Artigo da seção grupos Bando da Lua

Bando da Lua

Artigo da seção grupos
Música  
Data de criação da obra Bando da Lua: 1929 | Data de término 1955

O Bando da Lua é conjunto vocal e instrumental, formado por Aloysio de Oliveira (1914-1995), violão e vocal; Hélio Jordão Pereira (1914-1999), violão; Vadeco – Osvaldo Moraes Éboli (1912-2002), pandeiro; Ivo Astolfi (1919-?), violão tenor e banjo; Stênio Osório (1909-1993), cavaquinho; pelos irmãos Afonso (1913-?), ritmo e flauta, e Armando, violão. Reúnem-se pela primeira vez como parte do Bloco do Bimbo, famoso pelos banhos de mar à fantasia na Praia do Flamengo e nos bailes de carnaval. Em 1929, reduzido a sete integrantes por sugestão de Josué de Barros (1888-1959), forma-se o Bando da Lua.

Em 1931, gravam o primeiro disco pela Brunswick, com os sambas “Que Tal a Vida?” e “Tá de Mona”, de Mazinho e Maércio Azevedo. Depois lançam a marcha “Opa... Opa…” (1932); os sambas “Imaginem Só” (1933) e “Abandona o Preconceito” (1934), de Maércio Azevedo e Francisco Matoso (1913-1941); e a marcha “A Hora É Boa” (1934), parceria de Aloysio com Mazinho. Apresentam-se no programa Casé, na Rádio Sociedade, e, em 1933, assinam contrato com a Rádio Mayrink Veiga. Profissionalizam-se, investindo no próprio conjunto: encomendam instrumentos personalizados, elaboram figurino, alugam um apartamento no centro do Rio de Janeiro que funciona como sede e dividem funções administrativas e artísticas.

Em 1934, viajam a Buenos Aires acompanhando a cantora Carmen Miranda (1909-1955). Realizam seis temporadas nesta cidade, além de shows no Chile e Uruguai. Armando Osório deixa o grupo no final da turnê. Gravam as marchas “Não Resta a Menor Dúvida” (1936), de Noel Rosa (1910-1937) e Hervé Cordovil (1914-1979) e “Bis” (1934), de Lamartine Babo (1904-1963)  e Assis Valente (1911-1958). De Assis Valente, registram os sambas “Mangueira” (1935), parceria com Zequinha Reis (1900-?), “Maria Boa” (1936), “Que é Que Maria Tem” (1938), “Bola Preta” (1937) e “Deixa o Passado” (1937). Gravam também “Lalá” (1935), marchinha de Braguinha (1907-2006) e Alberto Ribeiro (1902-1971); o samba “Saudades do Meu Barracão” (1937), de Ataulfo Alves (1909-1969); as marchas “Menina das Lojas” (1937), de Lamartine Babo, e “Pegando Fogo” (1938), de José Maria de Abreu (1911-1966); além do “Samba da Minha Terra” (1940), de  Dorival Caymmi (1914-2008). Atuam nos filmes Estudantes (1935), Alô Alô Carnaval (1936) e Banana da Terra (1939).

Acompanham Carmen Miranda no Cassino da Urca, Rio de Janeiro, em sua estreia nos Estados Unidos, em 1939, e na revista Street of Paris, de Lee Shubert (1871-1953). Ivo Astolfi decide voltar ao Brasil e desliga-se do grupo, sendo substituído pelo multi-instrumentista Garoto (1915-1955) e, depois, por Nestor Amaral (1913-1962). O repertório inclui a marcha “Mamãe Eu Quero” (1937) de Vicente de Paiva (1908-1964) e Jararaca; a embolada “Bambo-Bambu” (1926) de Patrício Teixeira (1893-1972) e Donga (1890-1974), e a rumba “South American Way”, adaptada para tornar-se um samba. Participam do filme Down Argentine Way (1940).

Nos filmes, nota-se a mistura de ritmos latino-americanos, pasteurizando os gêneros e as diferenças culturais. O conjunto carioca aparece com trajes típicos caribenhos e chapéus mexicanos. Em Down Argentine Way (1940), acompanham Carmen na marcha “Mamãe Eu Quero”, com roupas características do gaúcho dos pampas argentinos. Já em That Night in Rio (1941), as músicas dos compositores Harry Warren (1893-1981) e Mack Gordon (1904-1959) são rearranjadas pelo grupo, com ajuda de Herbert Spencer, arranjador chileno radicado nos Estados Unidos: “Chica Chica Boom” torna-se samba e “I Like You Very Much”, marcha. Estas apropriações são permitidas num momento em que os trânsitos culturais se fortalecem com a política norte-americana de boa-vizinhança com os países da América Latina.

