Artigo da seção grupos Companhia Negra de Teatro

Companhia Negra de Teatro

Artigo da seção grupos
Teatro  
Data de criação da obra Companhia Negra de Teatro: 05-2015 Local de crição: (Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte)

A Companhia Negra de Teatro surge em 2015, resultado do encontro de alunos do curso técnico em teatro do Centro de Formação Artística e Tecnológica (Cefart) de Minas Gerais. As criações do grupo são pautadas pela presença e potencialidades do corpo negro no teatro. A busca por dramaturgias autorais, o diálogo performativo com o espaço urbano e o interesse por tratar das desigualdades sociais são pilares que estruturam a identidade do grupo.

Depois de uma temporada de residência artística com o Bando de Teatro Olodum, de Salvador, o ator Felipe Soares (1987) convida Efigênia Marya, Michele Bernardino e Renato Gualberto, colegas do Cefart, para formar a Companhia Negra de Teatro. O nome presta homenagem à Companhia Negra de Revistas (1926-1927), do Rio de Janeiro, considerada a primeira do gênero no Brasil.

A consciência de que a presença do corpo negro no teatro produz em si discurso e dissidência marca a construção do primeiro trabalho do grupo, a cena curta Moderna Negra Arte (2015). Apresentada em um dos espaços mais tradicionais de Belo Horizonte, o Grande Teatro do Palácio das Artes, a criação parte de um diálogo crítico com o próprio local onde estreia. 

Na cena, os quatro atores da formação original do grupo criam partituras corporais com referência a ícones da cultura brasileira, como o samba e o futebol, para criticar o mito da tolerância racial no país. Também subvertem a prática do blackface1, ao propor uma cena em que um ator negro pinta seu rosto com tinta branca. 

No mesmo âmbito do Cefart, os atores da companhia criam o grupo de estudos Encontro Negr@ na Cena. A base do trabalho é o desenvolvimento de técnicas para o ator, com ênfase na prática da capoeira angola. Elementos criados por grupos como o Lume Teatro, de Campinas, servem de referência para os estudos. A investigação inclui também a leitura de textos teóricos de grupos de arte negra, como o Teatro Experimental do Negro, Bando de Teatro Olodum, Cia. dos Comuns, Teatro Negro e Atitude.

Em paralelo, Felipe Soares inicia pesquisa sobre moradores de rua de Belo Horizonte. O ator vivencia o cotidiano dessa população: passa dias e noites em diversas ruas da cidade e conversa com quem mora ali. O resultado do trabalho transforma-se na performance/exposição Invisibilidade Social (2015). 

Na performance, o integrante da Companhia Negra reproduz a vivência nas ruas vestido com o figurino que simboliza condição social privilegiada: o terno e a gravata. O intuito é contrastar a habitual invisibilidade dos moradores de rua com a visibilidade e o estranhamento que a vestimenta desperta naquele contexto. Em versões mais recentes do trabalho, Soares inclui a ação de limpar as ruas com a bandeira do Brasil.

O trabalho desdobra-se em uma exposição com registros da performance em fotografia e vídeo, em diálogo com trechos do conto “Subterrâneos”, escrito por Ana Maria Gonçalves (1970). A obra é apresentada em diversos eventos, como a Virada Cultural de Belo Horizonte, a Mostra de Teatro e Direitos Humanos e o Festival Nacional de Teatro de Barbacena, evento no qual conquista os prêmios de Melhor Performance e Melhor Ator.

Ainda no ano de criação da Companhia Negra, o grupo participa do festival de cenas curtas A-Mostra.Lab com o trabalho Lastro. O trabalho retrata o triângulo amoroso entre um traficante, sua amante e um professor. Na ocasião, os atores realizam uma leitura dramática do texto, escrito por Felipe Soares.

Ainda em 2015, o grupo é convidado a participar da cena curta Rolezinho – Nome Provisório, dirigida por Alexandre de Sena e apresentada no Festival de Cenas Curtas, do Galpão Cine Horto, na capital mineira. A criação trata da visibilidade dos negros em um contexto de coletividade e conta com a presença de mais de 30 artistas negros em cena.

As ruas reaparecem no trabalho mais premiado do grupo, a cena curta Chão de Pequenos (2016), resultado de exercício cênico desenvolvido nas aulas do Cefart por Felipe Soares e o colega Ramon Brant. Criado em parceria com o performer Tiago Gambogi (1976) e o ator José Walter Albinati, o trabalho inspira-se em histórias reais de adoção e retrata a ligação entre dois jovens que estão à espera de uma família, enquanto vendem bala na rua. Embora pensada para os palcos, a peça dialoga com a performance urbana: os atores vendem balas nos arredores do teatro, minutos antes de entrar em cena, como parte do aquecimento físico e vocal.  

Chão de Pequenos recebe prêmio no Festival de Cenas Curtas de Sumaré, em São Paulo, e é a grande vencedora do Festival de Teatro Universitário (Festu), no Rio de Janeiro, realizado em 2016. Como parte da premiação, a peça recebe financiamento para transformar-se em espetáculo, com estreia prevista para a edição de 2017 do Festival de Teatro de Curitiba, além de cumprir temporada na capital fluminense, no mesmo ano.

Atualmente, a Companhia Negra de Teatro é formada pelo ator e diretor Felipe Soares e pelo ator Eliezer Sampaio, além de ter como parceiros o ator Ramon Brant, a musicista Nicole Lopes, o jornalista Bremmer Guimarães e os designers Yuri Castilho Orneles e Rui Loureiro.

Notas

1. Blackface é o nome dado para a caracterização de personagens do teatro com estereótipos racistas atribuídos aos negros.

Fontes de pesquisa (5)

  • COMPANHIA Negra de Teatro. In: Portal do Teatro Mineiro. Belo Horizonte: Governo do Estado de Minas Gerais, 2015. Disponível em: http://www.teatromineiro.mg.gov.br/component/k2/companhia-negra-de-teatro Acesso em: 19 out. 2016
  • FELIPE SOARES. Site oficial do artista. Belo Horizonte, 2016. Disponível em: https://felipesoaresbr.wordpress.com/ Acesso em: 19 out. 2016
  • FUNDAÇÃO Clóvis Salgado. Alunos do Cefart são premiados no Festival de Teatro Universitário do Rio de Janeiro. Disponível em: http://fcs.mg.gov.br/banco-de-noticias/alunos-do-cefart-sao-premiados-no-festival-de-teatro-universitario-do-rio-de-janeiro/ Acesso em: 19 out. 2016
  • SOARES, Felipe. Felipe Soares. Belo Horizonte, 2016. Entrevista concedida a Julia Guimarães Mendes.
  • SOARES, Felipe. [Currículo]. Enviado pelo artista em: 17 out. 2016.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • COMPANHIA Negra de Teatro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo635988/companhia-negra-de-teatro>. Acesso em: 25 de Set. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7