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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Semana de Arte Moderna

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.01.2021
13.02.1922 - 17.02.1922 Brasil / São Paulo / São Paulo – Theatro Municipal de São Paulo
Reprodução Fotográfica Romulo Fialdini

Capa do programa da Semana de Arte Moderna de 22, autoria de Di Cavalcanti
Di Cavalcanti
Acervo do Instituto de Estudos Brasileiros - USP - Arquivo Mário de Andrade

A Semana de Arte Moderna apresenta-se como a primeira manifestação coletiva pública na história cultural brasileira a favor de um espírito novo e moderno em oposição à cultura e à arte de teor conservador, predominantes no país desde o século XIX.

Texto

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A Semana de Arte Moderna apresenta-se como a primeira manifestação coletiva pública na história cultural brasileira a favor de um espírito novo e moderno em oposição à cultura e à arte de teor conservador, predominantes no país desde o século XIX.

Inserida nas festividades em comemoração ao Centenário da Independência do Brasil em 1922, entre os dias 13 e 17 de fevereiro, realiza-se no Teatro Municipal de São Paulo um festival que inclui exposição com cerca de 100 obras, aberta diariamente no saguão do teatro, e três sessões lítero-musicais noturnas.1

Entre os pintores participam Anita Malfatti (1889-1964), Di Cavalcanti (1897-1976), Ferrignac (1892-1958), John Graz (1891-1980), Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), Zina Aita (1900-1967), Yan de Almeida Prado (1898-1987) e Antônio Paim Vieira (1895-1988), com dois trabalhos feitos a quatro mãos. No campo da escultura, estão presentes Victor Brecheret (1894-1955), Wilhelm Haarberg (1891-1986) e Hildegardo Velloso (1899-1966). 

A arquitetura vem representada pelo espanhol Antônio Garcia Moya (1891-1949) e pelo polonês Georg Przyrembel (1885-1956). Entre os literatos e poetas, participam Graça Aranha (1868-1931), Guilherme de Almeida (1890-1969), Mário de Andrade (1893-1945), Menotti Del Picchia (1892-1988), Oswald de Andrade (1890-1954), Renato de Almeida, Ronald de Carvalho (1893-1935), Tácito de Almeida (1889-1940), além de Manuel Bandeira (1884-1968), com a leitura do poema “Os Sapos”. A programação musical traz composições de Villa-Lobos (1887-1959) e do francês Debussy (1862-1918), interpretadas pela pianista Guiomar Novaes (1894-1979) e por Ernani Braga (1888-1948). 

As discussões em torno da necessidade de renovação das artes surgem em meados dos anos 1910, em textos de revistas e exposições, como a Exposição de Arte Moderna (1917), de Anita Malfatti. Em 1921, a intenção de transformar as comemorações do Centenário em momento de emancipação artística já se manifesta entre intelectuais como Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia. 

No entanto, é no salão do mecenas Paulo Prado (1869-1943), em fins do mesmo ano, que toma forma a ideia de um festival com duração de uma semana, trazendo manifestações artísticas diversas, inspirado na Semaine de Fêtes de Deauville, França. O projeto sai do papel graças ao empenho desse mecenas. Paulo Prado, homem influente e de prestígio na sociedade paulistana, consegue que outros barões do café e nomes de peso patrocinem o aluguel do teatro mediante doações para a realização do evento. Também é fundamental sua influência na adesão de Graça Aranha à causa dos artistas "revolucionários". Recém-chegado da Europa como romancista aclamado, a presença de Aranha serve estrategicamente para legitimar a seriedade das reivindicações do jovem e pouco conhecido grupo modernista.

Sem programa estético definido, a Semana desempenha na história da arte brasileira muito mais uma etapa destrutiva de rejeição ao conservadorismo vigente na produção literária, musical e visual, do que um acontecimento construtivo de propostas e criação de novas linguagens. Se existe um elo entre seus tão diversos artífices, este se constitui, segundo seus dois ideólogos principais, Mário e Oswald de Andrade, como a negação de todo e qualquer "passadismo": a recusa à literatura e à arte importadas com os traços de uma civilização cada vez mais superada, no espaço e no tempo. Em geral, todos clamam em seus discursos por liberdade de expressão e pelo fim de regras na arte. Faz-se presente também um certo ideário futurista, que exige a deposição dos temas tradicionalistas em nome da sociedade da eletricidade, da máquina e da velocidade. 

Na palestra proferida por Mário de Andrade na tarde do dia 15, posteriormente publicada como o ensaio A Escrava que Não é Isaura (1925), ocorre uma das primeiras tentativas de formulação de ideias estéticas modernas em nosso país. Nessa conferência, o autor antevê a importância de temperar o processo de importação da estética moderna com o nativismo, o movimento de voltar-se para as raízes da cultura popular brasileira. A dinâmica entre nacional e internacional torna-se a questão principal desses artistas nos anos subsequentes à Semana.

