Artigo da seção eventos As Três Irmãs

As Três Irmãs

Artigo da seção eventos
Teatro  
Data de inícioAs Três Irmãs: 2007
Local de realização: (Brasil / Santa Catarina / Florianópolis)
Tipo do evento: espetaculo | Classificação do evento: a classificar

As Três Irmãs, de Tchekhov, dirigida e adaptada por Marianne Consentino com a Traço Cia. de Teatro, estreia em 2007 em Florianópolis. O trabalho é fruto de longa pesquisa com a linguagem do clown, desenvolvida pelo grupo desde 2001. Neste ano, seus integrantes trabalham juntos na montagem de Último Dia Hoje, realizada no curso de artes cênicas da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), sob a direção do professor Valmor Níni Beltrame.

As Três Irmãs tem boa receptividade de crítica e público e faz extensa carreira com apresentações em diversas cidades no Brasil e no exterior, tornando-se um dos principais expoentes do teatro catarinense. A peça trata do conflito entre três irmãs, Olga, Maria e Irina, fazendo um profundo mergulho investigativo sobre a existência humana. As três filhas de um general que deixa a capital (no caso, a fictícia Winston, na adaptação da diretora) para comandar tropas em outra localidade sonham em retornar à cidade de origem. Quando o pai morre, elas acreditam que é o momento de voltar à cidade natal, mas o dia sonhado nunca chega. Os demais personagens criados por Tchekhov surgem na cena através da fala das atrizes ou da participação de espectadores, que são convidados a compartilhar uma ceia em uma cena surreal e poética. A adaptação dá prioridade ao conflito das irmãs e sua luta em um cotidiano sem perspectivas.

Em uma crítica ao trabalho, Marco Vasques e Rubens da Cunha descrevem As Três Irmãs como:

(...) um espetáculo de fronteira e fratura que une beleza, sutileza, coerência estética e apuro técnico pouco vistos nas montagens que pululam em nossos palcos. (...) As Três Irmãs consiste num hino fúnebre à imobilidade da vida (paradoxalmente tão semovente e escorregadia). É uma investigação profunda da existência e seu sentido, seu não sentido. As atrizes Paula Bittencourt (Irina), Débora Matos (Olga) e Greice Junqueira1 (Maria: Macha no texto original) se utilizam da linguagem do clown para nos iluminar com o humor negro e ácido que nos leva ao riso-desespero.2

Em uma cena inicial, as atrizes acendem as velas de um bolo de aniversário e fazem, uma a uma, dois pedidos ao apagá-las. O público é convidado a participar, também soprando velas e fazendo pedidos. Um grupo de músicos pontua a cena ao fundo, mesclando composições próprias a um repertório de música popular brasileira. A cena atinge uma qualidade de silêncio e sutileza que se repete em outros momentos ao longo da peça, provocando uma simbiose de subjetividades que dá o caráter da encenação.

A proposta estética do trabalho faz parte de uma pesquisa da diretora sobre a linguagem do clown, aprofundada posteriormente em sua dissertação de mestrado defendida na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) em 2008, intitulada As Três Irmãs e a Subjetividade no Trabalho do Ator: Contribuições da Técnica do Clown. O treinamento das atrizes e a montagem do espetáculo integram sua pesquisa acadêmica, que busca elos entre o clown e uma dramaturgia tradicional. Apesar de ter participado da fundação do grupo, Consentino, que vive em Recife desde 2011, não está ligada a outras montagens da companhia.

A diretora se refere a sua tentativa de trazer um “estado de clown” durante os ensaios por meio do uso do nariz vermelho, do trabalho com o olhar e da relação direta com o público. Na busca de um contato mais aprofundado das atrizes consigo mesmas, evitando vícios e estereótipos, a diretora propôs deformações físicas em seus corpos, aproximando-se da linguagem dos bufões e proporcionando à construção dos personagens um caráter grotesco e ao mesmo tempo sutil e poético.

Segundo Luís Otávio Burnier (1956-1995), as deformações dos bufões são como a somatização das deformações humanas interiores, das dores da humanidade. No espetáculo, elas são reforçadas por um figurino que explicita más formações corporais, como uma corcunda avantajada ou braços excessivamente curtos, que potencializam a vulnerabilidade evidente das irmãs. A exposição física da deformidade e as memórias corporais ativadas pela ação funcionam como uma ignição para um “estado anárquico de liberdade” perseguido pela diretora desde o início de sua pesquisa empírica. O bufão, ao exigir um “pensar com o corpo”, elimina excessos intelectuais e possibilita às atrizes uma ampliação de seus próprios limites. Para Consentino, “as personagens Olga, Maria e Irina preservam seu espírito, mas seus corpos não deixam de se afetar pelo automatismo que impera”3.

A montagem enfatiza a situação de espera, a angústia e a atitude interna de resistência das irmãs ao longo do tempo. Para a diretora, o essencial é salientar o desejo das irmãs de retornar a um lugar onde a vida faz mais sentido, seja este um espaço físico concreto ou um estado psíquico. É por meio da linguagem clownesca que a direção potencializa o humor e a poesia de Tchekhov, encontrando na performance das atrizes e dos músicos a força coletiva necessária para construir um espetáculo que oscila entre cômico e dramático e encontra na exploração do ridículo um acesso consistente para a subjetividade.

Notas

1.  O nome correto da atriz é Greice Miotello.

2.  CUNHA, Rubens; VASQUES, Marco. Antídoto à arte anestésica. Notícias do Dia, Florianópolis, 6 e 7 ago. 2011. Caderno Plural.

3.  CONSENTINO, Marianne Tezza. As três irmãs e a subjetividade no trabalho do ator: contribuições da técnica do clown. Dissertação de mestrado apresentada na ECA/USP. São Paulo, 2008.

Ficha Técnica do evento As Três Irmãs:

Fontes de pesquisa (7)

  • BURNIER, Luís Otávio. A arte do ator: da técnica à representação. São Paulo: Editora da Unicamp, 2001.
  • CONSENTINO, Marianne Tezza. As três irmãs e a subjetividade no trabalho do ator: contribuições da técnica do clown. Dissertação de mestrado apresentada na ECA/USP. São Paulo, 2008.
  • CUNHA, Rubens; VASQUES, Marco. Antídoto à arte anestésica. Notícias do Dia, Florianópolis, 6 e 7 ago. 2011. Caderno Plural.o. 2011. Caderno Plural.
  • TRAÇO CIA. DE TEATRO. As três irmãs. Nossa trajetória... Jornal da Mostra Latino-Americana de Teatro. São Paulo, 26 abr. 2012, 3ª ed
  • TRAÇO CIA. DE TEATRO. Blog do grupo. Florianópolis, 2012. Disponível em: http://tracoteatro.blogspot.com. Acesso em: 10 nov. 2012
  • TRAÇO CIA. DE TEATRO. Entrevista concedida a Marisa Naspolini. Florianópolis, 16 nov. 2011.
  • TRAÇO CIA. DE TEATRO. Livreto disponibilizado pela companhia. Florianópolis, 2011.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • AS Três Irmãs. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento635941/as-tres-irmas>. Acesso em: 26 de Set. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7