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Novos Baianos

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.02.2021
1969 Brasil / Bahia / Salvador
1978
Novos Baianos é um grupo formado em 1969, em Salvador, do encontro do letrista Luiz Galvão (1937) e do compositor Moraes Moreira (1947-2020) com Paulinho Boca de Cantor (1946), no vocal e pandeiro e Baby do Brasil (1952), no vocal e na percussão.

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Novos Baianos é um grupo formado em 1969, em Salvador, do encontro do letrista Luiz Galvão (1937) e do compositor Moraes Moreira (1947-2020) com Paulinho Boca de Cantor (1946), no vocal e pandeiro e Baby do Brasil (1952), no vocal e na percussão.

O quarteto inicial é acompanhado pela banda Leifs em seis de seus nove álbuns. Demais integrantes somam-se ao grupo: o instrumentista e compositor Pepeu Gomes (1952), o baixista Dadi Carvalho (1952) e os percussionistas Jorginho Gomes (bateria, guitarra, cavaquinho, ukulelê e bongô), José Roberto Martins Macedo, o Baixinho (1952-2003) (bateria e bumbo) e Bolacha (bongô e percussão).

A primeira apresentação se realiza em Desembarque dos Bichos Depois do Dilúvio (1968), no Teatro Vila Velha, em Salvador. O nome do grupo é criado em 1969 durante o 5º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record (São Paulo), apresentando a canção "De Vera" (Moraes Moreira e Luiz Galvão). O apresentador chama ao palco “esses novos baianos”, alusão aos conterrâneos ilustres Caetano Veloso (1942), Gilberto Gil (1942) e Tom Zé (1936)
 
Em 1970,  lançam o primeiro LP, É Ferro na Boneca. É um disco de rock com inspirações psicodélicas e nuances da jovem guarda. Galvão escreve letras de cunho filosófico e comportamental que não são censuradas pela ditadura militar, apesar de algumas possuírem referências lisérgicas. A canção título diz "olhe o produto que há na bagagem, e não é uma estrada, é uma viagem" (Paulinho Boca de Cantor e Moraes Moreira). Diversas canções do disco são tema dos filmes Meteorango Kid (1969) e Caveira My Friend (1970), ambos do diretor André Luiz Oliveira (1948).

Os músicos passam a morar juntos em um apartamento no Rio de Janeiro e intensificam a rotina de ensaios. Da convivência com o compositor João Gilberto (1931-2019), amigo de Galvão, incorporam gêneros musicais diversos às composições, como bossa nova, frevo, baião, choro, afoxé, batucada, ijexá e frevo elétrico. A mescla de música brasileira com guitarra elétrica e rock é aprofundada e, apesar de não serem os primeiros a misturar o rock com o samba, constroem toda a sua obra nesse sentido. 

Em 1972, lançam Acabou Chorare. Durante a concepção e produção do disco, vivem em um sítio na estrada para Jacarepaguá. Os arranjos complexos são possíveis por serem ensaiados e vivenciados no cotidiano da comunidade. A presença de acordes dissonantes em ritmos internacionais e brasileiros, música do interior da Bahia mesclada com guitarra elétrica, baixo e bateria com cavaquinho, chocalho, pandeiro e agogô aparecem a partir deste disco. A obra faz apologia ao fim da tristeza que se abate sobre a música popular, em especial nas músicas de protestos contra a ditadura militar. A canção título simboliza essa característica, brincando com a linguagem, em interpretação minimalista de Moraes Moreira. Outras canções do disco, como "Brasil pandeiro" [Assis Valente (1911-1958)], “Tinindo Trincando” (Moraes Moreira e Luiz Galvão), “Preta Pretinha” (Moraes Moreira e Luiz Galvão) e “Besta É Tu” (Moraes Moreira, Pepeu Gomes e Luiz Galvão), permanecem em paradas de sucesso por semanas. 
 
A vivência no sítio, em meio a música e partidas de futebol, inspira o disco seguinte, Novos Baianos F.C. (1973). As inovações rítmicas e líricas permanecem na exaltação ao Brasil, como em “Sorrir e Cantar Como Bahia” (Moraes Moreira e Luiz Galvão) e “Só se Não For Brasileiro Nesta Hora” (Moraes Moreira e Luiz Galvão). Essa configuração leva-os a participar do carnaval de Salvador, inaugurando o que eles chamam de "Rockarnaval", inserindo voz, teclados e música popular cantada nos blocos de percussão carnavalescos, como se conhece atualmente. Isso chama a atenção da imprensa e de festivais no exterior, que convidam o grupo para espetáculos.

No ano seguinte, a convite da gravadora Continental, o grupo grava Novos Baianos (1974), também chamado de Linguagem do Alunte. Neste disco, evidenciam-se os riffs de guitarra que permeiam a melodia num contracanto. No mesmo ano, Moraes Moreira retira-se do grupo para se dedicar à carreira solo, e a banda lança Vamos pro Mundo (1974). O grupo aposta no virtuosismo e inclui faixas instrumentais de choro, baião e samba.
 
O disco Caia na Estrada e Perigas Ver (1976) preserva a fórmula que mistura rock, samba e um hit brasileiro. A releitura de “Brasileirinho” [Waldir Azevedo (1923-1980)] é bastante executada. No ano seguinte, o grupo lança Praga de Baiano (1977), inspirado em trios elétricos. O destaque é "Vassourinha" (Matias da Rocha e Joana  Batista Ramos), música frequente no carnaval de Pernambuco.

O espírito coletivo se dilui com a saída de Paulinho Boca de Cantor, Pepeu Gomes e Baby Consuelo, que iniciam carreira solo. O trabalho que antecede a dissolução do grupo é Farol da Barra (1978), com regravações de “Isto Aqui o que É”? [Ary Barroso (1903-1964)] e "Lá Vem a Baiana" [Dorival Caymmi (1914-2018)]. Em 1997, os músicos reencontram-se e gravam Infinito Circular, com algumas canções inéditas e os grandes sucessos.

Os Novos Baianos destacam-se por ser uma banda que busca a descontração e mesclas musicais. A riqueza harmônicas do samba e do chorinho aplicada ao rock e a exaltação ao país ou a influência mútua entre a música brasileira e estrangeira permeiam as composições do grupo, como “Biribinha nos States” (Pepeu Gomes) e “Swing de Campo Grande” (Moraes Moreira/ Paulinho Boca de Cantor/ Luiz Galvão). Outra característica é a desconstrução da linguagem, especificamente da repetição de sílabas das palavras. Esse recurso é usado, por exemplo, na canção “Vamos pro Mundo” (Galvão e Pepeu Gomes):

Prondé qui vão 
Vamos pro mundo 
Vamos com fé 
Com fé ri 
Con-con-feri 
Feri paulin 
Santu de casa 
Qui até d'olho fechadu 
Faz milagri

O grupo é um dos expoentes da canção de entretenimento, feita para dançar, com a energia roqueira aplicada ao samba. Suas canções são regravadas por artistas como Marisa Monte (1967) e Arnaldo Antunes (1960).

Fontes de pesquisa 10

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  • FILHOS de João: o admirável mundo Novo Baiano. Direção: Henrique Dantas. Brasil: Canal Brasil, 2011. 1 CD (74 minutos).
  • GALVÃO, Luiz. Anos 70: novos e baianos. São Paulo: Editora 34, 1997.
  • MELLO, Zuza Homem de. A era dos festivais: uma parábola. São Paulo: Editora 34, 2008.
  • MORAIS JUNIOR, Luis Carlos de. O Sol nasceu pra todos: a história secreta do samba. Rio de Janeiro: Litteris, 2011.
  • MOREIRA, Moraes. A história dos novos baianos e outros versos. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007.
  • NOVOS Baianos F.C. Direção: Solao Ribeiro. Documentário, 1973.
  • NOVOS Baianos. Site Oficial do grupo. Disponível em: < http://osnovosbaianos.com.br/site/ > e < http://osnovosbaianos.wordpress.com/ >. Acesso em: nov. 2012.
  • PARANHOS, A. A música popular e a dança dos sentidos: distintas faces do mesmo. ArtCultura – Revista do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, v.6, n.9, p.22-31, jul./ dez. 2004.
  • SANCHES, Pedro Alexandre. Tropicalismo: decadência bonita do samba. São Paulo: Boitempo Editorial, 2000.
  • WORMS, Luciana; COSTA, Wellington Wella. Brasil século 20 ao pé da letra da canção popular. Curitiba: Nova Didática, 2002.

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