Artigo da seção grupos Companhia de Encenação Teatral

Companhia de Encenação Teatral

Artigo da seção grupos
Teatro  

Histórico

A Companhia de Encenação Teatral, dirigida por Moacyr Góes, empreende, de 1988 a 1993, uma pesquisa baseada nos princípios cênicos de Meyerhold, Craig e Kantor, ligada à tendência formalista dos anos 80.

A companhia é fundada por Moacyr Góes e Beti Rabetti, a partir da conquista de uma sede para ensaios, estudo teórico, pesquisa corporal e apresentações, em uma sala nos fundos do Teatro Villa-Lobos, inaugurada como Espaço III. A estréia de Baal, de Bertolt Brecht, 1988, evidencia uma linguagem construída por meio da expressão física do ator e da plasticidade. Colocada no centro da sala, em cadeiras giratórias, a platéia é circundada por quatro palcos. A crítica Sheila Kaplan, do jornal O Globo, escreve:

"Embora os 15 atores que compõem o elenco estejam permanentemente em cena, o olhar do espectador é guiado pelas falas das personagens e pela iluminação. E quando isso não acontece, quando o olhar se perde, seduzido pelo impacto visual, perde também o espetáculo, sufocado pela força de suas próprias imagens".1

Definindo a linguagem como "um confronto entre o poético e a ferocidade", o crítico Macksen Luiz destaca a composição épica do ator Leon Góes, que conduz a narrativa com "perfeito domínio corporal (...), manuseio da voz e completo entendimento da sua função cênica".2

No segundo espetáculo, A Trágica História do Dr. Fausto, de Christopher Marlowe, 1989, a companhia amplia a disposição espacial: a ação ocupa também o centro da sala, e a cenografia de José Dias envolve os espectadores por rampas metálicas. A Escola de Bufões, de Michel de Ghelderode, encenado em 1990, leva ao paroxismo a justaposição entre uma complexa dramaturgia e uma linguagem de múltiplos signos visuais e intensa atividade corporal. A fragmentação imposta à fala dos atores impede a fluência da narrativa, ao mesmo tempo que o aprimorado treinamento físico do elenco, a exuberância dos figurinos de Samuel Abrantes e a eloqüência das composições musicais de Mário Vaz de Mello resultam em forte plasticidade cênica. Em Os Gigantes da Montanha, de Luigi Pirandello, 1991, ainda que mantendo a simultaneidade de ações e expressão física dos personagens, a direção se concentra mais na palavra. Alguns integrantes se desligam da companhia e são substituídos por novos atores, tais como Maria Luiza Mendonça. É o último trabalho produzido com o patrocínio da Shell. O espetáculo seguinte é realizado no Centro Cultural Banco do Brasil. Romeu e Julieta, de William Shakespeare, 1993, tem atores convidados - alguns consagrados, como Cláudio Mamberti e Thelma Reston. No mesmo ano, de volta ao Espaço III, estréia Epifanias, adaptação de O Sonho, de August Strindberg, último trabalho da companhia. Sua dissolução está ligada tanto à perda da sede, temporariamente cedida pelo governo do Estado, quanto à de seu patrocinador. O diretor passa a realizar espetáculos avulsos com atores de mercado.

Entre os integrantes da companhia destacam-se os atores Leon Góes, Maurício Marques, Floriano Peixoto, Claudia Lira, Paula Newlands, Paulo Vespúcio, entre outros.

A pesquisadora Tania Brandão analisa a dualidade da linguagem de Moacyr Góes à frente da Companhia de Encenação Teatral:

"Apesar de explorar exaustivamente a expressão do corpo, a intensidade física do ator, o diretor não consegue se distanciar do teatro retórico convencional e tem escolhido sempre, para encenar, textos que mantêm uma distância intransponível com relação aos temas práticos com que ele próprio trabalha [os espetáculos da companhia] têm em comum um abismo vertiginoso, exatamente a tentativa de encenar textos densos enquanto poética da palavra a partir de uma concepção de cena em que o mais importante é a densidade e a intensidade da presença física".3

Notas

1. KAPLAN, Sheila. O niilismo do poeta amoral. O Globo, Rio de Janeiro,  07 nov. 1988.

2. LUIZ, Macksen. Prazer da dor. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 05 nov. 1988. Caderno B.

3. BRANDÃO, Tânia. Visionários ou alienados. Revista USP, São Paulo, n. 14, p. 31, jun./ago. 1992.

Outras informações do grupo Companhia de Encenação Teatral:

  • Outros nomes
    • CET
  • Relações com outros artigos da enciclopédia:

Espetáculos (7)

Fontes de pesquisa (4)

  • ALBUQUERQUE, Johana. Moacyr Góes (ficha curricular) In: _________. ENCICLOPÉDIA do Teatro Brasileiro Contemporâneo. Material elaborado em projeto de pesquisa para a Fundação VITAE. São Paulo, 2000.
  • BRANDÃO, Tania. Visionários ou alienados. Revista USP, São Paulo, n. 14, p. 31, jun./ago. 1992.
  • GÓES, Moacyr. Rio de Janeiro: Funarte / Cedoc. Dossiê Personalidades Artes Cênicas.
  • REVISTA USP. São Paulo: Coordenadoria de Comunicação Social / USP, n. 14, jun./ago. 1992. Dossiê Teatro.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • COMPANHIA de Encenação Teatral. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo399385/companhia-de-encenacao-teatral>. Acesso em: 07 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7