Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas

A Enciclopédia é o projeto mais antigo do Itaú Cultural. Ela nasce como um banco de dados sobre pintura brasileira, em 1987, e vem sendo construída por muitas mãos.

Se você deseja contribuir com sugestões ou tem dúvidas sobre a Enciclopédia, escreva para nós.

Caso tenha alguma dúvida, sugerimos que você dê uma olhada nas nossas Perguntas Frequentes, onde esclarecemos alguns questionamentos sobre nossa plataforma.



Enciclopédia Itaú Cultural

Vieira e Vieirinha

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.09.2017
Vieira e Vierinha é uma dupla caipira formada pelos cantores, compositores e instrumentistas Rubens Vieira Marques (Itajobi, São Paulo, 1926 – São José do Rio Preto, São Paulo, 2001), o Vieira, e Rubião Vieira (Itajobi, São Paulo, 1928 – Idem, 1991), o Vieirinha. Os irmãos iniciam a carreira cantando e dançando catira em encontros familiares e f...

Texto

Abrir módulo

Análise

Vieira e Vierinha é uma dupla caipira formada pelos cantores, compositores e instrumentistas Rubens Vieira Marques (Itajobi, São Paulo, 1926 – São José do Rio Preto, São Paulo, 2001), o Vieira, e Rubião Vieira (Itajobi, São Paulo, 1928 – Idem, 1991), o Vieirinha. Os irmãos iniciam a carreira cantando e dançando catira em encontros familiares e festas comunitárias na cidade natal, em algumas ocasiões com as duplas Zico e Zeca e Liu e Léu, seus primos.

Em 1948, com o nome de Irmãos Vieira, a dupla estreia em rádio na emissora Novo Horizonte (ZYS-9), na cidade paulista homônima. Apresentam-se diariamente no programa Viajando pelo Sertão, comandando por Nhô Thomé (Elipídio Mazetto). No ano seguinte, conhecem os já famosos Tonico e Tinoco, que se tornam seus incentivadores, levando-os para cantar em cinemas da região e sugerindo que adotem como nome artístico Vieira e Vieirinha. Mais conhecida, a dupla ganha programa exclusivo na Rádio Clube de Marília. Na mesma época, o pai deles inicia, em sua fazenda Córrego da Figueira, a primeira luteria de violas industrializadas do país, construindo e vendendo instrumentos sob a marca Xadrez.

Na eleição presidencial de 1950, os irmãos fazem campanha para Getúlio Vargas (1882-1954) e participam de comícios do candidato no interior paulista. Com Vargas eleito, escrevem-lhe pedindo uma chance na Rádio Nacional de São Paulo e recebem como resposta um telegrama que os autoriza a procurar a emissora estatal com o aval da presidência. São contratados pela estação em 1951, estreando no programa Alvorada Caboclo. Nas duas décadas seguintes, entre a Rádio Nacional de São Paulo e a Rádio Tupi, apresentam-se com sucesso em diversas atrações, como nos programas Sertão na Cidade e Alma da Terra.

Estreiam em disco em 1953, com um 78 rpm que traz duas músicas: o cururu “O Canoeiro Não Morreu” [Teddy Vieira (1922-1965), Ado Benatti (1908-1962)] e a moda de viola “Nova Londrina” [Teddy Vieira, Serrinha (1917-1978)]. A primeira é uma resposta a outro cururu, “A Morte do Canoeiro” [Anacleto Rosas Jr. (1911-1978)], surgido dois anos antes, sucesso de Tonico e Tinoco. Muitas características aproximam Vieira e Vieirinha de seus padrinhos artísticos. Por exemplo, a sonoridade coesa do canto, harmonizado em primeira voz aguda (Vieirinha) e segunda voz grave (Vieira). Na instrumentação, prevalecem a viola (Vieira) e o violão (Vieirinha), às vezes acompanhados por acordeom, mas com as vozes em primeiro plano.

Além disso, também são representantes da moda de viola, com músicas de caráter narrativo que falam da vida no campo. É o caso de “Laço Criminoso” (Jayme Ramos, Teddy Vieira), “Castigo do Boiadeiro” [Arlindo Pinto (1906-1968), Sebastião Víctor] e “Morte do Carreiro” [Carreirinho (1921-2009), Zé Carreiro (1923-1970)], cujas letras descrevem episódios trágicos envolvendo boiadeiros na lida com os animais. 