Com respeito à elaboração e à apresentação de uma linguagem verdadeiramente moderna, a Semana de Arte Moderna de 1922 não representa um rompimento profundo na história da arte brasileira. No conjunto de qualidade irregular de obras expostas, não se identifica uma unidade de expressão, ou algo como uma estética radical do modernismo. No entanto, há de se reconhecer que, a despeito de todos os seus antagonismos, esse evento configura-se como um fato cultural fundamental para a compreensão do desenvolvimento da arte moderna no Brasil, sobretudo pelos debates públicos mobilizados (cercados por reações negativas ou de apoio) e pela riqueza de seus desdobramentos na obra de alguns de seus realizadores.

 

Nota:

1. No jornal Correio Paulistano, as datas do evento variam entre 11 a 18 e 13 a 17 de fevereiro, devido às diferentes atividades realizadas. Segundo a pesquisadora Elza Ajzenberg, enquanto há uma exposição no saguão do Teatro Municipal, as apresentações noturnas musicais e literárias ocorrem nos dias 13, 15 e 17.

Ficha Técnica

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Obras 4

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Espetáculos 1

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Exposições 5

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Mídias (2)

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Viajando pelo Modernismo - Aspectos da cultura brasileira, 1993
Direção Roberto Moreira Edição José Carlos Daniel e Eduardo Lopes Roteiro Otávio Gomes, Roberto Moreira, Sylvio Pinheiro Produção Andréa Marques Barbosa Trilha sonora Wilson Sukorski, Lívio Tragtenberg Locução Martha Mellinger. Itaú Cultural
Jorge Schwartz - Modernismo - São Paulo na Literatura, 2004
O professor de literatura brasileira e pesquisador Jorge Schwartz palestra sobre o Modernismo. Tendo como marco zero a Semana de Arte Moderna de 22, realizada no Teatro Municipal, o modernismo é indissociável de São Paulo e da trajetória dos poetas paulistanos Mário e Oswald de Andrade. São Paulo na Literatura é uma série programas que tratam da cidade de São Paulo no imaginário da literatura brasileira. Com curadoria do jornalista e ensaísta Manuel da Costa Pinto e participação do grupo teatral Bendita Trupe, a série é formada por quatro programas -- Romantismo, Modernismo, Concretismo e Realismo Urbano. Gravado em fevereiro de 2004, na Sala Itaú Cultural, em São Paulo.

Fontes de pesquisa 13

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  • ADES, Dawn. Arte na América Latina: a era moderna, 1820-1980. Tradução Maria Thereza de Rezende Costa. São Paulo, SP: Cosac & Naify, 1997. 365 p., il. color. p&b.
  • AJZENBERG, Elza. A semana de arte moderna de 1922. Revista de Cultura e Extensão USP, 7, 25-29. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rce/article/view/46491/50247. Acesso em: 28 jan. 2021.
  • ALMEIDA, Paulo Mendes de. De Anita ao museu. São Paulo: Perspectiva : Diâmetros Empreendimentos, 1976. (Debates, 133).
  • AMARAL, Aracy. Artes plásticas na Semana de 22. 5. ed. São Paulo, SP: Editora 34, 1998.
  • ANDRADE, Mário de. Aspectos da literatura brasileira. 5.ed. São Paulo: Martins, 1974.
  • BATISTA, Marta Rosseti; Lopez, Telê P. Ancona; Lima, Yone Soares de (orgs.). Brasil: primeiro tempo modernista - 1917/29. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros, 1972.
  • BOAVENTURA, Maria Eugênia (org.). 22 por 22: a Semana de Arte Moderna vista pelos seus contemporâneos. São Paulo: Edusp, 2000. 461 p., il. p.&b.
  • CAMARGOS, Marcia Mascarenhas de Rezende. Semana de 22: entre vaias e aplausos. São Paulo: Boitempo, 2002. 183 p., il. p&b color. (Paulicéia. Memória).
  • HELIOS. Semana de arte moderna. Correio Paulistano, São Paulo, 07 fev. 1922. Chronica Social, p. 5. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/090972_07/7795. Acesso em: 28 jan. 2021.
  • MICELI, Sérgio. Nacional estrangeiro: história social e cultural do modernismo artístico em São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
  • PEDROSA, Mário. Acadêmicos e modernos: textos escolhidos III. Organização Otília Beatriz Fiori Arantes. São Paulo : Edusp, 1998. 429 p.
  • Semana de Arte Moderna. Correio Paulistano, São Paulo, 11 fev. 1922. Registo de Arte. p.5. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/090972_07/7831. Acesso em: 28 jan. 2021.
  • Semana de Arte. Correio Paulistano, São Paulo, 29 jan. 1922. Chronica Social, p. 5. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/090972_07/7711. Acesso em: 20 maio 2019.

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