Artigo da seção grupos Companhia Tragicômica Balaio de Gatos

Companhia Tragicômica Balaio de Gatos

Artigo da seção grupos
Teatro  
Data de criação da obra Companhia Tragicômica Balaio de Gatos: 10-1980 Local de crição: (Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre) | Data de término 06-1988 Local de término: (Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre)

Histórico
Grupo de teatro-dança que surge em Porto Alegre, em 1980, a Companhia Tragicômica Balaio de Gatos trabalha com criação coletiva e apresenta espetáculos calcados no nonsense, além de performances, happenings e shows musicais.

A companhia se forma após oficina ministrada por membros do grupo carioca Asdrúbal Trouxe o Trombone na temporada do espetáculo Aquela Coisa Toda, em Porto Alegre. Alguns alunos dessa oficina começam a se reunir primeiro no Instituto Educacional São José, onde estuda Renato Campão, e depois na Academia Mudança, na qual os atores conhecem o bailarino João de Deus, que passa a integrar a companhia. Os objetivos dos encontros são a troca de ideias e a pesquisa da linguagem artística. O Balaio de Gatos começa com happenings em festas particulares e galerias de arte, com espetáculos de teatro de rua e esquetes em festivais de teatro amador, no interior do Rio Grande do Sul. Do núcleo inicial participam Renato Campão, Jacqueline Cantore, Patsy Cecato, Jaime Ratinecas, Ivana Groff, Nelson Magalhães, Tina Dischinger e Neka Menna Barreto.

Com alguns novos integrantes, estreia Abutres da Rebentação, em 1982, no Festival Cio da Terra, encontro promovido pela União Estadual dos Estudantes - UEE, que reúne mais de 20 mil jovens na cidade de Caxias do Sul. Sobre a peça, o crítico teatral Cláudio Heemann escreve: "Abutres da Rebentação acontece num clima onírico de liberação de imagens inconscientes ligadas por uma corrente de ação física de continuidade muito firme. As imagens fluem com facilidade e variedade. A nota lúdica e a observação satírica são constantes. A narrativa apoia-se em recursos marcadamente gestuais, mas existem muitos trechos dançados, outros monologados, além de mímica e vocalizações. Tudo isso forma uma cadeia de acontecimentos dinâmicos, bizarros e divertidos, como se o subconsciente tivesse liberado, em termos de livre associação, cenas simbólicas de universo surrealista".1

Outro trabalho do grupo é No Vale dos Pimentões. A atriz e diretora Adriane Mottola lembra de sua experiência como espectadora do espetáculo: "Havia cenas criadas apenas em cima de sons, melodias e movimento; duas mulheres cruzando vagarosamente a cena, em diagonal, só cantando: 'silencio-samente'. A ação se passava num futuro depois da bomba, e os poucos humanos que restaram tentaram ser uma família".2 Nesse período, Balaio de Gatos conta, nas apresentações, com a participação de uma banda, liderada por Carlos Eduardo Miranda. Liga-se, a partir de então, com o rock gaúcho do período. Miranda e Flávio Santos fundam a banda Urubu Rei e convidam para integrá-la as atrizes do grupo Luciene Adami, Lila Vieira e Patsy Cecato. Ao mesmo tempo, outros membros, João Carlos Castanha, Renato Campão, Jaime Ratinecas e Verlaine Pretto, criam a banda Cover Boys, acompanhados por músicos da cidade, entre eles Edu K e Biba Meira.

Em 1984, o grupo monta A Bela e a Fera, inspirado na adaptação cinematográfica do filme de Jean Cocteau, bem como na estética do cinema noir dos anos 1940. Por isso, a encenação trabalha intensamente com o jogo de cores, em que os tons escuros são valorizados.

