abre o segundo disco, é um ponto de umbanda, interpretado num arranjo semelhante ao gravado em 1973 pelo grupo baiano Os Tincoãs. No mesmo álbum, “Kalimba” (Cris Scabello, Bixiga 70) funde sonoridades caribenhas e carimbó. A faixa “100% 13”, do terceiro álbum, apresenta uma fusão de rap, reggae e música árabe. No processo de “criação descentralizada”,  todos dividem os arranjos, a produção e a composição. No terceiro disco, isso é mais intenso, cada um colaborando com ritmos ou temas que se sobrepõem. 

As músicas do grupo, formadas por uma textura cumulativa (superposição progressiva dos instrumentos/ naipes) e divididas em seções de tema e solos, lembram trilhas de filmes de ação. Somadas aos títulos das faixas, essas imagens atribuem caráter referencial às composições. Estas se relacionam com o universo urbano de São Paulo, e com o ambiente tradicional do Bixiga, antigo bairro de escravos e imigrantes e berço do samba paulista. “Balboa da Silva” (Cris Scabello, Bixiga 70), do primeiro disco, é uma homenagem a Nilson Garrido (1958), lutador de boxe com academia no Bixiga que usa o esporte para tirar pessoas da rua. Coincidência ou não, as três primeiras notas do tema (que formam uma terça menor seguida de uma segunda maior) remetem a “Gonna Fly Now”, tema do filme Rocky, um Lutador (1976). “Ocupaí” (Rômulo Nardes, Cuca Ferreira, Bixiga 70), segunda faixa do segundo disco, faz referência ao movimento Ocupaí Bixiga, versão paulistana do Ocupy Wall Street, que promove ações políticas e culturais no bairro. O Bixiga também é citado no título de “Esquinas” (Décio 7, Bixiga 70), cuja polirritmia remete à sobreposição de elementos temporais e étnicos característica do bairro (casarios antigos/ muros grafitados, cortiços/ arranha-céus, carroças/ carros, cantinas italianas/ rodas de samba). Vale ressaltar que as capas dos três discos, assinadas pelo grafiteiro MZK, remetem à cultura urbana e ao tribalismo africano, reforçando a unidade entre os álbuns. 

Em 2016, a banda lança The Copan Connection, vinil só com versões dub de faixas do terceiro disco, mixadas por Victor Rice (1967). O estilo jamaicano, baseado no remix de músicas pré-existentes por meio de recursos eletrônicos como ecos e reverberações, já aparece no primeiro compacto do grupo, de 2011. A faixa “Tema di Malaika”, no lado A, é reapresentada em versão dub no lado B. O mesmo ocorre no segundo compacto, lançado em 2015, com a música “100% 13”. O efeito que a banda provoca no público é tema de Segue o Baile (2019), documentário de Rubens Crispim Jr (1975)., que acompanha 20 shows do Bixiga 70 em São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York e São Francisco. Em suas turnês, a banda também passa pela Inglaterra (onde participa do Glastonbury, em 2016) e África (Festival Mawazine, no Marrocos), e tem seu terceiro álbum lançado na Alemanha pelo selo Glitterbeat.

Notas

1.  FOLHA de S.Paulo. Mistura musical de André Abujamra ganha como melhor estreia nacional. Folha de S.Paulo, São Paulo, 23 dez 2010. Guia Folha, shows. Disponível em: http://guia.folha.uol.com.br/shows/ult10052u850162.shtml. Acesso em:15 out. 2016.

2. Dinamogênico: que tem qualidade contagiante capaz de mobilizar o corpo.

Fontes de pesquisa (6)

  • Segue o Baile - Bixiga 70. Dir: Rubens Crispim Jr. Documentário, 2016.
  • BIXIGA 70. Página oficial do grupo. Disponível em: www.bixiga70.com.br. Acesso em: 15 out. 2016
  • FOLHA de S.Paulo. Mistura musical de André Abujamra ganha como melhor estreia nacional. Folha de S.Paulo, São Paulo, 23 dez 2010. Guia Folha, shows. Disponível em: http://guia.folha.uol.com.br/shows/ult10052u850162.shtml Acesso em: 17 out. 2016
  • GUIMARÃES, Juca. Bixiga 70 lança 3º álbum com som empolgante. Diário de S. Paulo (online), São Paulo, 21 abr. 2015. Disponível em: www.diariosp.com.br/blog/detalhe/29114/bixiga-70-lanca-3-album-com-som-empolgante Acesso em: 17 out. 2016
  • MENEZES, Thales de. Bixiga 70 leva seu som instrumental dançante ao Festival de Glastonbury. Folha de S.Paulo, São Paulo, 30 maio 2016. Ilustrada. Disponível em: folha.com/no1775589  Acesso em: 15 out. 2016
  • NASCIMENTO, Roberto. Rua 13 de maio, 70. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 28 out. 2011. Caderno 2, p. D5.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • BIXIGA 70. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo636258/bixiga-70>. Acesso em: 23 de Out. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7