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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Women's

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 13.08.2019
2001 Brasil / Santa Catarina / Florianópolis
Women's, do autor e diretor teatral argentino Daniel Veronese (1955), dirigido e traduzido por André Carreira com o Grupo (E)xperiência Subterrânea, estreia em 2001 em Florianópolis, tendo no elenco Jaqueline Valdívia e Vanessa Damasco. O espetáculo é resultado da pesquisa do diretor e do grupo, que desde sua fundação desenvolve um trabalho volt...

Texto

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Women's, do autor e diretor teatral argentino Daniel Veronese (1955), dirigido e traduzido por André Carreira com o Grupo (E)xperiência Subterrânea, estreia em 2001 em Florianópolis, tendo no elenco Jaqueline Valdívia e Vanessa Damasco. O espetáculo é resultado da pesquisa do diretor e do grupo, que desde sua fundação desenvolve um trabalho voltado para o risco físico, investigando zonas-limite e fronteiras da interpretação na relação com o espaço cênico por meio da exploração de aspectos como tensão física e emocional, manipulação extrema do corpo e possibilidade de violência, ainda que simbólica. O grupo também se caracteriza pela ocupação de espaços teatrais não convencionais e de rua, buscando romper com o cotidiano do transeunte. Em espetáculos anteriores, utiliza técnicas de violência em cena e alpinismo.

O monólogo, originalmente intitulado Women's White Long Sleeve Sport Shirts (1996), aborda o tema da solidão utilizando imagens perturbadoras. Em um primeiro momento, o texto trabalha com elementos familiares ao espectador para depois quebrar esse pacto, causando uma sensação de incômodo, repulsa e distanciamento. Essas duas percepções irão se misturar ao longo da peça.

A representação se passa em um necrotério, onde a faxineira Adair, interpretada por Jaqueline Valdívia, dialoga com seus fantasmas pessoais enquanto faz suas ações rotineiras, que incluem a manipulação de um cadáver nu, interpretado por Vanessa Damasco. Adair está sendo acusada de um crime que jura não ter cometido. A cenografia, composta de parede, maca e chão brancos, toma a forma de uma sala de autópsia, na qual a faxineira "ensaia" respostas para um possível interrogatório. O público é posicionado próximo à cena, gerando um efeito de intimidade que potencializa a experimentação dos riscos no jogo performático, propiciado pela manipulação do corpo nu, que inclui posturas complexas e arriscadas quedas.

O espetáculo transita entre o cômico e o dramático, alternando momentos de humor, como partes das falas e ações da faxineira nos momentos iniciais, e tensão, provocada pelas vozes que a perturbam e pelos atos de violência contra o corpo morto, que assume diferentes interlocutores de sua vida recente. Encontramos na peça um discurso sobre o corpo, seus limites e suas simbologias, e a complexa relação de respeito/desrespeito na situação cênica. Para o diretor, o cruzamento de alguns limites está ligado a uma proposta de enfrentamento feita ao público, que se depara com imagens de desconforto e risco, evidentes nas situações pelas quais a atriz, que interpreta a morta, passa na cena.

Em 2001, ano de sua estreia, a encenação recebe os prêmios de melhor espetáculo, melhor atriz (Jaqueline Valdivia) e melhor direção no 15º Festival Universitário de Teatro de Blumenau, e também de melhor atriz (para ambas) e melhor iluminação no Festival Nacional de Teatro Isnard Azevedo.

O elenco passa por diversas formações. A partir de 2009, conta com as atuações de Ana Luiza Fortes e Lara Matos. Segundo o diretor, as mudanças trouxeram importantes alterações ao espetáculo, sobretudo no que diz respeito ao ritmo e à intensidade propostos por cada atriz, já que são elas que definem a intensidade da cena baseando-se na intimidade criada entre elas. Segundo Carreira, "quanto mais próximas as atrizes estão, mais intensa a cena será".1 A atriz Lara Matos, que interpreta a Morta e passa o espetáculo inteiro de olhos fechados e com a respiração contida, corrobora a visão do diretor ao sublinhar a necessidade de haver uma ligação muito profunda com a atriz com quem contracena, pois sem essa afinação há a possibilidade de ocorrer um risco físico grave, além da perda da dramaticidade necessária à encenação.

Carreira define Women's como o trabalho que serve de baliza para sua proposta de um teatro de risco e como sendo a "referência poética do grupo". O espetáculo permite que a companhia enfrente suas principais dificuldades e potencialidades, sobretudo devido ao grande nível de exigência a que as atrizes são submetidas, o que gera intensa mobilização criativa na sua manutenção e eventuais explorações de novas possibilidades na cena. O crítico Marco Vasques analisa:

O jogo cênico e a tensão dramática partem do duplo vida/morte. [...] A atriz Ana Luíza Fortes, que interpreta Adair, nos oferece uma atuação contundente que varia entre o expressionismo e o minimalismo. [...] Lara Mattos, que interpreta um corpo que espera uma necropsia, surpreende ao colocar seu corpo/objeto às mãos de Adair. Somente uma atriz que ame profundamente a arte teatral é capaz de encarar os riscos que Lara Mattos encara. [...] O espetáculo segue as experimentações estéticas anteriores do grupo (E)xperiência Subterrânea, isto é, uma poética que esteja na fronteira, na zona máxima de tensão/risco psíquica e física.2

Women's faz parte do repertório do grupo, sendo apresentado em inúmeros festivais e cumprindo turnês por Santa Catarina e pelo Nordeste brasileiro. O espetáculo já foi visto na Argentina, nas cidades de Buenos Aires e Formosa, em 2012. Em suas viagens, a companhia tem oferecido oficinas de formação para atores com foco no risco físico na cena e na interpretação por estados anímicos - alegria, tristeza, imobilidade, euforia, depressão - conduzidos e experimentados pelos atores como jogos de interpretação.

Notas

1. CARREIRA, André. Entrevista concedida a Marisa Naspolini por e-mail em 8 dez. 2012.
2. VASQUES, Marco. Women's white shirts: uma década de palco. Disponível em: http://revistaosiris.wordpress.com/tag/marco-vasques-e-andre-carreira/. Acesso em: 9 dez. 2011.

Ficha Técnica

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Autoria
Daniel Veronese

Tradução
André Carreira

Direção
André Carreira (Melhor direção - 15º Festival Universitário de Teatro de Blumenau)

Iluminação
André Carreira (Melhor iluminação - Festival Nacional de Teatro Isnard Azevedo)

Elenco
Jaqueline Valdívia / Faxineira Adair (Melhor Atriz - 15º Festival Universitário de Teatro de Blumenau e no Festival de Nacional de Teatro Isnard Azevedo)
Vanessa Damasco / Cadáver nu (Melhor atriz - Festival Nacional de Teatro Isnard Azevedo)

Fontes de pesquisa 4

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  • CARREIRA, André. Entrevista concedida a Marisa Naspolini por e-mail em 8 dez. 2012.
  • FORTES, Ana Luiza. Entrevista concedida a Marisa Naspolini por e-mail em 5 dez. 2012.
  • MATOS, Lara. Aspectos feministas em produções teatrais: análise de três casos brasileiros. Trabalho de conclusão de curso. Florianópolis: Centro de Artes/Udesc, 1 jul. 2008.
  • VASQUES, Marco. Women's white shirts: uma década de palco. Disponível em < http://revistaosiris.wordpress.com/tag/marco-vasques-e-andre-carreira/ >. Acesso em: 9 dez. 2011.

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