Apresenta, em 1986, A Bossa da Juventude, com base em texto de mesmo título, de Anne Jellicoe. O espetáculo retoma algumas passagens de encenações anteriores da companhia e sua estética se aproxima do besteirol carioca. Heemann fala sobre isso em uma crítica: "Eles se apresentam mais cautelosos e bem produzidos. Parecem procurar um terreno de comunicabilidade descompromissada, com namoro daquilo que os cariocas rotulam de besteirol. Isto é, uma salada mista de divertimento pós-moderno".3 Em A Bossa, atuam Renato Campão, Lila Vieira, Patsy Cecato e Jaime Ratinecas.

O mesmo quarteto se reúne em 1987 para a apresentação de Perucas em Desfile. Desta vez, eles se autointitulam "Os Irmãos Castro". O mote do texto é o encontro de quatro alunos do Colégio Inácio Montanha, um mero pretexto para que ataquem de forma ferina a sociedade de consumo.

Vida e obra de Oscar Wilde são trabalhados por João de Deus num roteiro que serve de base ao texto de Renato Campão para o espetáculo O Retrato de Dorian Gray, de 1988. Pela primeira vez o grupo escolhe alguém para dirigir o trabalho, função que cabe a Patsy Cecato. Nessa encenação, o Balaio de Gatos faz largo uso do travestimento masculino, o que aproxima ainda mais o grupo do besteirol carioca. Heemann comenta: "A intenção é um exame estético-moral sobre arte, beleza, vida e sexo, para arrasar com aparências e tirar a máscara de uma homossexualidade dominante. Mas a Companhia Tragicômica Balaio de Gatos é um típico fenômeno de contracultura. Assim sendo, o resultado se expressa num quebra-quebra de posturas e convenções. Não se levando muito a sério. Como se Dercy Gonçalves comentasse Marcel Proust. Ou Jerry Lewis falasse sobre Shakespeare. Com um recente trabalho sobre um conto do Marquês de Sade, Renato Campão encaminha seu texto, entre piadas e loucuras, para um besteirol cáustico".4

O Balaio de Gatos exerce influência sobre o movimento do rock gaúcho dos anos 1980. O músico Frank Jorge, um dos fundadores da Banda Graforréia Xilarmônica, fala sobre a importância do grupo em sua formação: "A ditadura militar começava a dar sinais de cansaço. Foi neste contexto que conheci o Balaio de Gatos e gostei de cara por trazer uma proposta atrevida: um teatro irreverente quando nem se falava em besteirol, um teatro nonsense que misturava surrealismo e new wave, uns loucos que sobreviveram de algum holocausto e exorcizavam suas culpas no teatro do Círculo Israelita Brasileiro, ali na João Telles, perto do Ocidente".5

Além de apresentar o trabalho de artistas que hoje são importantes na vida cultural brasileira, a estética do Balaio de Gatos inspira diversos trabalhos, entre os quais o espetáculo Terça Insana, cuja mentora, a atriz gaúcha Grace Gianoukas, admite a importância da companhia em sua formação teatral.6

Notas

1. HEEMANN, Cláudio. Doze anos na primeira fila. Porto Alegre: Editora Alcance, 2006. p. 117.

2. MOTTOLA, Adriane. Depoimento ao jornal Palco & Platéia, n. 3, Porto Alegre, SMC, 2004, p. 7.

3. HEEMANN, Cláudio. Op.cit., p. 183.

4. Idem. p. 237.

5. JORGE, Frank. Depoimento ao jornal Palco & Platéia, n. 3, Porto Alegre, SMC, 2004, p. 7.

6. GIANOUKAS, Grace. Entrevista com a atriz no dia 4 de março de 2009.

Fontes de pesquisa (4)

  • CAMPÃO, Renato. A comédia negra. Porto Alegre: Fumproarte/Edição do Autor, 2002.
  • GIANOUKAS, Grace. Entrevista com a atriz no dia 4 de março de 2009.
  • HEEMANN, Cláudio. Doze anos na primeira fila. Porto Alegre: Editora Alcance, 2006.
  • PALCO & PLATÉIA. Porto Alegre, n. 3, SMC, 2004.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • COMPANHIA Tragicômica Balaio de Gatos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo533378/companhia-tragicomica-balaio-de-gatos>. Acesso em: 19 de Jan. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7