Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciams)

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 09.02.2021
1928 - 1959 Suíça
Os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciams) são eventos que reúnem arquitetos modernos proeminentes das décadas de 1930 a 1960, como o suíço Le Corbusier (1887-1965) e o alemão Walter Gropius (1883-1969). Essas reuniões estabelecem diretrizes e influenciam os projetos das cidades ao redor do mundo, como Brasília, projetada em 195...

Texto

Abrir módulo

Os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciams) são eventos que reúnem arquitetos modernos proeminentes das décadas de 1930 a 1960, como o suíço Le Corbusier (1887-1965) e o alemão Walter Gropius (1883-1969). Essas reuniões estabelecem diretrizes e influenciam os projetos das cidades ao redor do mundo, como Brasília, projetada em 1957 pelos arquitetos Oscar Niemeyer (1907-2012) e Lúcio Costa (1902-1998).

A primeira edição dos Ciams acontece em 1928, na Suíça. No total, são realizados dez congressos, o último, em 1959, na Iugoslávia. Os temas abordam as diferentes escalas da cidade com um caráter dogmático e social, como a necessidade de definição do projeto da unidade mínima de habitação (2º Ciam, Frankfurt) e o planejamento de cidades inteiras (4º Ciam, Grécia).  

O estabelecimento dos Ciams é consequência direta do momento com que o mundo se depara após a Revolução Industrial e a Primeira Guerra Mundial, quando paradigmas do modo de vida são rompidos. O aumento da produção e do consumo, decorrentes da Revolução Industrial, no final do século XIX, impulsiona o crescimento acelerado dos centros urbanos. A guerra, por sua vez, destrói cidades inteiras e afeta a economia mundial.

O déficit habitacional europeu dessa época atinge uma escala que demanda maior intervenção do Estado. Sua interferência torna-se fundamental para garantir às classes mais baixas o acesso à moradia, seja na concessão de créditos, seja no financiamento integral da construção de alojamentos. Maior participação estatal na concepção das cidades amplia o escopo de atuação dos arquitetos, que começam a se envolver em projetos de conjuntos habitacionais, de legislação urbanística e no desenho dos centros urbanos.

É nesse cenário que os arquitetos modernos se reúnem no 1º Ciam, com o intuito de articular ideias e, também, de se posicionarem politicamente como categoria. A criação dos Ciams constitui um marco do amadurecimento do modernismo como movimento. Divergências entre membros do grupo sobre a atuação do Estado não permitem a elaboração de princípios rígidos, mas sim a conclamação de um código de conceitos que deve ser seguido em prol de cidades mais salubres.

Princípios como a funcionalidade, a aplicação de inovações tecnológicas, a flexibilidade e a padronização de materiais para otimizar os recursos são defendidos. A cidade modernista deve funcionar igualmente para todos os seus habitantes, que podem assim usufruir de seus avanços técnicos. Desse modo, é possível replicar incansavelmente esse modelo, pois alcança o propósito ideal de cidade.

No Brasil, a Semana de Arte Moderna de 1922, realizada em São Paulo, é um marco da influência da vanguarda modernista europeia. Na arquitetura, identifica-se inicialmente certa dificuldade para aplicar projetos modernistas devido ao alto custo, à falta de mão de obra especializada e à legislação urbanística. Ainda assim, Le Corbusier e o racionalismo modernista influenciam desde cedo a arquitetura brasileira. O arquiteto visita o Brasil em 1929, período que coincide com o Estado Novo de Getúlio Vargas e com a realização do 2º Ciam. Elabora ensaios de projetos para as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, apresentados em sua obra Precisões (2004), e participa efetivamente de projetos como o do Ministério da Educação e Saúde (MES), no Rio de Janeiro (1936-1943). A verticalização do edifício do MES, o terraço-jardim e seus brises-soleil[1] são qualidades defendidas por Le Corbusier.

A primeira casa modernista brasileira (São Paulo, 1928), do arquiteto russo Gregori Warchavchik (1896-1972), e a Vila Operária da Gamboa (Rio de Janeiro, 1930) projetada por Warchavchik e Lúcio Costa, também são projetos característicos do movimento e pioneiros no cenário nacional.

