Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Companhia Negra de Teatro

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.06.2020
05.2015 Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte
A Companhia Negra de Teatro surge em 2015, resultado do encontro de alunos do curso técnico em teatro do Centro de Formação Artística e Tecnológica (Cefart) de Minas Gerais. As criações do grupo são pautadas pela presença e potencialidades do corpo negro no teatro. A busca por dramaturgias autorais, o diálogo performativo com o espaço urbano e o...

Texto

Abrir módulo

A Companhia Negra de Teatro surge em 2015, resultado do encontro de alunos do curso técnico em teatro do Centro de Formação Artística e Tecnológica (Cefart) de Minas Gerais. As criações do grupo são pautadas pela presença e potencialidades do corpo negro no teatro. A busca por dramaturgias autorais, o diálogo performativo com o espaço urbano e o interesse por tratar das desigualdades sociais são pilares que estruturam a identidade do grupo.

Depois de uma temporada de residência artística com o Bando de Teatro Olodum, de Salvador, o ator Felipe Soares (1987) convida Efigênia Marya, Michele Bernardino e Renato Gualberto, colegas do Cefart, para formar a Companhia Negra de Teatro. O nome presta homenagem à Companhia Negra de Revistas (1926-1927), do Rio de Janeiro, considerada a primeira do gênero no Brasil.

A consciência de que a presença do corpo negro no teatro produz em si discurso e dissidência marca a construção do primeiro trabalho do grupo, a cena curta Moderna Negra Arte (2015). Apresentada em um dos espaços mais tradicionais de Belo Horizonte, o Grande Teatro do Palácio das Artes, a criação parte de um diálogo crítico com o próprio local onde estreia. 

Na cena, os quatro atores da formação original do grupo criam partituras corporais com referência a ícones da cultura brasileira, como o samba e o futebol, para criticar o mito da tolerância racial no país. Também subvertem a prática do blackface1, ao propor uma cena em que um ator negro pinta seu rosto com tinta branca. 

No mesmo âmbito do Cefart, os atores da companhia criam o grupo de estudos Encontro Negr@ na Cena. A base do trabalho é o desenvolvimento de técnicas para o ator, com ênfase na prática da capoeira angola. Elementos criados por grupos como o Lume Teatro, de Campinas, servem de referência para os estudos. A investigação inclui também a leitura de textos teóricos de grupos de arte negra, como o Teatro Experimental do Negro, Bando de Teatro Olodum, Cia. dos Comuns, Teatro Negro e Atitude.

Em paralelo, Felipe Soares inicia pesquisa sobre moradores de rua de Belo Horizonte. O ator vivencia o cotidiano dessa população: passa dias e noites em diversas ruas da cidade e conversa com quem mora ali. O resultado do trabalho transforma-se na performance/exposição Invisibilidade Social (2015). 

Na performance, o integrante da Companhia Negra reproduz a vivência nas ruas vestido com o figurino que simboliza condição social privilegiada: o terno e a gravata. O intuito é contrastar a habitual invisibilidade dos moradores de rua com a visibilidade e o estranhamento que a vestimenta desperta naquele contexto. Em versões mais recentes do trabalho, Soares inclui a ação de limpar as ruas com a bandeira do Brasil.

O trabalho desdobra-se em uma exposição com registros da performance em fotografia e vídeo, em diálogo com trechos do conto “Subterrâneos”, escrito por Ana Maria Gonçalves (1970). A obra é apresentada em diversos eventos, como a Virada Cultural de Belo Horizonte, a Mostra de Teatro e Direitos Humanos e o Festival Nacional de Teatro de Barbacena, evento no qual conquista os prêmios de Melhor Performance e Melhor Ator.

Ainda no ano de criação da Companhia Negra, o grupo participa do festival de cenas curtas A-Mostra.Lab com o trabalho Lastro. O trabalho retrata o triângulo amoroso entre um traficante, sua amante e um professor. Na ocasião, os atores realizam uma leitura dramática do texto, escrito por Felipe Soares.

Ainda em 2015, o grupo é convidado a participar da cena curta Rolezinho – Nome Provisório, dirigida por Alexandre de Sena e apresentada no Festival de Cenas Curtas, do Galpão Cine Horto, na capital mineira. A criação trata da visibilidade dos negros em um contexto de coletividade e conta com a presença de mais de 30 artistas negros em cena.

As ruas reaparecem no trabalho mais premiado do grupo, a cena curta Chão de Pequenos (2016), resultado de exercício cênico desenvolvido nas aulas do Cefart por Felipe Soares e o colega Ramon Brant. Criado em parceria com o performer Tiago Gambogi (1976) e o ator José Walter Albinati, o trabalho inspira-se em histórias reais de adoção e retrata a ligação entre dois jovens que estão à espera de uma família, enquanto vendem bala na rua. Embora pensada para os palcos, a peça dialoga com a performance urbana: os atores vendem balas nos arredores do teatro, minutos antes de entrar em cena, como parte do aquecimento físico e vocal.  

Chão de Pequenos recebe prêmio no Festival de Cenas Curtas de Sumaré, em São Paulo, e é a grande vencedora do Festival de Teatro Universitário (Festu), no Rio de Janeiro, realizado em 2016. Como parte da premiação, a peça recebe financiamento para transformar-se em espetáculo, com estreia prevista para a edição de 2017 do Festival de Teatro de Curitiba, além de cumprir temporada na capital fluminense, no mesmo ano.

Atualmente, a Companhia Negra de Teatro é formada pelo ator e diretor Felipe Soares e pelo ator Eliezer Sampaio, além de ter como parceiros o ator Ramon Brant, a musicista Nicole Lopes, o jornalista Bremmer Guimarães e os designers Yuri Castilho Orneles e Rui Loureiro.

Notas

1. Blackface é o nome dado para a caracterização de personagens do teatro com estereótipos racistas atribuídos aos negros.

Fontes de pesquisa 5

Abrir módulo

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: