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Teatro Oficina Uzyna Uzona

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 09.09.2021
1958 Brasil / São Paulo / São Paulo
Influente e importante companhia desde os anos 1960, o Teatro Oficina transforma-se em grupo na década de 1970, tendo como esteio a figura do encenador José Celso Martinez Corrêa (1937). O Oficina incorpora, paulatinamente, as mais significativas transformações do teatro mundial, sempre em posição de vanguarda na cena brasileira.

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Influente e importante companhia desde os anos 1960, o Teatro Oficina transforma-se em grupo na década de 1970, tendo como esteio a figura do encenador José Celso Martinez Corrêa (1937). O Oficina incorpora, paulatinamente, as mais significativas transformações do teatro mundial, sempre em posição de vanguarda na cena brasileira.

Em 1958, nasce no Centro Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, o movimento a oficina, com a intenção de fazer um novo teatro, distante da perspectiva europeia do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e do nacionalismo do Teatro de Arena. Em 1961, alugam a sede do Teatro Novos Comediantes e são criadas a companhia profissional e a sala de espetáculos, e, entre seus fundadores estão Zé Celso, Renato Borghi (1937), Ítala Nandi (1942) e Etty Fraser (1931-2018).

Pequenos Burgueses, do dramaturgo russo Máximo Gorki (1868-1936), estreia em 1963, e, no ano seguinte, com o golpe civil-militar, a peça sofre censura e é obrigada a cortar parte do texto que traz o hino da Internacional Comunista1. A montagem é realista e tem como ponto forte as interpretações baseadas nas técnicas do diretor russo Stanislavski (1863-1938). Posteriormente, Zé Celso radicaliza sua pesquisa artística, voltando-se para o pensamento do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956).

Em 1966, o prédio da companhia é destruído por um incêndio provocado por grupos paramilitares. São feitas remontagens de antigos sucessos, para levantar fundos e reconstruir o teatro.

Em 1967, com O Rei da Vela, de Oswald de Andrade (1890-1954), o Oficina alcança grande notoriedade, sendo um dos pioneiros da Tropicália e conquistando posição de destaque e referência na cultura brasileira. Levado à Europa, o espetáculo torna o grupo internacionalmente conhecido. No ano seguinte, o musical Roda Viva também marca a história do Oficina em um encontro entre linguagem teatral e performance. O grupo traz uma encenação carregada de crítica social e possibilidades de subverter as práticas do palco e enfrentar as instituições políticas repressivas da época.

As montagens de Galileu Galilei (1968) e Na Selva das Cidades (1969), ambas de Brecht, são consideradas recriações brasileiras perfeitas do universo do auto2. A arquitetura cênica e a perspectiva urbana são pensadas pela arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992) em parceria com o também arquiteto Edson Elito (1948). Na peça, escombros da construção do Elevado Costa e Silva, que corta a rua onde está o Oficina, são levados para dentro do teatro, no espaço cênico em forma de ringue.

Com equipe nova e sob a liderança de Zé Celso e Borghi, lança-se, em 1971, uma excursão pelo Brasil, denominada "Saldo para o Salto", que consiste na remontagem de alguns antigos sucessos, em que novas experiências cênicas são empreendidas.

Os frutos desses novos rumos se materializam com Gracias, Señor (1972). Obra de criação coletiva, propõe a radicalização da linguagem com contornos vivenciais, que são aprofundados na encenação seguinte, uma recriação autobiográfica de As Três Irmãs (1972), do dramaturgo russo Anton Tchekhov (1860-1904).

Após um duro período de exílio de Zé Celso em Portugal, entre os anos de 1974 e 1979, o grupo passa a ministrar oficinas, realiza leituras e eventos de curta duração, além de aprofundar pesquisas cênicas e arquitetônicas fundamentais para mudanças posteriores no grupo. Em 1984, o Teatro estabelece novo estatuto e passa a se chamar Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona, além disso, Lina e Edson dão início às obras no projeto arquitetônico, finalizado em 1994, inaugurando o espaço denominado pelo grupo de Terreiro Eletrônico.

Em 1991, Zé Celso retorna à cena em As Boas, do dramaturgo francês Jean Genet (1910-1986), atuando ao lado de Raul Cortez (1932-2006) e Marcelo Drummond (1962), seu parceiro de trabalho que passa a compartilhar a gestão da nova fase do grupo.

