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Teatro

Capulanas Cia. de Arte Negra

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 11.06.2020
2007 Brasil / São Paulo
A Capulanas Cia de Arte Negra distingue-se, no cenário teatral brasileiro, por transitar por um território de discurso e atuação específico: as questões identitárias da mulher negra periférica. Formado por ex-alunas do curso de Artes do Corpo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) em 2007, o núcleo artístico mantém sua sede, a...

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A Capulanas Cia de Arte Negra distingue-se, no cenário teatral brasileiro, por transitar por um território de discurso e atuação específico: as questões identitárias da mulher negra periférica. Formado por ex-alunas do curso de Artes do Corpo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) em 2007, o núcleo artístico mantém sua sede, a Goma Capulanas, na periferia da zona sul paulistana desde 2012. Seu foco está nos públicos desatendidos pela circulação de espetáculos e sub-representados na cultura brasileira. 

O trabalho das artistas pesquisadoras Adriana Paixão, Débora Marçal, Flávia Rosa e Priscila Preta difere do teatro negro pautado na denúncia do racismo estrutural. Em vez disso, assume a reconstrução de elos entre as tradições africanas – seus rituais, valores, saberes e cosmogonia – e o cotidiano das mulheres negras brasileiras. 

A pesquisa das artistas investiga subjetividades, gestualidades e problemas dos espaços periféricos. Reelabora  esses elementos esteticamente e apresenta-os à comunidade local, em forma de teatro.

As Capulanas têm como base as feministas negras – como a estadunidense Bell hooks (1952) e a brasileira Beatriz Nascimento (1942) –, a cultura popular, a transmissão oral da memória e a experiência de mulheres periféricas anônimas. Sobre essa base, constroem uma poética em que o feminino negro é protagonista e valorizam a identidade e a cidadania negra. Segundo a pesquisadora Maria Lucia Pupo, “a intenção é dialogar com a sociedade sobre as percepções, aspirações e descobertas da mulher negra e ampliar o debate sobre as relações entre os processos históricos e as questões de gênero e etnia”1.

O processo criativo da companhia parte de conversas e discussões temáticas que originam improvisações corporais, material textual e gestual. A linguagem adotada é a do teatro negro contemporâneo, com performance, dança e canto, e a estética negra periférica dos quintais e terreiros, no rés-do-chão, para uma relação horizontal e próxima com o público. 

Para desenvolver essa poética, contribuem as trocas com artistas africanos contemporâneos, como a atriz moçambicana Lucrécia Paco (1969) e o ator francês William Nadylam (1966), da companhia de teatro do diretor inglês Peter Brook (1925). Também é transformadora a viagem a Moçambique, em 2012, na qual se confrontam com a discriminação, o machismo e a pobreza daquele continente, assim como com valores civilizatórios e práticas tradicionais ainda vivas.

Com isso, passam a investigar a integração do mundo natural com o cultural, pela cura, espiritualidade e pelo sagrado, das memórias ancestrais e dos saberes tradicionais, revalorizados como sustentáculos para uma nova concepção de futuro.

Solano Trindade e Suas Negras Poesias, primeiro espetáculo da companhia, retoma a escrita do poeta pernambucano (1908-1973) com vivências cotidianas das atrizes. Entre elas, as dores provocadas pelo alisamento dos cabelos, simbolizadas por um pente de ferro, transformado em objeto cênico. O espaço de apresentação são os quintais, tomados como espaços afetivos, externos à casa, e vinculados à história dos negros no período escravagista. 

O trabalho circula por dezenas de quintais de casas em periferias pelo projeto Pé no Quintal, aprovado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. Trata-se do primeiro laboratório em que companhia experimenta as possibilidades de teatralização do negro, excluído socialmente, diante de uma plateia sujeita à mesma exclusão, visando a experiências de resiliência e emancipação. O processo é registrado no vídeo documentário Pé no Quintal (2011). 

Sangoma – Saúde às Mulheres Negras (2013) aborda os efeitos psicossociais do racismo e do machismo na saúde da mulher negra, pela pesquisa sobre a tradição dos sangomas, praticantes dedicados à cura espiritual e física em comunidades africanas. Segundo Pupo, “as referências ao padrão branco de beleza aparecem comoventemente em personagens que, por exemplo, tomam banho com água sanitária ou passam o cabelo a ferro para se aproximar do modelo hegemônico”, numa apresentação em que os espectadores “são tratados como convidados da casa”2 e recebem alimentos e bebidas curativos. 

No ano seguinte, o projeto Sã – da Cura ao Gozo, também pelo Fomento, realiza 60 apresentações de Sangoma na Goma Capulanas, e a companhia consegue maior profissionalização. Ao fim da temporada, lança o curta-metragem A Cama, o Carma e o Querer (2015).

As Capulanas mantêm ainda os ONNIMs, grupos de estudos sobre negritude e feminismo, como espaço de troca com profissionais e espectadores para o adensamento de sua poética afro-brasileira. Buscam compreender as relações culturais entre África e Brasil e as interdições que a matriz africana sofre no país para a conquistar voz e empoderar o povo negro, especialmente a mulher. Ao que respondem com um projeto teatral de cura social no âmbito da cultura. 

Notas

1. PUPO, Maria Lucia S. B. . Une politique théâtrale pour la ville de São Paulo. Registres, v. 18, p. 44, 2015. [Tradução de Luciana Romagnolli].

2. Idem

Espetáculos 2

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Exposições 1

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Fontes de pesquisa 9

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