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Artes visuais

FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica)

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 22.02.2021
2000 Brasil / São Paulo / São Paulo
O Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (File) é um evento anual realizado desde 2000, em São Paulo. Organizado por Ricardo Barreto (1950) e Paula Perissinoto (1963), o evento adota procedimentos em rede aberta, reunindo diversos artistas e gerando processos criativos. Marcado pela independência conceitual, o festival é viabilizado por ...

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O Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (File) é um evento anual realizado desde 2000, em São Paulo. Organizado por Ricardo Barreto (1950) e Paula Perissinoto (1963), o evento adota procedimentos em rede aberta, reunindo diversos artistas e gerando processos criativos. Marcado pela independência conceitual, o festival é viabilizado por participação em editais públicos, apoio de empresas e patrocínios. Por meio de parcerias com instituições, laboratórios de pesquisa e movimentos em rede, o festival recebe projetos e inscrições de diferentes tribos e estilos. O File caracteriza-se como exemplo do que o teórico alemão Sigfried Zielinski (1950) denomina “net”1. Com essa postura, o torna-se um evento conhecido e respeitado por artistas e pesquisadores do mundo todo. 

Nas primeiras edições, realizadas no Museu da Imagem e do Som, os debates sobre arte e novas tecnologias atraem um grupo restrito de pesquisadores e artistas. Essa primeira fase traz frutos emblemáticos para o entendimento da arte nas redes de comunicação. O livro Internet Art (2002), apresenta as obras da exposição e contribui para a reflexão sobre a arte das redes. Destacam-se textos fundamentais, como “Introdução à net.art (1994-1999)”, do russo Alexei Shulgin (1963) e da estadunidense Natalie Bookchin (1962); “Web work: uma história da arte na Internet”, da canadense Rachel Greene, e “Por que não tem havido grandes netartistas?”, de Steve Dietz. Ao lado deles, o artigo “A cultura da imanência”, escrito por Barreto e Perissinoto, comparece como marco nos discursos do período. 

Com a proliferação da cultura digital e o crescimento do interesse por obras interativas, interfaces multimidiáticas, performances audiovisuais e games, o File torna-se fenômeno de público. Segundo dados extraídos do site do evento, em 2009, recebe mais de um milhão de visitantes.

O festival é nômade e, em seu percurso histórico, participa de eventos em várias partes do país (Rio de Janeiro e Porto Alegre) e do mundo (Japão, Estados Unidos e Angola)2. Em ressonância com os movimentos da cibercultura, a trajetória do festival é dinâmica e em rede, desdobrando-se em ramos múltiplos: File Hipersônica (com foco em experimentações e performances sonoras que se combinam com imagens e textos), File Games, File Machinima, File Innovation, File Archive. Essas vertentes exploram as linguagens dos games, filmes, animações e projetos que atuam nas intersecções entre arte, economia e ciência.

As exposições apresentam obras que investigam a interdisciplinariedade entre arte, tecnologia e ciência. Artistas de várias partes do mundo e de diferentes gerações participam das mostras e problematizam a linguagem das novas mídias. Vários desses artistas são pesquisadores e exercem atividades acadêmicas e/ou conceituais.

As obras organizam-se em categorias, que passam por transformações constantes: instalações interativas, hipercinematividade, performance, net art, game art etc. Em outro momento, as categorias assumem novas denominações: File-CD (filmes documentários sobre cultura eletrônica); File Media Art (poéticas com foco nos processos comunicacionais); Panoramas (poéticas que adotam projeções ampliadas no espaço expositivo); File Games, File Poetry etc. 

A partir de 2006, em parcerias com laboratórios de pesquisas interdisciplinares, o evento File-Labo adota uma política de ação criativa e assume o papel de dispositivo de fomento a projetos experimentais. Entre eles, destaca-se a parceria com Software Studies Initiative, instituto dirigido pelo russo Lev Manovich (1960), em San Diego, Califórnia.

No território das obras interativas que propiciam experiências estéticas, o File traz exemplos fundadores do pensamento crítico. Entre as instalações mais marcantes apresentadas nos 12 anos do evento, destacam-se três. A primeira, Metadata, do estadunidense Mark Amerika (1960), é um projeto experimental de hipernarrativa, em que partes do texto estão estruturalmente vinculadas a uma série de arquivos em várias mídias. A segunda, Perversely Interactive System, dos canadenses Lynn Hughes (1951) e Simon Laroche, é uma instalação interativa criada pela dupla, composta por um dispositivo de biofeedback que define qual sequência narrativa será projetada pelo vídeo, com base em informações referentes ao nível de stress do interator. A terceira, Dez-encontros, da equipe brasileira interdisciplinar SCIArts, é uma instalação interativa que revisita princípios da arte combinatória e possibilita a leitura de poemas que surgem randomicamente por meio de movimentos de limpadores de para-brisa.

No espaço para o diálogo e reflexão conceitual, o Simpósio do File recebe teóricos e artistas de destaque como Ted Nelson (1937), Lev Manovich, Simon Biggs (1957), Ronaldo Lemos (1976), Florian Thalhofer (1972), Peter Anders, Timothy Weaver, George Landow, Machiko Kusahara, o Grupo C5.

A importância do File pode ser constatada em publicações da área, em várias listas de discussões sobre curadorias com novas mídias, linguagens e culturas do digital (Yasmin, Nettime, Rhizome e CRUMB, entre outras) e em várias redes sociais. 

