Artigo da seção grupos Os Mutantes

Os Mutantes

Artigo da seção grupos
Música  
Data de criação da obra Os Mutantes: 1966 | Data de término 1978

Grupo musical formado em São Paulo, em 1966, originalmente composto por Rita Lee (1947) e pelos irmãos Arnaldo Baptista (1948) e Sérgio Dias (1951). Antes, Arnaldo atua como baixista da banda Wooden Faces, e Rita divide-se entre o conjunto Teenage Singers e o trio Danny, Chester & Ginny. 

Em 1965, com ex-integrantes dos Wooden Faces e das Teenage Singers, Arnaldo, Rita e Sérgio formam o Six Sided Rockers, rebatizado como O’Seis. Especializado em blues e covers, o grupo faz experiências sonoras, apresentando peças de compositores eruditos em versões roqueiras. A carreira de O’Seis dura pouco mais de um ano, período em que frequentam programas de televisão, como o Jovem Guarda (TV Record), e gravam um compacto simples.

Com o fim do conjunto, Arnaldo, Rita e Sérgio criam os Mutantes. Em 1966, o trio participa da estreia de O Pequeno Mundo de Ronnie Von (TV Record) e torna-se atração fixa do programa, interpretando sucessos internacionais e temas eruditos. O trio passa a tocar em outras atrações da emissora e, em 1967, recebe o convite para se apresentar no 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, ao lado do compositor Gilberto Gil (1942), que classifica duas canções na disputa, “Bom Dia” e “Domingo no Parque”. Com arranjo do maestro Rogério Duprat (1932-2006), “Domingo no Parque” dá a Gil o segundo lugar na competição e projeta os Mutantes nacionalmente.

O figurino dos jovens é chamativo, e a performance investe no bom humor, sem receio de causar polêmica. Musicalmente, Arnaldo (baixo, teclados e vocal), Sérgio (guitarra e vocal) e Rita (vocal, flauta e percussões eventuais) mostram um rock moderno e elaborado, sem a ingenuidade do iê-iê-iê1

Cosmopolita e com apelo comercial, o trio torna-se expoente da tropicália, movimento musical encabeçado por Caetano Veloso (1942) e Gilberto Gil que agita a cultura brasileira entre 1967 e 1968. No disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circensis (1968), os Mutantes participam de cinco faixas: “Panis et Circenses” (Caetano Veloso, Gilberto Gil), “Miserere Nóbis” (Gilberto Gil, Capinan [1941]), “Parque Industrial” (Tom Zé [1936]) , “Bat Macumba” (Gil, Caetano) e “Hino ao Senhor do Bonfim da Bahia” (João Antonio Wanderley [1879-1927]). 

Destacam-se como uma das principais atrações do Divino Maravilhoso (TV Tupi, 1968), programa no qual os tropicalistas divulgam ideias e canções. No mesmo ano, o trio lança seu primeiro LP, Os Mutantes, e grava, com Caetano Veloso, o compacto Ao Vivo.

Nos trabalhos iniciais, a presença de Rogério Duprat é marcante. Experiente em música contemporânea e empolgado com a atitude irreverente do grupo, o maestro contribui para organizar e realizar as ideias dos jovens artistas.  

Em 1969, os Mutantes transformam-se em quinteto com o baterista Ronaldo Poliseli Leme (1949), o Dinho, e o baixista Arnolpho Lima Filho (1951), o Liminha. No mesmo ano, lançam Mutantes, com maior repertório autoral.

As apresentações do grupo são verdadeiros happenings: para cantar “Caminhante Noturno” (Arnaldo Baptista, Rita Lee, Sérgio Dias) no 3º Festival Internacional da Canção, Arnaldo sobe ao palco vestido de arlequim; Sérgio, com a indumentária de toureiro, e Rita, com vestido de noiva, véu e grinalda. 

Rapidamente, os Mutantes conquistam outros espaços. No cinema, participam de As Amorosas (1968), filme de Walter Hugo Khouri (1929-2003). Na publicidade, estrelam campanha da marca Shell em comerciais televisivos e anúncios na forma de histórias em quadrinhos e são atração dos desfiles promovidos pela empresa Rhodia, em 1969. No mesmo ano, escrevem e produzem o musical Planeta dos Mutantes, encenado no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro. 

Fundamental na trajetória dos Mutantes é o luthier Claudio César Baptista (1945), irmão mais velho de Arnaldo e Sérgio. Ele é o responsável pelos instrumentos musicais e equipamentos de som do grupo. Sua criação mais famosa é a Guitarra de Ouro usada por Sérgio Dias, inspirada no design dos violinos Stradivarius. 

Certas inovações são idealizadas pelos integrantes do conjunto. Na gravação de “Le Premier Bonheur du Jour” [Jean Renard (1933), Franck Gérald (1928-2015)], o som do chimbal da bateria é substituído por uma bomba de Flit (vaporizador antigo) levada ao estúdio por Rita Lee.

Em 1972, lançam Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets, último disco com Rita Lee no grupo, dando início a uma nova fase na linha do rock progressivo. As músicas tornam-se mais longas, instrumentais e com muita improvisação.

Em 1973, após desentendimentos, Arnaldo Baptista sai do grupo, seguido de Dinho e Liminha. Sérgio tenta dar sobrevida aos Mutantes, e vários tecladistas passam pelo grupo. Em 6 de junho de 1978, a banda faz a última apresentação, em Ribeirão Preto, São Paulo.

Em 2006, motivados por uma homenagem prestada à banda na mostra Tropicália – A Revolution in Brazilian Culture, promovida pelo centro cultural inglês Barbican Hall, em Londres, Arnaldo, Sérgio e Dinho voltam a se reunir – Rita e Liminha declinam do convite. Com a cantora Zélia Duncan (1964) completa a formação, e o grupo apresenta-se na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Brasil. O registro dos concertos londrinos sai em CD e DVD, sob o título Mutantes ao Vivo Barbican Theatre. Um ano depois, Arnaldo e Zélia deixam o conjunto.   

Após 35 anos, a banda lança um álbum inédito em 2009, Haih... Or Amortecedor. Em 2013, lança o CD Fool Metal Jack, cujo título parodia o nome do filme Full Metal Jacket (Nascido para matar), do diretor estadunidense Stanley Kubrick (1928-1999). Compõem a nova formação do grupo: Sérgio Dias, Esmeria Bulgari (voz e percussão), Vinicius Junqueira (baixo), Vítor Trida (guitarra e voz), Amy Crawford (teclado e voz) e Ani Cordero (bateria, percussão e voz).

Notas

1. Rótulo dado à música do programa Jovem Guarda, inspirado no refrão de “She loves you” (1964) dos grupo britânico The Beatles.

Outras informações do grupo Os Mutantes:

Fontes de pesquisa (5)

  • CALADO, Carlos. Tropicália: a história de uma revolução musical. São Paulo: Ed. 34, 1997. 336 p. (Coleção Todos os Cantos)
  • CALADO, Carlos. A divina comédia dos Mutantes. São Paulo: Ed. 34, 1995.
  • FAVARETTO, Celso. Tropicália: alegoria alegria. 2 ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 1996.
  • INSTITUTO Memória Musical Brasileira. Disponível em: http://www.memoriamusical.com.br. Acesso em: 15 maio 2014
  • VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras,1997.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • OS Mutantes. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo636207/os-mutantes>. Acesso em: 06 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7