Artigo da seção grupos Odeon Companhia Teatral

Odeon Companhia Teatral

Artigo da seção grupos
Teatro  

Data/Local
1998 -  Belo Horizonte MG

Histórico
A Odeon Companhia Teatral é fundada pelo diretor Carlos Gradim e pela atriz Yara de Novaes, com o objetivo de desenvolver uma linguagem artística própria com foco na pesquisa sobre o espaço cênico e na sua relação com a dramaturgia e o ator. O principal tema de pesquisa são as angústias e aspirações do homem diante de sua existência, com base em um repertório de clássicos da dramaturgia e textos de autores contemporâneos.

O primeiro encontro entre os futuros integrantes da Odeon se dá na montagem do espetáculo infantil The Addams, em 1996, que revela para a cena mineira o dramaturgo Edmundo de Novaes, o ator Jorge Emil e a atriz Débora Falabella. The Addams recebe os prêmios Sesc/Sated de melhor espetáculo, melhor atriz, melhor atriz coadjuvante, melhor ator, melhor ator coadjuvante, ator revelação e melhor cenário.

Finda a temporada da montagem para o público infantil, a Odeon se organiza. Seu primeiro trabalho, a adaptação de Ricardo III, de William Shakespeare, com direção de Yara de Novaes, estreia em 1999. O espetáculo chama atenção pela força do trabalho de Emil, como protagonista, pela cenografia expressiva de Daniela Thomas e André Cortez. O crítico mineiro Marcelo Castilho Avelar escreve: "Ricardo III é daqueles espetáculos em que tudo parece estar no lugar certo sem que se torne cerebral, em que o sentimento brota da construção consciente de cada cena e não apenas de algum imprevisível e irregular rasgo de devaneio ou criatividade".1 A montagem ganha o prêmio Sesc/Sated em diversas categorias e é considerada pelo crítico João Paulo Cunha como "[...] uma das montagens mais bem-sucedidas dos últimos anos, abrindo um flanco novo para as artes cênicas do Estado".

A segunda montagem do grupo, em 2001, é o monólogo Mata Hari - Sentença para uma Aurora, do dramaturgo costa-riquenho Jorge Arroyo. A atriz paulista Thania Castello vive a legendária espiã holandesa, com direção de Carlos Gradim, que mantém a parceria com o cenógrafo e figurinista André Cortez e a iluminadora Telma Fernandes. O espetáculo recebe o prêmio Bonsucesso/Amparc na categoria melhor iluminação.

No mesmo ano, a companhia estreia Amor e Restos Humanos, texto do dramaturgo canadense Brad Fraser, que trata de temas da contemporaneidade, como drogas, aids, a busca do prazer, a violência e a solidão nos grandes centros urbanos. Nessa montagem, a Odeon abandona os textos e espaços convencionais e propõe como espaço cênico uma gaiola de ferro. O público se acomoda em arquibancadas que variam de 2 a 5 metros de altura, e observa as cenas, às vezes simultâneas, de diferentes ângulos. O cenário transforma a relação tradicional entre palco e plateia e tira proveito da estrutura cinematográfica do texto. O crítico Paulo Campos ressalta a proposta cenográfica, um dos pontos fortes do espetáculo e tema de pesquisa da companhia: "[...] André Cortez elabora um cenário instigante, uma gaiola por onde sobem e descem os personagens, obrigando o espectador, como um voyeur, a se esgueirar para ver toda a cena, e Telma Fernandes faz uma iluminação das mais perfeitas do teatro mineiro".3 Amor e Restos Humanos recebe o prêmio Sesc/Sated 2002 em diversas categorias.

Em 2003, a Odeon assina a coprodução do espetáculo Noites Brancas, adaptado do clássico de Fiodor Dostoievski, com direção de Yara de Novaes. No texto, um Dostoievski romântico conta uma história de amor e solidão com base no encontro entre a jovem Nástenka, entediada pela vida ao lado da avó cega e da criada surda, e um homem solitário e sonhador, que procura, com dificuldade, se relacionar com alguém. A cenografia recria, com passarelas, a ponte sobre a qual os personagens se encontram, propondo uma movimentação que multiplica os planos de atuação.

Ainda em 2003, a  companhia aprofunda a pesquisa sobre o espaço cênico em sua relação com a interpretação e a dramaturgia, na montagem de O Coordenador, do dramaturgo chileno Benjamin Galemiri. O texto aborda a questão do poder por meio da relação de manipulação e dominação que se estabelece entre quatro pessoas confinadas em um elevador. A violência cresce ao longo da peça e culmina na agressão física contra a mulher. A cenografia de Cortez propõe um espaço limitado que faz alusão ao elevador e traduz para o público a sensação do confinamento e utiliza grandes molas que, acionadas pelos atores, movem o quadrado cênico, criando uma sensação de desequilíbrio e insegurança. Sobre o espetáculo, a crítica Clara Arreguy afirma: "O resultado é um espetáculo tão forte que chega a ser pesado, mas nem por isso menos importante no panorama teatral, carente de trabalhos com tal poder de reflexão".4 O espetáculo tem uma bem-sucedida temporada em São Paulo.