A dupla carrega o sotaque típico do interior paulista, com o “r” bem pronunciado e uma maneira de dizer as palavras ou mesmo frases que contraria a norma culta, por exemplo: “Nóis canta em quarqué lugar”, “muié” e “trabaio”.  

Vieira e Vieirinha também são referência nas modas de campeão, estilo no formato de desafio, no qual a dupla se cobre de autoelogios, mostrando habilidade na viola, destreza nos versos e competência como compositores. Em “Marreta”, de autoria própria, os irmãos cantam:

Ai lá no bairro adonde eu moro assim o pessoal suspeita
Ai eu sou inventor de moda eu pego avurso ou por empreita
Eu sento na beira da mesa eu tiro o broque da gaveta
Ai no prazo de meia hora eu tenho quatro moda feita

Apesar da dedicação a diversos ritmos – cururu, arrasta-pé, cana verde, recortado –, a dupla se consagra no catira, demonstrando destreza nos palmeios e sapateado e sendo pioneiros em levar o estilo para o disco em inúmeras gravações, a exemplo dos LPs Violas e Catiras (1977) e Só Catira – Vol. 2 (1985).

Canções românticas ou sobre dramas amorosos também se destacam no repertório dos irmãos, como “Cravo na Cinta” (Francisco Padovani, Mário Bernardino), “Morena dos Olhos Pretos” (Bueno, Vieira), “Rosas de Carne” [José Fortuna (1923-1983), Vieirinha] e “Garça Branca” (Sebastião Teixeira, Alcindo Freire) – esta última, um dos grandes sucessos da dupla. Nela, o cantor-narrador descobre que sua amada (a garça branca) foge com outro homem e acaba assassinada. A melodia em tom menor intensifica o suspense dos acontecimentos, que terminam em vingança:

Quem matou a garça branca
Com a vida também pagou
Puxei do meu parabelo
Resolvido como eu sou
Toquei dez vez no gatilho
E todas dez estorou
O valor da garça branca
A sua vida custou
Sem o amor da garça branca
Pra mim o mundo se acabou   

As crenças populares aparecem em tom bem-humorado – como em “A Moça que Dançou com o Diabo” (Jayme Ramos,Teddy Vieira) e “Assombração” [Roque José de Almeida (1920-1984), Nhô Zé (1923)] – e de maneira devota, a exemplo de “São João Batista” [Benedito Seviero (1931-2016), Vieirinha], “Pedido a Nossa Senhora Aparecida” (Carreirinho) e “Virgem Aparecida” [Leo Canhoto (1936)].

Além das músicas citadas, destacam-se no repertório “Ladrão de Mulher” (Vieira, Vieirinha), “Minha Vida” (Carreirinho, Vieira), “Transporte de Boiada” (Ado Benatti, Rui de Oliveira) e “Silêncio do Berrante” (Arlindo Pinto, Sebastião Víctor).

Com uma discografia que contempla 30 discos de 78 rpm, 35 LPs e 15 CDs, Vieira e Vieirinha ficam conhecidos pelo epíteto “os reis do catira”. A trajetória da dupla encerra-se em 1991, com o falecimento de Vieirinha. Passando a cantar em dueto com seu filho Ailton Estulano Vieira (1965), Vieira segue carreira artística por mais uma década, até falecer em 2001.

Fontes de pesquisa 5

Abrir módulo
  • INSTITUTO Cravo Albin. Vieira e Vieirinha. In: DICIONÁRIO Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro. Disponível em: < http://dicionariompb.com.br/vieira-e-vieirinha >. Acesso em: 14 ago. 2017.
  • MARCONDES, Marcos Antônio (Org.). Enciclopédia da Música Popular Brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed. São Paulo: Art Editora, 1998.
  • NEPOMUCENO, Rosa. Música Caipira: da roça ao rodeio. São Paulo: Editora 34, 1999.
  • PERIPATO, Sandra Cristina. Vieira e Vieirinha. Site Recanto Caipira. Disponível em: < www.recantocaipira.com.br/duplas/vieira_vieirinha/vieira_vieirinha.html >. Acesso em: 14 ago. 2017.
  • RIBEIRO, José Hamilton. Música caipira: as 270 maiores modas de todos os tempos. São Paulo: Globo, 2006.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: