Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Lábios que Beijei

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 07.02.2017
30.11.1998 Brasil / Bahia / Salvador – Teatro Sesi Rio Vermelho
Lábios que Beijei, uma valsa popular dos anos 1930, eternizada na voz de Orlando Silva (1915- 1978), dá nome à peça de Paulo Henrique Alcântara. Bem recebido por público e crítica, o espetáculo é marcado pelo encontro de dois atores, Wilson Mello (1933-2010) e Nilda Spencer (1923-2008), referências para a história do teatro na Bahia - representa...

Texto

Abrir módulo

Análise

Lábios que Beijei, uma valsa popular dos anos 1930, eternizada na voz de Orlando Silva (1915- 1978), dá nome à peça de Paulo Henrique Alcântara. Bem recebido por público e crítica, o espetáculo é marcado pelo encontro de dois atores, Wilson Mello (1933-2010) e Nilda Spencer (1923-2008), referências para a história do teatro na Bahia - representando também uma rara oportunidade para os espectadores. Lábios que Beijei é definida como uma comédia sentimental pelo autor e diretor Alcântara, na época um encenador iniciante, que escreve o texto especialmente para o veterano casal de protagonistas.

No centro da trama estão os personagens Plínio e Ofélia, um casal de idosos cujo cotidiano dentro de um apartamento é apresentado ao público. Casados há quatro décadas, eles dividem uma rotina impregnada de implicâncias, frustrações, repetições, medos e pequenas mesquinharias, mas também de gestos delicados e um afeto mútuo preservado através do tempo. Nessa história, com contornos de humor e nostalgia, os lábios - que não se desgrudavam no escurinho do cinema, na época em que Plínio suspirava pela atriz Bette Davis e Ofélia se derretia diante da beleza do ator Gregory Peck - não mais se beijam. O amor, no entanto, ainda se revela em pequenas atitudes do casal, que teme o futuro (a inevitável chegada da morte) e se alimenta de recordações (músicas, fotos e filmes antigos).

Entre um bordado feito por Ofélia e uma notícia de jornal lida por Plínio (sempre vestido com seu indefectível pijama) surge pelas frestas da memória o namoro nas poltronas do Cine-Teatro Guarani, a emoção de ter assistido ao clássico filme Casablanca e a saudade de Rita Hayworth e Marylin Monroe, mitos do cinema americano. “Ai, como eu queria ter nascido com a cara de Audrey Hepburn!”, ressente-se uma Ofélia encantada pelas estrelas de Hollywood. Esta é mesma personagem que, na realidade cotidiana, passa boa parte do tempo preocupada com mexericos envolvendo parentes e vizinhos. Entre os moradores do prédio onde moram, há um artista plástico, que nunca é visto pelo público, que pinta telas ouvindo Blue Moon, Moon River e outras tantas canções que compõem a história afetiva do casal.

A primeira impressão é de que se trata de uma relação desgastada, de um convívio rotineiro. Progressivamente, as lembranças e o resgate do passado suavizam a imagem da mulher irritante, tornando-a mais vulnerável diante do marido e da própria realidade da vida. Uma interferência importante da direção é a passagem de tempo nos seis quadros que compõem a encenação. Essa mudança se dá a partir de cada peça de roupa que Ofélia vai arrancando delicadamente do seu figurino. A intenção é comunicar ao espectador a passagem do tempo, além de expor um desnudamento da alma da personagem que gradativamente se desarma até se mostrar entregue aos sentimentos que afloram das suas recordações.

Alcântara sublinha que num determinado momento da peça os personagens, mesmo sem explicitação verbal, vão evidenciar ao público que estão se reencontrando e redescobrindo o amor que os une por causa da memória. “Eles lembram o quanto estavam juntos no passado e hoje estão separados. Isso se dá, sobretudo, pela lembrança de quanto eles iam ao cinema”,1 enfatiza o autor e diretor. No cotidiano, Ofélia é impaciente, autoritária. Plínio se mostra passivo, servil, complacente diante das atitudes irritadiças da esposa.

