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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Grupo de Teatro Esquadrao da Vida (Brasília - DF)

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
HistóricoNo início da década de 1970, um grupo de amigos se instala por conta própria no Teatro Galpãozinho de Brasília (atual Espaço Cultural 508) e resolve fazer oficinas teatrais diárias com empresários, atores e crianças. O grupo teatral se chama XPTO, é liderado por Ary Pára-Raios e conta com diversos colaboradores, entre eles Zéduardo Lade...

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Histórico
No início da década de 1970, um grupo de amigos se instala por conta própria no Teatro Galpãozinho de Brasília (atual Espaço Cultural 508) e resolve fazer oficinas teatrais diárias com empresários, atores e crianças. O grupo teatral se chama XPTO, é liderado por Ary Pára-Raios e conta com diversos colaboradores, entre eles Zéduardo Ladeira, Geraldinho Vieira, Márcia Maria, João José Miguel, Jenny Penteado, Sérgio Ulhoa e Chico Gaya. Além das oficinas teatrais, apresentam, em 1976, A História do Jardim Zoológico, de Edward Albee, Flicts? A Estória de Uma Cor (adaptação de Aderbal Freire Filho da obra de Ziraldo) e, em seguida, organizam a apresentação da Paixão de Cristo, em Sobradinho, Distrito Federal.

"E nessa ebulição era o fim da década de 1970, uma época [em] que só se ouvia falar nos esquadrões da morte, e nós começamos uma brincadeira. Fizemos uma coisa que se chamava procissão da alegria, em dezembro de 1979".1 Durante a década de 1980, a intervenção urbana da trupe traz para o cotidiano das superquadras brasilienses a Guerrilha do Bom Humor, com seus palhaços, acrobacias e canções. Nasce, a partir desta ação, sob o comando de Ary Pára-Raios e sob a palavra de ordem "abaixo o baixo astral" a trupe teatral Esquadrão da Vida, que em plena ditadura militar convoca os moradores da capital federal à uma guerra contra o mau humor generalizado instaurado pelo regime político. Para o pesquisador de teatro brasiliense Glauber Coradesqui, a obra insere o teatro de rua como aspecto identitário do teatro local. "Pensemos sobre este título: o teatro como campo de batalha; ideológica e política, pela igualdade e justiça social; um teatro que escapa da caixa cênica, do prédio e vai às ruas, lugar de acessibilidade mais democrática e irrestrita...".2 Esta ousadia, bom humor e subversão políticas tão características de Ary Pára-Raios se tornam marcas da trupe sob sua direção e permeiam os seus trabalhos mais expressivos como Na Rua com Romeu e Julieta (1993), O Bicho Homem e Outros Bichos (1994) e Folia Real (2001), todos apresentados por diversos anos nas ruas das principais cidades do país.

Em Na Rua com Romeu e Julieta, Ary Pára-Raios adapta o clássico shakespeareano e o transforma em ópera-cordel. O trabalho é pautado pela musicalidade e tradições populares brasileiras e o enredo ágil, com duração de aproximadamente 17 minutos, é apresentado entre formações acrobáticas e canções. "Shakespeare chega às ruas, escoltado por folias brasileiras. Via candomblé, catira, folia de reis, dança de São Gonçalo ou pastoril. Cantando Pixinguinha e Ary Barroso ou rememorando cirandas e valsas seculares."3 Entram no elenco jovens atores como Leonardo Hernandes, Clarice Cardel e as duas filhas de Ary Pára-Raios, Tiana Oliveira e Maíra Oliveira. Anos mais tarde, no blog Esquadrão da Vida, Maíra reflete sobre a importância do espetáculo no contexto da sua trajetória e futuro comando do grupo:

E lembro, principalmente, do dia em que descobri que era atriz. Foi no começo dos ensaios de Na Rua Com Romeu & Julieta, o grupo se reorganizava e eu estava lá, com 16 anos, e com toda a minha vontade juvenil presente. Juntos comigo outros companheiros, alguns mais velhos e outros tão jovens quanto eu. Ensaiávamos e, de repente ao falar um texto da peça, percebi ali que meu destino estava marcado como atriz. Meu pai também percebeu. Foi emocionante [...].

O Bicho Homem e Outros Bichos é montado em seguida e trilha nas ruas o caminho aberto pelo espetáculo anterior. Com o uso de máscaras, questiona o comportamento humano predatório em relação aos outros animais e à natureza de modo mais amplo. Diante deste posicionamento, propõe em tom irônico que se dê ao bicho o que é do homem, e ao homem o que é do bicho. A musicalidade, as acrobacias e a alegria permanecem presentes nas apresentações, mas são alavancadas por um discurso mais explicitamente politizado, com um convite à tomada de consciência ecológica.

Em 2001, estreia Folia Real, inspirado nas tradicionais folias brasileiras. Para Ivany Neiva, amiga próxima do grupo desde sua criação e doutora em história cultural, o espetáculo é um antigo sonho de Ary Pára-Ráios, uma "adaptação saltimbanca da folia brasileira [...] 'espetáculo-celabração' que conclama as pessoas a seguirem o grupo, cantando e dançando, não só em períodos de Natal e Ano Novo, mas em outros momentos ao longo do ano". Segundo o próprio grupo, o formato do espetáculo se assemelha aos das folias: "Tem uma chegança, um momento de relaxamento quando os atores se juntam à plateia para um bate-papo, como nos pousos da tradição, e uma saída, com cantorias de despedida".

É importante ressaltar que paralelamente aos espetáculos criados e apresentados nas ruas, o Esquadrão também realiza, ao longo dos anos, nas suas diversas apresentações pelo Brasil, oficinas de acrobacia e palhaço, como em Para Aprender a Voar, Corpoema/Coração, Expedição dos Sentidos e Instinto Palhaço, bem como campanhas em prol da educação e do meio ambiente, caso de Quem Mata a Mata se Mata e Arte e Ecologia. Os espetáculos, assim como as oficinas e as campanhas, refletem a estética e ética do grupo, em que o desejo de fazer arte é realizado no mais acessível palco urbano, as ruas, e estruturado por meio de críticas socioambientais contundentes, adornadas pelas tradições populares, celebrando a vida e suas transformações.

Em 2003, Ary Pára-Ráios falece e passa à filha Maíra Oliveira a tarefa de dar continuidade ao trabalho do grupo. Em 2008, Maíra realiza uma oficina em busca de novos integrantes e reúne obras do grupo numa exposição comemorativa chamada Viva o Esquadrão da Vida, em homenagem ao pai, no Teatro da Caixa. Também inicia a sistematização do trabalho realizado pelo grupo até então, atualiza a Guerrilha do Bom Humor e passa a realizar treinamentos e ensaios regulares na tentativa de manter um grupo fixo. Em 2010, dirige O Filho do Filhote de Elefante, adaptação deixada por Ary antes de seu falecimento, baseada na obra O Filhote de Elefante (1926), de Bertholt Brecht (1858-1956). O espetáculo se une ao repertório do Esquadrão em comemoração aos seus 30 anos de atividade e, entre 2010 e 2011, o grupo se apresenta em mais de 40 quadras do Distrito Federal, incluindo novas cidades satélites como a Estrutural e o Riacho Fundo 2.

Em 2012, diante das dificuldades de manter o Esquadrão da Vida em pleno funcionamento, Maíra inicia um período de recolhimento e cessa temporariamente as atividades do grupo para uma avaliação e estruturação de um novo projeto que reafirme a tradição de levar o bom humor, a alegria e a reinvenção da vida pelas ruas.

Notas
1 PÁRA-RAIOS, Ari em Ary Pára-Ráios, um esquadrão de vida! In VILLAR, Fernando Pinheiro; CARVALHO, Eliezer Faleiros de (ed.). Histórias do teatro brasiliense. Brasília: UnB, IdA, Artes Cênicas, 2004.

2 CORADESQUI, Glauber. Canteiro de obras: notas sobre o teatro candango. Brasília: Filhos do Beco, 2012. p. 53.

3 OLIVEIRA, Maíra de. Acervo pessoal. Catálogo da exposição Viva o Esquadrão da Vida. Curadoria Marília Panitz, 2008.

Fontes de pesquisa 6

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  • CORADESQUI, Glauber. Canteiro de obras: notas sobre o teatro candango. Brasília: Filhos do Beco, 2012.
  • NEIVA, Ivany Câmara. Memórias de uma folia real - arte e vida do saltimbanco Pára-Raios. Versão anterior do artigo Esquecer nosso passado é qu' eu nunca consegui: lembrando Ary Pára-Raios. Labirinto. Revista Eletrônica do Centro de Estudos do Imaginário. Universidade Federal de Rondônia. Ano III n. 5. jan.-dez. 2003. Disponível em: <http://seer.bce.unb.br/index.php/emtempos/article/download/2656/2204>. Acessado em: 20 jun. 2013.
  • OLIVEIRA, Maira de. <http://esquadraodavida.wordpress.com/2010/06/02/depoimento-maira-oliveira/>. Publicado em: 2 jun. 2010. Acessado em: 15 jun. 2013.
  • OLIVEIRA, Maíra de. Acervo pessoal. Catálogo da exposição Viva o Esquadrão da Vida. Curadoria Marília Panitz, 2008.
  • PÁRA-RAIOS, Ary. Esquadrão da Vida - 23 anos fazendo palhaçada; Ary Pára-Ráios, um Esquadrão de Vida!. In Histórias do teatro brasiliense. Fernando Pinheiro Villar e Eliezer Faleiros de Carvalho (org.). Brasília: UnB, IdA, Artes Cênicas, 2004.
  • TENENBLAT, Nitza. Entrevista com Maíra Oliveira em 24 set. 2013.

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