Artigo da seção grupos Teatro Experimental (TE)

Teatro Experimental (TE)

Artigo da seção grupos
Teatro  
Data de criação da obra Teatro Experimental (TE): 1956 Local de crição: (Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte) | Data de término 1998 Local de término: (Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte)

Histórico
Fundado por Carlos Kroeber, Jota Dangelo e João Marschner, o Teatro Experimental exerce grande influência no panorama teatral de Belo Horizonte, de 1959 até meados dos anos 1960, ao encenar textos de autores da vanguarda europeia e norte-americana. A partir de 1966, assume posição de resistência à ditadura militar e de valorização das tradições culturais e políticas de Minas Gerais.

O Teatro Experimental (TE) realiza espetáculos para o público infantil, a fim de obter recursos para produzir peças de caráter experimental, particularmente de autores da vanguarda europeia, como Fim de Jogo, de Samuel Beckett - primeira encenação desse texto no Brasil, com tradução de João Marschner -; A Cantora Careca, de Eugène Ionesco; e Pic-Nic no Front, de Fernando Arrabal.

Carlos Kroeber e Jota Dangelo revezam-se na direção e assistência de direção, e João Marschner concentra-se na tradução de textos e na criação de cenários e figurinos. Os três são atores em quase todos os espetáculos. Do grupo também fazem parte, entre outros, os atores Donato Donati, Ezequiel Neves, Heloisa Bernardes, José Aurélio Vieira, Mamélia Dornelles, Neuza Rocha, Rodrigo Santiago, Sílvio Castanheira e Terezinha Pereira.

Marco Antônio Menezes assume a direção do TE, entre 1961 e 1965, e mantém a linha vanguardista do grupo. Monta, em 1962, A Voz da Chuva, de Tennessee Williams, e Cena a Quatro, de Eugène Ionesco; em 1965, O Escurial, de Michel de Ghelderode, A História do Zoológico, de Edward Albee, e Atos sem Palavras I e II, de Samuel Beckett - primeira montagem brasileira. Jota Dangelo volta à direção, em 1965, com o espetáculo para o público infantil Bolota contra o Bruxo, de Jonas Bloch, ator formado no Teatro Universitário e o principal parceiro de Dangelo, até 1969. Jonas Bloch dirige sua primeira peça no TE, Halewin, de Ghelderode, em 1966.

Ainda em 1966, aderindo às inovações do teatro brasileiro, que se anunciam desde o fim da década de 1950, cujo marco é a montagem pelo Teatro de Arena de São Paulo de Eles Não Usam Black-Tie, em 1958, o TE assume o clima de politização e abrasileiramento do palco nacional, que se manifesta não só na dramaturgia, mas também na busca de uma forma brasileira de encenar e atuar. O que se intensifica ainda mais depois do golpe militar de 1964.

A montagem que marca essa transição é O Homem e Seu Grito, roteiro de Bloch e Dangelo, que, juntos, atuam e assinam a direção do espetáculo, concebido para comemorar os dez anos da morte de Bertolt Brecht. Essa opção por si só demonstra o novo posicionamento do grupo. O primeiro ato é uma coletânea de poemas e textos curtos de Brecht, acrescida de trechos do depoimento desse autor na Comissão do Congresso dos Estados Unidos que investiga atividades antiamericanas. O segundo ato é uma condensação de A Alma Boa de Set-Suan, de Brecht.

Entretanto, a peça que marca definitivamente a mudança do TE é Oh! Oh! Oh! Minas Gerais, de 1967, texto e direção de Bloch e Dangelo, que também integram o elenco. É uma colagem de textos e cenas despojadas, no formato que o Teatro de Arena implanta em Arena Conta Zumbi e Arena Conta Tiradentes. Os cenários e figurinos são de Napoleão Moniz Freire e a coreografia de Klauss Vianna. O espetáculo viaja por Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo e interior de Minas Gerais. Em março de 1968, o crítico Décio de Almeida Prado escreve: "Oh!, Oh!, Oh! Minas Gerais talvez represente para Belo Horizonte o que Vestido de Noiva e os primeiros espetáculos do TBC significaram respectivamente para Rio e São Paulo na década de 1940: o primeiro passo para a maturidade profissional, o instante do despertar do público, o momento histórico do take off".1

Com Oh! Oh! Oh!... o TE ganha dinheiro e vislumbra a possibilidade de realizar um grande espetáculo para viajar pelo Brasil e profissionalizar-se. Em 1968, o grupo convida um diretor de fora de Minas Gerais, Amir Haddad, que traz consigo o cenógrafo Joel de Carvalho. A peça escolhida é Numância, de Miguel de Cervantes, que nessa montagem recebe o subtítulo Ou Ficar a Pátria Livre... No espetáculo, o cerco dos romanos à cidade Numância é metaforizado no confronto entre o movimento estudantil brasileiro e as forças da repressão da ditadura. O cenário de Joel de Carvalho eleva-se sobre um palco giratório que exige alto investimento. Em novembro a peça estreia em Belo Horizonte com sucesso e já com temporadas marcadas em várias capitais brasileiras para o ano seguinte. Entretanto, como consequência do Ato Institucional nº 5 (AI-5), a peça é integralmente censurada e proibida de ser apresentada em todo o território nacional, dificultando a profissionalização do TE. Jonas Bloch muda-se para o Rio de Janeiro e Carlos Alberto Ratton, que acompanha a montagem de Numância, agrega-se ao grupo.

Em 1969, com produção do TE, Ratton dirige Procura-se uma Rosa, de Glaucio Gill. A peça marca a entrada no grupo do arquiteto, cenógrafo e figurinista Raul Belém, que assina seu primeiro cenário e daí em diante acompanha Dangelo em praticamente todas as montagens. Nesse mesmo ano, inspirados nas propostas de Jerzy Grotowski, Dangelo e Ratton escrevem Futebol, Alegria do Povo. Pela primeira vez, o grupo abandona o palco italiano e experimenta espaços não convencionais. O espaço alternativo, no formato arena, é utilizado também em 1970 na peça escrita e dirigida por José Antônio de Souza, O Fedor.

Ainda em 1970 vem a público o primeiro espetáculo de som e luz produzido no Brasil, Inconfidência na Praça, montado em Ouro Preto por ocasião do feriado de 21 de abril. O cenário de Raul Belém ocupa todo o espaço da Praça Tiradentes, os figurinos são de Joel de Carvalho e a voz de Paulo Autran narra o texto de Dangelo. Esse tipo de espetáculo, feito em espaços abertos e com falas gravadas, é realizado por ocasião da Semana Santa ou no 21 de abril, nas cidades mineiras de Belo Horizonte, Ouro Preto, São João del Rey e Tiradentes, sempre com texto, direção e iluminação de Jota Dangelo, e cenários e figurinos de Raul Belém. A vida de Cristo e de Tiradentes são pretextos para denunciar o clima de opressão, tortura e delação em que vive o país e servem de tema para os espetáculos Uma Certa Sexta-Feira, 1972, O Encontro na Praça, 1974, O Encontro na Sexta-Feira, 1976, De Corpo Presente, 1977, O Aleijadinho de Vila Rica, 1977, O Caminho do Calvário, 1978, e O Julgamento na Praça, 1980.

Com a mesma intenção de denúncia e resistência, o TE encena Frei Caneca, de Carlos Queiroz Telles, em 1972, com alusões à guerrilha revolucionária; O Interrogatório, de Peter Weiss, 1973; e A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, 1973, textos escolhidos pelas críticas ao autoritarismo.

Afastado da linha experimental, o TE, em 1974, passa a se chamar O Grupo. Nesse momento, outros atores e atrizes já estão incorporados à companhia, destacando-se Helvécio Ferreira, José Maria Amorim, Pedro Paulo Cava, João Bosco Alves, Eduardo Rodrigues, Arildo de Barros, Sônia Valadares, Lígia Lira, Maria Olívia, Regina Reis e Eliane Maris.

Entre 1974 e 1989, O Grupo monta 17 peças, algumas destinadas ao público infantil. Destacam-se Pelos Caminhos de Minas, 1975, que dá continuidade à pesquisa sobre a cultura mineira; Os Riscos da Fala, 1979, experiência de tratamento dramático de textos de 21 poetas mineiros; Qualé Brasil, 1980; depoimento pessoal de Dangelo sobre a repressão política; e Noel, o Feitiço da Vila, 1988, musical sobre a vida do compositor carioca Noel Rosa, interpretado por Beré Lucas, que chama atenção pela semelhança física com o personagem. As três primeiras são selecionadas para o Projeto Mambembão, promovido inicialmente pelo Serviço Nacional de Teatro (SNT) e, a partir de 1979, pelo Instituto Nacional das Artes Cênicas (Inacen), que possibilita aos grupos de vários estados brasileiros viajar para Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo com peças representativas da diversidade cultural do país. Noel também viaja por essas praças, alcançando sucesso de público e crítica.

Em 1990, o casal Jota Dangelo e Mamélia Dornelles, que se mantém na liderança do grupo durante toda a sua trajetória, aluga um local para ser a sede da companhia. Esse espaço é denominado Casa de Cultura Oswaldo França Júnior, em homenagem ao escritor mineiro, nome que também é adotado pelo grupo. Entre 1990 e 1998, quando encerra suas atividades, são montados 21 espetáculos. Destacam-se A Conjuração, 1990, fusão de música, texto e encenação sobre a Inconfidência Mineira, com músicas originais de Tavinho Moura, Robertinho Brant e Fernando Brant; Ri Melhor Quem Ri Primeiro, 1992, comédia sobre os sobressaltos cotidianos da vida urbana; Contos Contidos, 1990, e A Mulher Iluminada, 1992, que abordam a questão feminina. Entre as peças destinadas ao público infantil, dirigidas por Mamélia Dornelles, estão a remontagem de Pluft, o Fantasminha, 1991; a adaptação do livro de Neuza Sorrenti O Menino Léo e o Poeta Noel; e a adaptação para o teatro dos livros de Ângelo Machado, com temas ecológicos: O Menino e o Rio, 1992; O Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Guará, 1994; e O Casamento da Ararinha Azul, 1995. Várias dessas montagens contam com a presença do ator José Geraldo Peninha, parceiro de Dangelo, Mamélia Dornelles e José Maria Amorim nessa fase do grupo.

Em suas três fases, contadas a partir de 1959, o Teatro Experimental realiza 72 espetáculos, com 11 diretores, 12 cenógrafos, 15 figurinistas, 127 técnicos e 276 atores, volume que demonstra a forte presença do grupo no teatro mineiro.

Fases
1956-1973 - Belo Horizonte MG - Teatro Experimental
1974-1988 - Belo Horizonte MG - O Grupo
1990-1998 - Belo Horizonte MG - Casa de Cultura Oswaldo França Jr.

 

Notas
1. 45 ANOS DE TEATRO EM 3 ATOS DE PAIXÃO. Programa de exposição realizada na Fundação Clóvis Salgado (Palácio das Artes). Curadoria de Jota Dangelo; pesquisa de Mamélia Dornelles; design da exposição de Flávio Vignoli. Belo Horizonte, Fundação Clóvis Salgado, s.d.

 

Outras informações do grupo Teatro Experimental (TE):

  • Outros nomes
    • Casa de Cultura Oswaldo França Jr.
    • O Grupo
    • Teatro Experimental (Belo Horizonte, MG)
  • Relações com outros artigos da enciclopédia:

Espetáculos (3)

Fontes de pesquisa (3)

  • 45 ANOS DE TEATRO EM 3 ATOS DE PAIXÃO. Programa de Exposição realizada na Fundação Clóvis Salgado (Palácio das Artes). Curadoria de Jota Dangelo; Pesquisa de Mamélia Dornelles; Design Gráfico da Exposição de Flávio Vignoli. Belo Horizonte: Fundação Clóvis Salgado, s.d.
  • DANGELO, J. G. José Geraldo Dangelo. Depoimento. Entrevistador: Bernardo Novais da Mata Machado. Belo Horizonte: Secretaria Municipal de Cultura, 1996, 12 fitas. (entrevista concedida ao projeto História do Teatro Marília).
  • OH! OH! OH! Minas Gerais, 1967. Programa do Espetáculo. Disponível em: <http://www.klaussvianna.art.br/Arquivos/232/681117-BH-ILU-PRO1-6.pdf>. Acesso em: 28 ago. 2018.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • TEATRO Experimental (TE). In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo518675/teatro-experimental-te>. Acesso em: 09 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7