Artigo da seção grupos Teatro Negro e Atitude (TNA)

Teatro Negro e Atitude (TNA)

Artigo da seção grupos
Teatro  
Data de criação da obra Teatro Negro e Atitude (TNA): 13-06-1995 Local de crição: (Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte)

O Teatro Negro e Atitude (TNA) é um grupo mineiro dedicado à pesquisa de elementos da cultura afro-brasileira e seu emprego na arte do ator. O coletivo é fundado em 1993 pelo baiano Hamilton Borges, junto a outros ativistas do Movimento Negro Unificado (MNU). Também fazem parte da formação original as bailarinas Marilene Rodrigues e Marilda Cordeiro e os atores Raí Nonato e Soraia Campos.

Na fase inicial, os interesses do coletivo são essencialmente políticos. O teatro é pensado como ferramenta para mobilizar a sociedade contra o racismo no Brasil e fomentar o debate público em torno da questão.

O trabalho emblemático desse período é Conversa de Dois (1997), que alia referências do escritor mineiro Guimarães Rosa (1908-1967) à música “Diário de um Detento”, do grupo de rap Racionais MC’s. O espetáculo é encenado em presídios, comunidades periféricas e centros culturais.

Nessa mesma época, o grupo inicia uma longa residência no Centro Cultural Lagoa do Nado, parte do projeto Usina de Teatro1, que busca dar suporte técnico e pedagógico a coletivos cênicos da cidade. A partir dessa residência, o TNA estreita seu diálogo com a região que posteriormente abriga sua sede: o distrito de Venda Nova. 

No mesmo período, o coletivo conhece um de seus parceiros mais importantes, o diretor Marcos Vogel (1950-2013). Com ele, montam A Lata de Lixo da História (2000). O trabalho marca uma nova fase do grupo, que passa a contar com elenco fixo, além de desenvolver pesquisa sobre a teoria e as técnicas do dramaturgo alemão, Bertolt Brecht (1898-1956).

O trabalho seguinte é Canjá Ebê Mufó Calí (2002), espetáculo construído com base em uma língua inventada com fonemas do iorubá e de idiomas indígenas, além do português. Com texto de Val Souza e direção de Evandro Nunes, o trabalho marca o início de uma pesquisa sobre as estéticas de origem africana. Nesse período, o grupo ganha um novo integrante: o ator Marcus Carvalho, atualmente diretor artístico e musical do TNA. O espetáculo é premiado em três categorias no Festival de Artes Cênicas (Face) de Conselheiro Lafaiete, Minas Gerais.

Em 2003, o grupo inicia interlocução com o público infantil, com a montagem A Viagem de um Barquinho. O trabalho marca o aprofundamento da pesquisa sonora. Todas as canções são compostas coletivamente pelos atores, com direção musical de Ricardo Garcia.

A longevidade do espetáculo coincide com a saída de alguns integrantes e uma segunda fase de reconfiguração da identidade do TNA. No novo contexto, o coletivo monta dois espetáculos que reafirmam a questão racial no patamar estético ou na desconstrução de discursos.

O primeiro deles é A Saga do Caboclo Capiroba (2006). Baseado na obra Viva o Povo Brasileiro (1984), de João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), a montagem reconta a história do Brasil do ponto de vista dos colonizados, em especial o de negros e índios, no intuito de questionar o mito da democracia racial no país.

É nesse processo que o grupo inicia pesquisa sobre o treinamento do ator, ancorada na construção de uma corporeidade negra e descolonização do corpo. A investigação baseia-se em três fontes específicas da cultura popular afro-brasileira: o candomblé de Ketu, a capoeira Angola e o congado.

No trabalho seguinte, o infantil A Lenda de Ananse - um Herói com Rosto Africano (2007), o coletivo opta por ter apenas atores negros na sua composição. Sobre a montagem, o crítico Marcello Castilho Avellar (1960-2011), do jornal Estado de Minas, escreve: “(...) os signos com que o Teatro Negro e Atitude lida têm nome e endereço, têm uma origem definida, e ela está no continente que é frequentemente negado pela nossa obsessão de parecermos europeus”2.

O período coincide ainda com a construção da sede do grupo em um galpão na região de Venda Nova, em 2007. Além de abrigar os ensaios do TNA, o galpão funciona como espaço cultural, voltado para a valorização da arte negra. Entre 2010 a 2013, o Espaço Cor(tição) faz um convênio com o Ministério da Cultura  (MinC) e passa a funcionar como Ponto de Cultura.

Após o fim do convênio com o Governo Federal, o grupo convida a Cóccix Companhia Teatral, também da região, para gerir o espaço de forma compartilhada. Em 2014 e 2015, realizam, juntos, duas edições da Mostra Puxadinho. No fim de 2015, os grupos perdem o espaço-sede, segundo Carvalho, por conta do crescimento da especulação imobiliária na região e a falta de investimentos públicos nos espaços culturais da cidade.

A parceria com a Cóccix Companhia Teatral estende-se para os palcos, pela participação dos atores de uma companhia nos trabalhos da outra, como é o caso da atriz Sinara Teles no espetáculo Àbíkú (2013), trabalho mais recente do TNA. A montagem transporta o mito iorubá que dá nome à obra para o contexto de homicídios de jovens negros das periferias brasileiras.

Fontes de pesquisa (5)

  • AVELLAR, Marcello Castilho. O poder da esperteza. Estado de Minas, Belo Horizonte, 2011. Cultura.
  • CARVALHO, Marcus. Entrevista concedida por Marcus Carvalho a Julia Guimarães Mendes. Belo Horizonte, 2016.
  • CARVALHO, Marcus. [Currículo]. Enviado pelo artista em: 14 out. 2016.
  • SOARES, Jessica. Corpo que dança, corpo que canta, corpo que lembra. In: Revista Marimbondo, Belo Horizonte, [s.n], 2001. Disponível em: http://revistamarimbondo.com.br/artigo/58 Acesso em: 13 out. 2016
  • TEATRO Negro e Atitude. Site oficial da companhia. Belo Horizonte. Disponível em: http://teatronegroeatitude.blogspot.com.br/ Acesso em: 17 out. 2016

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • TEATRO Negro e Atitude (TNA). In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo635987/teatro-negro-e-atitude-tna>. Acesso em: 14 de Jun. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7