Artigo da seção grupos Conjunto Época de Ouro

Conjunto Época de Ouro

Artigo da seção grupos
Música  

O Conjunto Época de Ouro surge no início da década de 1960 por iniciativa de Jacob do Bandolim (1918-1969), mas só adquire a formação definitiva em 1966, com Dino Sete Cordas, no violão de sete cordas; César Faria e Carlos Leite, no violão; Jonas da Silva, no cavaquinho; Gilberto D'Ávila, no pandeiro; e Jorginho, no ritmo. Anteriormente, de 1951 a 1961, o bandolinista é acompanhado pelo Regional do Canhoto.

Ainda sem utilizar o nome Época de Ouro, o conjunto grava dois discos com Jacob. O primeiro, Chorinhos e Chorões, é lançado em 1961. No repertório, temas de Jacob, como Assanhado, Santa Morena, Benzinho e Bola Preta, e também composições de outros autores, como Pixinguinha, Benedito Lacerda, Ernesto Nazareth, Luiz Americano, Zequinha de Abreu, Nelson Alves e Amador Pinho. No ano seguinte, o grupo lança Primas e Bordões - Jacob e Seu Bandolim. O conjunto interpreta as canções de Jacob, como Falta-Me Você, Um Bandolim na Escola, A Ginga do Mané e O Voo da Mosca, além de obras de Luiz Gonzaga, Benedito Lacerda, Pixinguinha e Jonas da Silva.

O Época de Ouro representa a definição clássica da estrutura de um regional, formado com três violões, um cavaquinho, instrumentos de ritmo (pandeiro) e um solista. O conjunto de Jacob, obviamente, usa o bandolim. O de Canhoto chega a ter Altamiro Carrilho, com sua flauta, executando tal função. Além disso, o Época de Ouro é o responsável pela retomada do choro. No início da década de 1960, o grupo reconquista para o gênero um espaço perdido até então pela ascensão da bossa nova. E não só reabre caminho para que novos conjuntos de chorões possam tocar como também é respeitado e convidado a se apresentar com artistas conceituados, como Elizeth Cardoso e o Zimbo Trio.

Outro pioneirismo do Época de Ouro consiste em utilizar um violão de sete cordas em sua formação. A invenção é associada ao nome de Dino Sete Cordas. Depois de praticamente institucionalizar o instrumento como parte obrigatória de um conjunto regional - tornando isso um padrão até os dias de hoje -, o violonista cria uma escola no gênero. A linguagem original de suas baixarias se torna referência e passa a ser imitada por violonistas de diferentes gerações. De Luizinho Sete Cordas, passando por Raphael Rabello e Baden Powell, chega até Yamandu Costa e Marcelo Gonçalves. O próprio Dino credita a origem de suas baixarias aos contracantos realizados décadas antes por Pixinguinha, e tem papel fundamental na consolidação do estilo do Época de Ouro. No conjunto, os violões de César Faria e Cláudio Leite, o cavaquinho de Jonas da Silva e o ritmo de Jorginho do Pandeiro e Gilberto D'Ávila fazem uma base extremamente sólida para que Jacob e Dino dialoguem quase em tempo integral com o bandolim e o violão de sete cordas intercalando improvisos e baixarias.

Desde Chorinhos e Chorões, o grupo padroniza a maneira de se tocar choro. Não apenas pela formação, em termos didáticos, mas também pela linguagem. O aspecto mais inventivo dessa parceria são os improvisos de Jacob, que não tem estudos formais de música, tocando de maneira bastante intuitiva. De resto, observa-se uma forma tradicional de interpretação, mas com expressividade e variações de dinâmica e andamento. Nesse primeiro disco, destaque para os temas de Jacob, como os choros Assanhado, Benzinho e Bola Preta, e o flamenco Santa Morena. Além disso, há registros históricos de Proezas de Sólon, Vou Vivendo e Cinco Companheiros, de Pixinguinha, Ameno Resedá, de Ernesto Nazareth, e Não Me Toques, de Zequinha de Abreu.