O File também se notabiliza pelas produções bibliográficas: com dezenas de volumes publicados, todos com projetos gráficos cuidadosos, as produções trazem a relação completa das obras expostas e alguns artigos que balizam o eixo curatorial. Em 2010, ao completar dez anos de atividades, o File produz uma de suas obras mais significativas, o livro Teoria Digital. Organizado em cinco partes  – Cultura da imanência, Anarcocultura, Hipercinematividade, O jogar digital e Máquina e criatividade –, a publicação reúne textos inspiradores. O dramaturgo estadunidense Steve Dietz (1958) discute as complexidades que envolvem a curadoria em novas mídias; o russo Lev Manovich fala de sua teoria dos “nurbs” e da cultura do software; o estadunidense Paul Dennis Miller, conhecido como DJ Spooky, That Subliminal Kid (1970), apresenta o relato sobre seu Projeto Duchamp Remix, realizado no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles (Moca); o estadunidense Jussi Parikka, reconhecido autor no estudo das mídias, discute “bits, parasitas e ecologia da mídia na cultura das redes”, subtítulo de seu artigo “A Máquina Viral Universal”.

No grupo dos pesquisadores brasileiros, a coletânea reúne uma amostra com pioneiros na experimentação estética. Um ensaio de Renato Cohen (1956-2003) sobre performance e pós-teatro, a discussão sobre Poesia Digital de Wilton Azevedo (1958), os procedimentos da combinatória nas poéticas por Lucio Agra (1960) e a “Proto-arte Vebvirtual”, de Artur Matuck (1949). 

Evento de natureza plural, o File é, ao mesmo tempo, um espaço de multidões e um espaço reservado para o diálogo. Atrai um grande número de visitantes (principalmente para as performances e exposição de arte) e viabiliza a discussão e reflexão crítica. Se, por um lado, comparece na agenda cultural como evento massivo, com apelos lúdicos e um pé no entretenimento; por outro, ao reunir pesquisadores de renome internacional em suas sessões de debates alocadas no simpósio, assume o compromisso com a produção de conhecimento. Por meio do banco de dados que mantém online desde 2001 ou pela publicação de livros e catálogos, o File compromete-se com a circulação de ideias de maneira sistemática. Outra faceta de sua natureza plural é observada nas ações que exerce no incentivo da cultura. É agente de um prêmio (Prix Lux) e fomentador de um laboratório. 

Mutante e rizomático, o File é um evento que se desdobra em vários outros, em ações catalisadoras e na produção de memória.Caminha para novos territórios, enquanto seus rastros, inscritos na história da arte e tecnologia, revelam processos que ainda aguardam sistematização.

Notas

1.  ZIELINSKI, Siegfried. Sete itens sobre a Net. In: LEÃO, Lucia (org.). InterLab: labirintos do pensamento contemporâneo. São Paulo: Editora Iluminuras: Fapesp, 2002. p. 11-30.

2. ALMEIDA, Jane; SILVA, Cicero. Arte, ciência e inovação. In: BARRETO, Ricardo; PERISSINOTO, Paula (Orgs.). File 10 Nurbs Proto 4KT. São Paulo: Imprensa Oficial, 2009.

Fontes de pesquisa 12

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  • ALMEIDA, Jane; SILVA, Cicero. Arte, ciência e inovação. In: BARRETO, Ricardo; PERISSINOTO, Paula (Orgs.). File 10 Nurbs Proto 4KT. São Paulo: Imprensa Oficial, 2009.
  • DIGI-ARTS: Portal da Unesco com foco em Artes Digitais. Disponível em: http://portal.unesco.org/culture/en/ev.php-URL_ID=21121&URL_DO=DO_TOPIC&URL_SECTION=201.html. Acesso em: 21 jan. 2013
  • FILE LAB. Disponível em: http://www.filefestival.org/site_2007/pagina_conteudo_livre.asp?a1=468&a2=468&id=2. Acesso em: 21 nov. 2012
  • FILE PRIX LUX. Disponível em: http://www.fileprixlux.org/awarded-interactive-art.aspx. Acesso em: 21 nov. 2012
  • FILE – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica. Disponível em: http://file.org.br. Acesso em: 21 jan. 2013
  • LEÃO, Lucia. O Chip e o caleidoscópio: reflexões sobre as novas mídias. São Paulo: Senac, 2004.
  • PERISSINOTO, Paula; BARRETO, Ricardo. Geomatriz: hábitos reconfigurados. São Paulo: File: Imprensa Oficial, 2007.
  • PERISSINOTO, Paula; BARRETO, Ricardo. Hipermídias. São Paulo: Imprensa Oficial: File, 2005.
  • PERISSINOTO, Paula; BARRETO, Ricardo. Internet Art. São Paulo: Imprensa Oficial: File, 2002.
  • PERISSINOTO, Paula; BARRETO, Ricardo. Teoria digital: dez anos do FILE - Festival Internacional de Linguagem Eletrônica. São Paulo: Imprensa Oficial: File, 2010.
  • SOFTWARE Studies Initiative. Disponível em: http://lab.softwarestudies.com/. Acesso em: 28 fev. 2013
  • ZIELINSKI, Siegfried. Sete itens sobre a net. In: LEÃO, L. (Org.). InterLab: labirintos do pensamento contemporâneo. São Paulo: Iluminuras: Fapesp, 2002.

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