O sexto espetáculo da companhia é A Falecida, de Nelson Rodrigues, que conta a história da tuberculosa Zulmira, moradora do subúrbio carioca e cuja única ambição é ter um enterro de luxo. A direção procura encontrar um tom que traduza as dimensões de tragédia e de cotidianidade presentes no texto. Sobre a leitura que o diretor Carlos Gradim faz da peça, Clara Arreguy escreve: "[...] explora com vigor os paroxismos de crueldade e desencanto no ser humano que o maior dramaturgo do moderno teatro brasileiro preconizava".5

A Odeon Companhia Teatral inaugura a sede própria em 2005, estruturada como Centro de Diversidade Artística, onde passa a desenvolver suas criações e outros projetos culturais, voltados para a formação e o compartilhamento de experiências entre técnicos, artistas e outros profissionais. E são promovidos eventos regulares como a Sexta Trash e o Odeon Café e Companhia, espaço para debates sobre temas como dramaturgia contemporânea, direito autoral, entre outros.

A montagem seguinte, Quando Você Não Está no Céu, texto de Edmundo de Novaes, criado ao longo do processo de ensaios, e inspirado em Dante Alighieri e Guimarães Rosa, aborda medos, loucuras, a relação com o corpo, as frustrações e angústias humanas. E pretende ser uma viagem pelos infernos contemporâneos, que, na leitura da companhia, são lugares onde convivem o sagrado e o profano, habitados por prostitutas, santas nuas, criaturas que devoram bebês, paralíticas que cantam Domenic Modugno e um homem que acumula lixo. Participa dessa montagem, a convite do grupo, a atriz Wilma Henriques, um dos ícones do teatro mineiro, com mais de 40 anos de atividade artística.

Em 2007, a companhia cria um espetáculo baseado no romance Servidão Humana, de Somerset Maugham, publicado pela primeira vez em 1915. Conta a história do órfão Philip, deficiente físico e aspirante a pintor que se sujeita a toda sorte de humilhações ao apaixonar-se por uma garçonete, perdendo a fortuna e a dignidade. A adaptação de Novaes, intitulada apenas Servidão, coloca quatro personagens em cena. Nesse espetáculo a Odeon traz para o público uma história densa que apresenta nuances da alma e a complexidade dos conflitos humanos.

A produção de dois curtas-metragens, Every Day - Todos os Dias São Iguais, de 2001, e Bárbara, de 2006, marca a incursão da Odeon no campo do audiovisual.
Desde sua criação, em 1998, a Odeon Companhia Teatral tem se destacado particularmente no cenário teatral de Minas Gerais, mas também no cenário nacional, acumulando prêmios por todas as suas montagens e revelando atores, diretores e dramaturgos.

Notas
1. AVELAR, Marcelo Castilho. Um Shakespeare Vigoroso. Estado de Minas, Belo Horizonte.

2. CUNHA, João Paulo. Nos bastidores do mal. Estado de Minas, Belo Horizonte, 6 de jan. 2001.

3. CAMPOS, Paulo. Diretor focaliza desejos urbanos. O Tempo, Belo Horizonte, 17 de jan. 2002. Magazine.

4. ARREGUY, Clara. Poder que leva à violência. Estado de Minas, Belo Horizonte, 2 de out. 2003. Cultura.

5. ARREGUY, Clara. O inferno é aqui. Estado de Minas, Belo Horizonte, p. 13, 21 de mai. 2004.

Outras informações do grupo Odeon Companhia Teatral:

  • Outros nomes
    • Cia. Odeon (Belo Horizonte, MG)
    • Companhia Odeon
    • Odeon
    • Odeon Companhia Teatral

Espetáculos (9)

Eventos relacionados (1)

Fontes de pesquisa (7)

  • ARREGUY, Clara. O inferno é aqui. Estado de Minas, Belo Horizonte, p. 13, 21 de mai. 2004.
  • ARREGUY, Clara. Poder que leva à violência. Estado de Minas, Belo Horizonte, 2 de out. 2003. Cultura.
  • AVELAR, Marcelo Castilho. Um Shakespeare Vigoroso. Estado de Minas, Belo Horizonte.
  • CAMPOS, Paulo. Diretor focaliza desejos urbanos. O Tempo, Belo Horizonte, 17 de jan. 2002. Magazine.
  • CUNHA, João Paulo. Nos bastidores do mal. Estado de Minas, Belo Horizonte, 6 de jan. 2001.
  • FESTIVAL Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte - FIT-BH. Site oficial do festival. Releases. Disponível em: [http://www.pbh.gov.br/cultura/fitbh/materiais/releases]. Acesso em: dez. 2008.
  • ODEON Companhia Teatral. Site oficial do grupo. Disponível em: [http://www.odeoncompanhiateatral.com.br]. Acesso em: dez. 2008.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ODEON Companhia Teatral. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo348051/odeon-companhia-teatral>. Acesso em: 06 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7