Os trabalhos seguintes do Época de Ouro seguem a mesma linha tradicional do primeiro lançamento. Primas e Bordões, o segundo álbum lançado pelo grupo, tem Falta-Me Você, Um Bandolim na Escola e os choros antológicos A Ginga do Mané e Voo da Mosca, todos de Jacob. Destaque para a gravação histórica de Naquele Tempo, de Pixinguinha, além do baião Araponga, de Luiz Gonzaga, que, graças ao Época de Ouro, é um clássico até hoje nas rodas de choro. Mas é em 1967 que o conjunto e Jacob lançam o disco mais representativo, Vibrações. O LP consolida a formação de regional com um dos registros mais expressivos do choro brasileiro. O trabalho tem composições de autores como Pixinguinha (Ingênuo e Lamentos), Ernesto Nazareth (Brejeiro, Vesper, Floraux e Fidalga), Mário Rossi e Fon-Fon (Murmurando), sem contar Receita de Samba e Vibrações, considerado um dos temas de mais profundidade, complexidade e beleza de Jacob do Bandolim em termos melódicos e harmônicos. Um ano depois, o conjunto extrapola a linguagem do choro com a participação no disco Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim, Época de Ouro e Zimbo Trio - Ao Vivo no Teatro João Caetano, último registro fonográfico do grupo ao lado de Jacob do Bandolim, em show promovido pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS/RJ). Com 39 músicas, o encontro vai além do choro, registrando temas como Ponteio (Edu Lobo e José Carlos Capinan), É Luxo Só (Ary Barroso e Luiz Peixoto), Canção do Amor Demais (Tom Jobim e Vinicius de Moraes).

Depois da morte de Jacob do Bandolim, em 1969, o conjunto se desfaz, mas lança um disco, em 1971, Os Saraus de Jacob - Jacob do Bandolim Recebe o Modinheiro Paulo Tapajós. Como se sabe, em sua vida, o compositor desenvolve o hábito compulsivo de gravar quase tudo o que faz, desde programas de rádio até reuniões informais em sua casa, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Esse disco é fruto de um desses saraus realizados por Jacob em seu quintal. Com gravações absolutamente despojadas - passando ao ouvinte o clima descontraído de uma roda de choro, sem formalidade -, o bandolinista e o Época de Ouro apresentam registros históricos de temas de diversos compositores. O único de Jacob a ser gravado é o clássico Noites Cariocas. De outros autores, destaque para Cochichando, de Pixinguinha - originalmente grafado como Cochicho, nesse disco -, Brejeiro, de Nazareth, e Faceira, de Ary Barroso. Em 1972, o conjunto se reúne novamente, no show Sarau, no Teatro da Lagoa, no Rio Janeiro, com Déo Rian no bandolim, mantendo o mesmo estilo. Participa de trabalhos de outros artistas, lança disco, motivando e retomando o interesse do mercado musical pelo choro. De maior destaque são Época de Ouro Interpreta Pixinguinha e Benedito Lacerda, com o qual recebe o prêmio de melhor grupo instrumental, da revista Playboy, em 1977, e Chorando Baixinho - Um Encontro Histórico - Com Época de Ouro, Abel Ferreira e Arthur Moreira Lima, de 1979.

O grupo volta a lançar um disco, Época de Ouro - Dino 50 Anos, em 1987. Em 1996, o conjunto participa de álbuns de artistas renomados, como Paulinho da Viola, Marisa Monte, Ivan Lins e Elba Ramalho. Em 2001, lança Café Brasil, com participação de Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Marisa Monte, João Bosco e Leila Pinheiro. No ano seguinte, mais um disco, Café Brasil 2, ao lado de Ney Matogrosso, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Arlindo Cruz, Sombrinha e Lobão. Seu trabalho mais recente, Feijão com Arroz, é de 2010. Depois de apresentar diferentes formações, o Época de Ouro conta agora com Jorginho do Pandeiro (pandeiro), Ronaldo do Bandolim (bandolim), André Bellieny (violão), Toni Azeredo (violão de sete cordas), Jorge Filho (cavaquinho) e Antonio Rocha (flauta transversal).

Obras de Conjunto Época de Ouro: (1) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (5)

  • BARBOSA, Valdinha; DEVOS, Anne Marie. Radamés Gnattali: o eterno experimentador. Rio de Janeiro: Editora Funarte, 1984.
  • CAZES, Henrique. Choro: do quintal ao municipal. 3ª ed., São Paulo: Editora 34, 2005.
  • MARQUES, Mario. Guinga: Os mais belos acordes do subúrbio. Rio de Janeiro: Gryphus, 2002.
  • PUGLIESI, Maria Vicencia; PRATA, Sergio. Tributo a Jacob do Bandolim: discografia completa. Rio de Janeiro: Cecac, 2002.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras (vol. 1: 1901-1957). São Paulo: Editora 34, 1997. (Coleção Ouvido Musical). 

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CONJUNTO Época de Ouro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo617128/conjunto-epoca-de-ouro>. Acesso em: 11 de Abr. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7