Com esses redimensionamentos, o grupo envolve-se com a produção de espetáculos, vídeos e filmes. Nessa fase, a autoria das realizações é basicamente coletiva, mas sempre liderados por Zé Celso. As encenações de As Bacantes (1996), adaptação coletiva do texto de Eurípides, e a criação autoral do grupo, Cacilda! (1998)3, do próprio Zé Celso, seguem a proposta de releitura dos textos originais, em benefício da incorporação de material autobiográfico, dos integrantes ou do próprio Oficina, a partir do momento político e social do país, em um movimento denominado pelo grupo de Antropofagia Orgiástica ou uma Tragicomédiaorgya.

A montagem na íntegra da obra Os Sertões (2002-2006)4, do escritor Euclides da Cunha (1866-1906), é dirigida por Zé Celso com assistência de direção da atriz Camila Mota (1974), que passa também a gerir a companhia. O trabalho incorpora grande número de artistas em sua construção, em um processo chamado pelo grupo de orgiástico coletivo. Considerado uma das obras-primas do grupo, Os Sertões é composto de cinco longos espetáculos que marcam um novo momento, incluindo uma grande turnê nacional.

Analisando a trajetória do Oficina, a crítica Mariangela Alves de Lima (1947) indica que o grupo passa da mediação com um público já cativo para a integração com a cidade e outras experiências cênicas, que muitas vezes gera estranheza no espectador, mas promove novas sensações e níveis de participação.

A adaptação de textos tradicionais à realidade do momento histórico do grupo é uma de suas principais características. Mesmo em textos da própria companhia, a atualização é um exercício constante. Em 2017, o grupo remonta O Rei da Vela, trazendo Borghi, aos 80 anos, novamente ao papel do protagonista Abelardo 1º.

A peça se mantém fiel à montagem original, mas amplia a crítica política para as referências da nova época. Em 2019, Roda Viva também é remontada, mantendo a crítica política e cultural à luz dos novos tempos.

Guiado pela figura inovadora e subversiva de Zé Celso, o Teatro Oficina se consolida na história do teatro brasileiro como um espaço de experimentação cênica, cultura e crítica política e social.

Notas

1. A Internacional Comunista foi uma organização fundada pelo político russo Vladimir Lênin (1870-1924) e pelo Partido Comunista da União Soviética (PCUS) para reunir os partidos ligados ao comunismo de todo o mundo.
2. Considerada uma das formas mais populares do teatro medieval, o auto é composto de um ato único que transita entre o religioso e o profano, com personagens que alegorizam virtudes e pecados.
3. Cacilda é uma série de espetáculos, denominados de acordo com o número de exclamações do título Cacilda!; Cacilda!!; Cacilda!!!; Cacilda!!!! e Cacilda!!!!!.
4. O projeto é dividido em cinco espetáculos: A Terra, O Homem I, O Homem II, A Luta I e A Luta II e cada espetáculo tem cerca de 5 horas de duração.

Espetáculos 55

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Fontes de pesquisa 10

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  • BRANDÃO, Tania. Oficina: o trabalho da crise. In: MONOGRAFIAS 1979. Rio de Janeiro: Inacen, 1979. p. 11-62.
  • CORRÊA, José Celso Martinez; STAAL, Ana Helena Camargo de (Org.). Zé Celso Martinez Corrêa: primeiro ato: cadernos, depoimentos, entrevistas 1958-1974. São Paulo: Editora 34, 1998.
  • DYONISOS. Rio de Janeiro, n. 26, 1982. Número especial sobre Teatro Oficina. Organização Fernando Peixoto.
  • LIMA, Mariangela Alves de. Eu sou índio. In: O NACIONAL e o popular na cultura brasileira: seminários - teatro. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 163-171.
  • MOSTAÇO, Edelcio. Teatro e política: Arena, Oficina e Opinião. São Paulo: Proposta, 1982.
  • NANDI, Ítala. Oficina: onde a arte não dormia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. 161 p.
  • O QUE é um auto teatral? SP Escola de Teatro. 21 dez. 2020. Disponível em: https://www.spescoladeteatro.org.br/noticia/o-que-e-um-auto-teatral. Acesso em: 26 maio 2021.
  • SANTOS, Valmir. Oficina Uzyna Uzona. Enciclopédia Latino-americana. Disponível em: http://latinoamericana.wiki.br/verbetes/o/oficina-uzyna-uzona. Acesso em: 4 maio 2021.
  • SILVA, Armando Sérgio. Oficina: do teatro ao te-ato. São Paulo: Perspectiva: 1982.
  • TEATRO Oficina. Disponível em: [http://www.uol.com.br/teatroficina/]. Acesso em: 21/05/2008.

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