Em 1933, é realizado o quarto Ciam, a bordo de um navio que parte de Marselha e dirige-se a Atenas. Desse encontro surge a Carta de Atenas (1941), que se configura como importante documento de metodologia de projeto para as cidades modernistas e elenca fórmulas a serem aplicadas ao redor do mundo. Defende pontos como o zoneamento funcional e os conjuntos habitacionais com eficiente equipamento coletivo e discute sobre a higiene das unidades habitacionais, que devem ter um mínimo de insolação. As cidades devem se apoiar em quatro funções: habitar, trabalhar, recrear (nas horas livres) e circular. O projeto de Brasília, com o modelo das superquadras e o planejamento do uso do solo setorizado, é considerado “a mais completa aplicação dos princípios contidos na Carta de Atenas”[2].

Na década de 1960, já se vê um movimento crítico aos padrões definidos pelos Ciams, como em relação à monotonia das paisagens urbanas geradas pela racionalização dos projetos. Essa agitação é denominada posteriormente de crítica pós-moderna. A demolição do reverenciado conjunto habitacional modernista de Pruitt-Igoe, em St. Louis, nos Estados Unidos, em 1972, é comumente associada ao marco do fim da apologia ao conceito modernista de habitação social. 

A dissolução dos Ciams origina o Team 10, organização que congrega arquitetos de uma geração mais jovem e realiza uma revisão crítica dos conceitos abordados nos Ciams. Origina-se com o grupo o novo brutalismo e o estruturalismo, dois movimentos arquitetônicos distintos da metade do século XX.

Os Ciams geram a mobilização de uma geração inteira de arquitetos e influenciam movimentos posteriores da arquitetura mundial. Seus ideais ainda reverberam na sociedade atual e podem ser vistos em muitos projetos de arquitetura contemporâneos.

 

Notas

1.  Elemento da fachada de um edifício que protege a parte interna da incidência da luz solar e reduz o calor.

2. LE CORBUSIER. In: A Carta de Atenas. Versão de Le Corbusier. Tradução e prefácio de Rebeca Scherer. São Paulo: II Ucitec: Edusp, 1993.

Fontes de pesquisa 10

Abrir módulo
  • BARONE, Ana Cláudia Castilho. Team 10: arquitetura como crítica. São Paulo: Anablume: Fapesp, 2002.
  • BENEVOLO, Leonardo. História da Arquitetura Moderna. São Paulo: Perspectiva, 2001. 3 v.
  • GALBIERI, Thalita Ariane. Os planos para a cidade no tempo. Resenhas Online. Vitruvius, São Paulo, 7 jul. 2008. Disponível em: https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/07.079/3069. Acesso em: 3 mar. 2020.
  • GOODWIN, Phillip Lippincott. Brazil builds: architecture new and old, 1652-1942. New York: The Museum of Modern Art, 1943. Disponível em: https://www.moma.org/documents/moma_catalogue_2304_300061982.pdf. Acesso em: 05 jan 2021.
  • KROLL, Andrew. Clássicos da Arquitetura: Unite d' Habitation/Le Corbusier. Tradução Eduardo Souza. Archdaily, [s.l.], 14 mar. 2016. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/783522/classicos-da-arquitetura-unidade-de-habitacao-le-corbusier. Acesso em: 5 mar. 2020.
  • LE CORBUSIER. A Carta de Atenas. Versão de Le Corbusier. Tradução e prefácio de Rebeca Scherer. São Paulo: II Ucitec: Edusp. 1993.
  • LE CORBUSIER. Precisões. Sobre um estado presente da arquitetura e do urbanismo. Tradução: Carlos Eugênio Marcondes de Moura; posfácio Carlos A. Ferreira Martins. São Paulo: Cosac Naify, 2004.
  • MACIEL, Carlos Alberto. Villa Savoye: arquitetura e manifesto. Arquitextos. Vitruvius, São Paulo, 2 maio 2002. Disponível em: https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.024/785. Acesso em: 7. mar. 2020.
  • NESBITT, Kate (Org.). Uma nova agenda para a arquitetura: antologia teórica (1965-1995). Tradução Vera Pereira. 2. ed. rev. São Paulo: Cosac Naify, 2013. 672 p., 16 ils.
  • RUBIN, Graziela Rossatto. Movimento Moderno e habitação social no Brasil. Geografia Ensino & Pesquisa, Santa Maria, maio/ago 2013. UFSM. v. 17.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: