Artigo da seção grupos Companhia de Dança Contemporânea Tran Chan

Companhia de Dança Contemporânea Tran Chan

Artigo da seção grupos
Dança  
Data de criação da obra Companhia de Dança Contemporânea Tran Chan: 1980 Local de crição: (Brasil / Bahia) | Data de término 2010

A companhia surge no ambiente acadêmico da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia. As líderes do grupo, as estudantes Betti Grebler e Leda Muhana, decidem convidar outras colegas para ensaiarem as imitações apresentadas nos corredores da escola durante os intervalos. Assim, no final do ano de 1980, surge o primeiro espetáculo, Exatamente, Mais ou Menos, apresentado na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, em Salvador. Nos dois anos seguintes, o grupo produz os trabalhos Quase com Certeza e Muito pelo Contrário, completando a trilogia que serve de base representativa da primeira fase da companhia, conhecida como Tran Chan.

Um dos objetivos do grupo é buscar uma expressão de movimento derivada de um modo de ser e estar no mundo. A simplicidade desse princípio é o ponto de partida para o desenvolvimento de experiências criativas comunitárias, nas quais o prazer da descoberta é cultivado e mantido como um bem valioso. Dessa forma, a característica marcante da companhia torna-se a manutenção do prazer original da criação em seus espetáculos, elaborados com irreverência e leveza, o que consagra o estilo do grupo e torna-o inconfundível. 

A singularidade da companhia reflete-se na escolha do nome do grupo. Tran Chan é uma expressão idiomática que quer dizer “direto ao ponto”. O percurso histórico e o currículo da companhia são acompanhados pela crítica especializada, que a destaca pela ousadia criativa e pela manutenção de um repertório de dança contemporânea sem concessões à estética tradicional. Esse fato consagra Tran Chan como um dos mais significativos grupos de dança brasileiros. 

A escolha temática dos espetáculos é realizada, na maioria das vezes, com base no interesse de pesquisa dos participantes. A ideia é elaborar uma coreografia que surja da imaginação e experiência de cada um. O envolvimento individual dos integrantes do elenco é importante para os processos criativos, norteados por estímulos concebidos nos exercícios de improvisação: cada dançarino tem como referência seu próprio corpo e deve lançar-se em busca de respostas corporalmente ágeis e precisas. Entregam-se ao trabalho profissional de pesquisa, longo e delicado, no sentido artesanal de elaboração de gestos e combinações de movimentos. Com isso, o Tran Chan cria, ao longo dos anos, um instrumental para experimentações de dança contemporânea, feito sob a forma de questionamentos, por meio de tarefas e diálogos entre os líderes e elencos sobre a arte do movimento e outras expressões artísticas.

As últimas montagens do grupo revelam a ligação com a literatura, elemento gerador de imagens, significados e sensações. Essa influência ajuda na criação de composições coreográficas à margem do pensamento linear. Preocupado com o envolvimento sensorial do espectador, mesclando poesia e pensamento científico, o grupo compõe duas montagens coreográficas: Coisas Mudas (1997), com poesias de Manoel de Barros (1916-2014), e O Que o Olho Diz ao Cérebro (2000), com textos do psicanalista e cientista estadunidense Robert Solso (1933-2005).

Durante os 27 anos de trabalho ininterruptos, a Companhia de Dança Contemporânea Tran Chan produz 17 espetáculos coreográficos, apresentados em temporadas nos teatros e nos festivais de dança mais importantes do Brasil. O trabalho do grupo é amplamente divulgado em canais de televisão por assinatura, em residências artísticas e em festivais internacionais de dança no Chile, na Colômbia, nos Estados Unidos e na Alemanha.

Para Betti Grebler, uma das fundadoras do Tran Chan, qualquer movimento pode ser dança, depende apenas do tratamento que é dado a ele. Essa forma de dar tratamento artístico aos movimentos surge de uma experimentação de dança aliada ao estudo do cômico e do circense no arranjo coreográfico. Tal experimento tem por objetivo fomentar um painel de acontecimentos e reflexões sobre o universo feminino. O papel do rádio como principal veículo de massa nos anos 1940 e 1950 e a influência das cantoras da Era do Rádio no cotidiano das famílias brasileiras motivam a pesquisa e geram o espetáculo Estão Voltando as Flores. A apresentação investiga o universo feminino em tons variáveis: romântico, melancólico, nostálgico e dramático.

Nos espetáculos do grupo, o que se vê são seres humanos comuns, movendo-se com naturalidade e reproduzindo facetas do dia a dia, como forma específica de lidar com o aqui e o agora. A coreógrafa e pesquisadora Eliana Rodrigues Silva aponta que o Tran Chan é sobre o movimento em si, antes de pensar interpretações sobre ele.

Para a autora (e biógrafa da Companhia), o grupo desenvolve um estilo baiano de lidar com o movimento: dança de um jeito corporal aparentemente relaxado, mas com gestos construídos cuidadosamente. O humor está presente, mas é metaforizado e está a serviço da interpretação. Trata-se de um aparente relaxamento, revelado pelos movimentos claros e agudos que vão direto ao ponto Tran Chan. Uma pós-modernidade criada em território baiano nos anos 1980.

Outras informações do grupo Companhia de Dança Contemporânea Tran Chan:

Fontes de pesquisa (2)

  • FERNANDES, Ciane. Pina Bausch e o Wuppertal Dança-Teatro: repetição e transformação. São Paulo: Editora Hucitec, 2000.
  • SILVA, Eliana Rodrigues. Dança e pós-modernidade. Salvador: Ufba, 2004.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • COMPANHIA de Dança Contemporânea Tran Chan. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo636210/companhia-de-danca-contemporanea-tran-chan>. Acesso em: 08 de Jul. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7