O contexto realista de Lábios que Beijei tem sua teatralidade acentuada pela luz sofisticada de Jorginho de Carvalho e pelo caráter alegórico do cenário de Euro Pires e do figurino assinado por Lígia Aguiar. Um dos detalhes mais significativos da cenografia é a estampa do sofá onde Plínio atravessa os dias lendo jornais. Completamente forrado por manchetes da imprensa, o móvel preferido do personagem é uma espécie de comentário simbólico e bem-humorado sobre o quanto ele delimita o interesse de sua vida em saber o que se passa do lado de fora do seu apartamento, tornando-se o elo entre a casa e o mundo exterior. Destaca-se, ainda, a janela à direita do palco, por onde entra o som das músicas ouvidas pelo vizinho artista plástico. A trilha sonora, dessa forma, intensifica a carga emotiva e dramática da peça.

A ideia de montar o espetáculo surge na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1996, quando Alcântara escreve a peça e faz a leitura do seu conteúdo em sala de aula, numa disciplina de dramaturgia ministrada por Cleise Mendes. O aval da professora estimula o aluno a escrever um projeto para viabilizar a montagem da obra, que é contemplado pelo edital da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Lançada em novembro de 1998, Lábios que Beijei é premiada no circuito cultural de Salvador com o Prêmio Copene de Teatro nas categorias melhor autor e melhor espetáculo adulto.

No processo de escrita da peça, o dramaturgo imediatamente projeta Nilda Spencer e Wilson Mello como o par ideal para os papeis, de tal modo a influenciar a construção das personagens. Mais uma vez a influência de Cleise Mendes é determinante para o projeto, uma vez que recomenda o texto aos dois artistas veteranos, estimulando-os a aceitar o convite. Com o espetáculo, inicia-se também uma marca no repertório cênico de Paulo Henrique Alcântara: o tema da memória. Aliada à temática recorrente está também a referência ao cinema, que caracterizam seus trabalhos, tanto de autor como diretor, por exemplo, em Bolero (2001) e Partiste (2010).

Nota

1 ALCÂNTARA, Paulo Henrique: depoimento. Salvador, 31 out. 2012. Entrevista concedida a Marcos Uzel.

Ficha Técnica

Abrir módulo
Autoria
Paulo Henrique Alcântara

Direção
Paulo Henrique Alcântara

Direção (assistente)
Nadja Turenko

Cenografia
Euro Pires

Figurino
Lígia Aguiar

Iluminação
Jorginho de Carvalho

Direção musical
Luciano Bahia

Elenco
Nilda Spencer / Ofélia

Direção de produção
Rosa Villas-Boas

Produção (assistente)
Silvanah Santos

Fontes de pesquisa 9

Abrir módulo
  • ALCÂNTARA, Paulo Henrique. Lábios que beijei/Bolero (uma tragicomédia folhetinesca). Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, 2004.
  • ALCÂNTARA, Paulo Henrique: depoimento. Salvador, 31 out. 2012. Entrevista concedida a Marcos Uzel.
  • CALDAS, Renata. Relações amorosas na corda bamba. Jornal de Brasília, Brasília, 16 jun. 2000, p. D-2.
  • MAGGYO, Sérgio. Apaixonada pela vida e pela arte de interpretar. Correio da Bahia, Caderno Folha da Bahia, Salvador, 10 mar. 1999, p. 6.
  • MUNIZ, Alethea. Senhora arretada: Nilda Spencer, a dama do teatro baiano, também brilha no cinema. Correio Braziliense, Brasília, 18 jun. 2000 p. 3.
  • PROGRAMA do espetáculo Lábios que beijei. Paulo Henrique Alcântara. Salvador: Teatro Sesi, nov. 1998.
  • UZEL, Marcos. A noite do teatro baiano. Salvador: P55 Edições, 2010.
  • UZEL, Marcos. Paixão que vivi. Correio da Bahia, Salvador, 27 nov. 1998, p. 8.
  • UZÊDA, Eduarda. A estrela de Nilda brilha. A Tarde, Salvador, 27 set. 2008, p. 1.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: