Artigo da seção grupos Grupo Cena 11 de Dança

Grupo Cena 11 de Dança

Artigo da seção grupos
Dança  
Data de criação da obra Grupo Cena 11 de Dança: 1986 Local de crição: (Brasil / Santa Catarina / Florianópolis)

Fundado em 23 de janeiro de 1986, na cidade de Florianópolis, Santa Catarina, pela professora Rosângela Matos (1957), proprietária da extinta academia Rodança. Na fase inicial, o coreógrafo Anderson João Gonçalves (1964-2010) ministra aulas de jazz e organiza os espetáculos O Importante é Começar (1987), e Escândalo Urbano (1989), com o bailarino Alejandro Ahmed (1971) no elenco. Em 1993, Ahmed torna-se diretor e coreógrafo residente do grupo, inaugurando nova fase da companhia. Em suas primeiras montagens, é possível vislumbrar a marca do Cena 11: inquietação, questionamento, experimentação, diferença. O Manifesto, espetáculo de 1994, introduz o grupo na dança contemporânea e encerra a participação da companhia em festivais competitivos. 

Desenha-se uma nova estrutura e organização, e bailarinos acumulam responsabilidades: Jussara Xavier (1971) é bailarina, ensaiadora e diretora administrativa; Gonçalves coreografa e elabora o figurino; Karin Serafin (1972) coreografa e cria a cenografia; Alejandro Ahmed, além dirigir e coreografar, leciona para o grupo. A expressão “percepção física” é escolhida para nomear e orientar o trabalho de investigação, ensino e aprendizagem da dança do Cena 11. Outros profissionais são contratados: a professora Malu Rabelo (1961), para lecionar dança clássica, e o ilustrador Fernando Rosa (1972), responsável pela criação gráfica e fotografia. 

Plateia como espaço cênico, exibição de vídeos, música ao vivo, fala de textos de Ahmed, diferentes sonoridades, dança e silêncio estão em Respostas sobre Dor (1994). A associação entre dança e mídias audiovisuais (como uso de projeção de imagens e microfones) é utilizada para afetar os corpos que atuam e observam. Rabisca-se um diálogo entre corpo e tecnologia, noção que permeia a obra do grupo. A montagem concede ao coreógrafo uma indicação para o Prêmio Mambembe de Dança, promovido pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) em 1995, fato inédito na produção artística catarinense. 

Em 1996, com O Novo Cangaço, o grupo divulga seu trabalho em diferentes estados brasileiros e consolida a pesquisa na constituição de suas atividades e montagens. O que pode ser dança? Como ela pode transformar o mundo? O que significa um pensamento como ação de dança? Na base dessas questões está a busca por um corpo singular, apartado de padrões e imagens ideais. A dança é considerada um modo particular de conhecimento e comportamento do corpo.

In’Perfeito, de 1997, mistura corpo e próteses para estimular outros modos de ação. É o primeiro espetáculo com trilha composta com exclusividade pelos músicos Hedra Rockenbach (1974) e Eduardo Serafin (1974). A estrutura cenográfica do arquiteto Sylvio Mantovani (1959-2011) contribui para a qualidade da produção, premiada como melhor concepção cênica pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (Apca) e indicada como melhor espetáculo e cenografia no Prêmio Mambembe de Dança. 

Em 1998, estreia A Carne dos Vencidos no Verbo dos Anjos, pelo qual Ahmed recebe o prêmio Mambembe de melhor coreógrafo. Nessa época, forma-se um núcleo criativo permanente, composto por Ahmed (direção e coreografia), Karin Serafin (figurino), Rockenbach (trilha sonora e assistência de direção) e Rosa (design gráfico e animação). 

Em Violência, espetáculo de 2000, bailarinos assemelham-se a bonecos que se comportam “no palco como personagens de desenho animado, daquelas [...] que não se alteram quando despencam para um abismo”, descreve o crítico Marcelo Castilho Avellar (1960-2011). O risco é levado ao extremo: o corpo quebra-se, lança-se, choca-se contra paredes, cai no chão, testa seu limite. Nos espetáculos que seguem, o grupo aprofunda a pesquisa sobre as possibilidades de manipulação do outro. Ahmed concebe o “corpo vodu”: o bailarino é o boneco; o movimento, a agulha; e o público, o objeto do feitiço. Os discursos prosseguem pontuados de paradoxos: prazer e desconforto, delicadeza e agressividade, liberdade e regra, independência e controle. 

Os procedimentos do Projeto SKR (2002) e a produção Skinnerbox (2005) apresentam ideias fundamentais das criações do Cena 11: a conexão entre corpo e ambiente e a união entre estudos teóricos e práticos. Tais diálogos estão expostos em Guia de Ideias Correlatas (2010), obra-documento/aula-espetáculo que demonstra as concepções do grupo. 

Pequenas Frestas de Ficção Sobre Realidade Insistente (2007), alcança reconhecimento da crítica: Prêmio Sérgio Mota de Arte e Tecnologia, Prêmio Bravo!-Prime de Cultura como melhor espetáculo de dança e Prêmio Apca de melhor pesquisa em dança. Em 2008, recebe o Prêmio Mérito Cultural Cruz e Souza da Fundação Catarinense de Cultura. 

SIM: Ações Integradas de Consentimento para Ocupação e Resistência (2010) une bailarinos e público em um mesmo espaço físico para colocar à prova, simultaneamente, seus comportamentos. Essa ideia de interatividade encontra-se nas produções Embodied Voodoo Game (2009) e Carta de Amor ao Inimigo (2012). 

Intercâmbios de pesquisas com diferentes artistas e companhias resultam em trabalhos como: Sobre Consentimento, Ocupação e Formas de Dizer Não (2008), parceria com o norueguês Impure Company, núcleo dirigido pelo iraniano Hooman Sharif (1973); Projeto Propaganda (2010), com Lia Rodrigues Companhia de Danças, e Estudo para Certezas da Incompletude (2012), com o grupo argentino Luis Garay & Cia. 

Marco na história da dança catarinense, o Cena 11 é considerado uma das mais importantes companhias de dança do Brasil: a definição da dança como forma de conhecimento do mundo, a produção cuidadosa dos espetáculos, o caráter perturbador e a heterogeneidade de suas montagens – articulação não hierárquica de elementos autônomos, como movimento, figurino, poesia, iluminação, música, cinema, cenografia – conquistam o interesse de outros artistas e públicos para a dança.

Fontes de pesquisa (13)

  • AVELLAR, Marcello Castilho. Desenhos animados não sentem dor. Estado de Minas, Belo Horizonte, 2 set. de 2002.
  • COLLAÇO, Gabriel; AHMED, Alejandro. Autoria no corpo involuntário. In: XAVIER, Jussara; MEYER, Sandra; TORRES, Vera (Orgs.). Tubo de Ensaio: experiências em dança e arte contemporânea. Florianópolis: edição do autor, 2006. p. 102-107.
  • GRUPO Cena 11 Cia de Dança. Site oficial do Grupo. Florianópolis, 2012. Disponível em: http://www.cena11.com.br. Acesso em: 08 set. 2012
  • GRUPO Cena 11 Cia de Dança. [Currículo]. Enviado pelo Grupo em 8 set. 2012.
  • KATZ, Helena. A investigação inédita e surpreendente do Cena 11. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 5 jul. 2008.
  • KATZ, Helena. Cena 11 é o Paralamas do Sucesso da dança. Ô Catarina, Florianópolis, n. 20, p. 8, nov./ dez. 1996.
  • KATZ, Helena. Cena 11 traz ‘IN’Perfeito’ e ‘A Carne dos Vencidos’ a SP. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 13 fev. 1999.
  • KATZ, Helena. Cena 11 usa o lirismo do limite do corpo. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 12 abr. 2000.
  • KATZ, Helena. Com sofisticação, Cena 11 investiga o movimento. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 6 jul. 2005.
  • KATZ, Helena. ‘In’Perfeito’ explora as desarticulações do corpo. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 17 nov. 1998. p. D3.
  • MEYER, Sandra. Dança que dialoga com fragmentação e desconstrução. A Notícia, Joinville, 29 abr. 2001.
  • XAVIER, Jussara Janning. A Política da Dança nos Anos 90 em Florianópolis. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica) – Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2001.
  • XAVIER, Jussara Janning. Acontecimentos de Dança: corporeidades e teatralidades contemporâneas. Tese (Doutorado em Teatro) – Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2012. 

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GRUPO Cena 11 de Dança. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo636211/grupo-cena-11-de-danca>. Acesso em: 29 de Fev. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7