Em 1944, Vadeco sai do grupo, levando ao fim da primeira formação. O Bando é retomado em 1949, com Aloysio de Oliveira e os integrantes dissidentes dos Anjos do Inferno: Aluísio Ferreira [Lulu (1914-1995)] no violão, Harry Vasco de Almeida (pistão nasal e ritmo) e José Soares [Russinho do Pandeiro (1926-?)].  Aloysio de Oliveira considera esta a fase em que o conjunto consegue autonomia em relação à Carmen, e maior profissionalização. Nesta época, gravam pela Decca Records quatro músicas com Bing Crosby (1903-1977): “Copacabana”, “Quizas Quizas”, “Maria Bonita” e “Granada”.

Aproveitando a habilidade rítmica do canto de Carmen Miranda, criam músicas que exploram as sonoridades das palavras. Mesmo incompreensíveis ao público norte-americano, muitas vezes com letras nonsense, são envolventes pela interpretação da cantora. Aloysio de Oliveira declara que eles escrevem aquelas “letrinhas vagabundas” de brincadeira, de maneira a apropriar-se do repertório norte-americano com ritmo brasileiro. Assim, lançam músicas que soam exóticas, deliciosas e familiares, sem arriscar com sonoridades novas e desconhecidas do público. Fazem versões irreverentes de músicas já populares, como “Edmundo” (1954), espécie de samba orquestrado sobre “In the Mood”, de Joe Garland (1903-1977) e Andy Razaf (1895-1973), consagrada pela orquestra de Glenn Miller (1904-1944).

O Bando da Lua é responsável por trazer a referência da harmonização de vozes das canções populares norte-americanas à interpretação de gêneros nacionais, como sambas e marchas. Em sua performance, adere à formação das jazz-bands, acrescentando às marchinhas carnavalescas o tempo quebrado dos foxtrotes e charlestons. Este estilo influencia outros grupos vocais, como Anjos do Inferno, Quatro Azes e Um Coringa e Os Cariocas.

Com a morte de Carmen Miranda, em 1955, o Bando chega ao fim. Dos seus integrantes, destacam-se Vadeco (da primeira formação), que segue carreira bem-sucedida como diretor e produtor no rádio e na TV, e Aloysio de Oliveira, que se torna renomado produtor musical, compositor e parceiro de Tom Jobim (1927-1994) em clássicos como “Dindi” (1959) e “Só Tinha de Ser com Você” (1964). Aloysio lança, no início dos anos 1960, o selo Elenco, pelo qual revela importantes compositores e intérpretes da música brasileira. Nos anos de 1970, são lançadas duas coletâneas com as gravações realizadas entre 1939 e 1945: Bando da Lua nos E.U.A. (1974) e Aurora e Carmen Miranda e o Bando da Lua (1975).

Outras informações do grupo Bando da Lua:

Fontes de pesquisa (7)

  • CASTRO, Ruy. Carmen: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
  • OLIVEIRA, Aloysio. De banda pra lua. Rio de Janeiro: Record, 1982.
  • VIDAL, Erick de Oliveira. As capas da bossa nova: encontros e desencontros dessa história visual (LPs da Elenco, 1963). 2008. Dissertação (mestrado em história). Juiz de Fora: UFJF, 2008.
  • DICIONÁRIO Cravo Albin da Música popular brasileira. Disponível em: http://www.dicionariompb.com.br/. Acesso em: 19 jul. 2014.
  • GARCIA, Tânia da Costa. O “it verde e amarelo” de Carmen Miranda (1930-1946). São Paulo: Annablume: Fapesp, 2004.
  • GIL-MONTERO, Martha. A Pequena Notável: uma biografia não autorizada de Carmen Miranda. Rio de Janeiro: Record, 1989.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras (vol. 1: 1901-1957). São Paulo: Editora 34, 1997. (Coleção Ouvido Musical). 

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • BANDO da Lua. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo636039/bando-da-lua>. Acesso em: 12 de Abr. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7