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Teatro

O Sapato do meu Tio

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 07.02.2017
21.09.2005 Brasil / Bahia / Salvador – Goethe-Institut (Salvador, Bahia)
A combinação entre o teatro sem diálogo verbal e a arte da palhaçaria caracteriza o espetáculo O Sapato do meu Tio, um dos mais importantes do teatro na Bahia nos anos 2000. Protagonizado pelos atores Lúcio Tranchesi e Alexandre Luís Casali, sob direção de João Lima, o trabalho de trajetória longeva mostra as glórias e desventuras do ofício do r...

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Análise

A combinação entre o teatro sem diálogo verbal e a arte da palhaçaria caracteriza o espetáculo O Sapato do meu Tio, um dos mais importantes do teatro na Bahia nos anos 2000. Protagonizado pelos atores Lúcio Tranchesi e Alexandre Luís Casali, sob direção de João Lima, o trabalho de trajetória longeva mostra as glórias e desventuras do ofício do riso, através da personificação do artista mambembe que leva a vida na estrada em cima de uma velha carroça vestido de palhaço, usando sapatos enormes e a indefectível máscara de nariz vermelho.

O foco central da trama é a relação entre um Tio (Lúcio Tranchesi), palhaço esquecido pelo público, mas orgulhoso de sua arte, e seu Sobrinho (Alexandre Luís Casali), que tenta aprender o ofício. Não é um convívio fácil. O mestre não tem mais plateia nem dinheiro no bolso e carrega nas costas a responsabilidade pelo sustento do jovem companheiro de estrada. O relacionamento se desgasta, mas também reacende em Tio a esperança de ver a sua arte ser perpetuada nas ações do seu discípulo.

Na análise do ator Alexandre Luís Casali, o texto sem palavras de O Sapato do meu Tio pode ser compreendido como um diálogo de corpos, de intenções. O roteiro se inspira em características da peça O Menor quer Ser Tutor (1990), de Peter Handke (1942), dentre as quais o aprofundamento de questões existentes entre o mestre e o aprendiz, o velho e o novo, o ensinar e o aprender.

A direção evita forçar um ritmo mais veloz às ações presentes na peça, valorizando aspectos que dimensionam um tempo mais desacelerado, como a repetição de gestos e a rotina dos personagens. O pesquisador Demian Moreira Reis aponta as três fontes técnicas que sustentam o espetáculo do ponto de vista da atuação: a fonte do ator, das práticas circenses e da arte do palhaço. Segundo ele:

A dramaturgia que se desenrola diante de nossos olhos é toda feita por meio de ações físicas. Não há uma palavra articulada. Apenas sons guturais emitidos pelo Sobrinho quando passeia pelas ruas divulgando o espetáculo do Tio. Essa estratégia irá concentrar o entendimento da peça na dança de ações percebidas pelo espectador. E aqui é apropriado indicar que esse aspecto aproxima a peça à palhaçaria, cuja comicidade depende em maior peso da apresentação de estruturas visuais.1

A cena inicial em que o Sobrinho come várias bananas que estão escondidas em sua roupa enquanto os espectadores vão ocupando os seus lugares na plateia, é um bom exemplo do tom de comicidade da encenação. Predomina um humor inocente que se mistura à condição dramática da vida do Tio e do Sobrinho. Ao ser construído sob a base técnica e dramatúrgica da arte do palhaço, o espetáculo amplia aspectos sociais, políticos e humanos já presentes na figura anárquica deste personagem tão popular.

O figurino tem assinatura de Rino Carvalho e busca a sobriedade e a praticidade de dois personagens itinerantes. Eles vestem roupas que são aproveitadas tanto no cotidiano quanto nas apresentações de seus números circenses, subvertendo o estereótipo do palhaço multicolorido e exagerado. A estética do figurino assimila influências dos filmes de Charles Chaplin (1889-1977) e Federico Fellini (1920-1993).

O cenário de Agamenon de Abreu segue a mesma linha conceitual e cria possibilidades práticas para facilitar o deslocamento do elenco em suas turnês. Um telão iluminado de azul, semicircular, instalado no fundo do palco dá um efeito de profundidade maior aos olhos do público e também um sentido de amplidão, de céu aberto que reforça o imaginário da rua, da estrada. A representação plástica da vida simples dos dois artistas é reforçada ainda na iluminação de Fábio Espírito Santo. A luz comunica a passagem de tempo e transita entre o tênue e a penumbra. O efeito de suas tonalidades resulta numa poética para a encenação e sugere nostalgia e solidão na trajetória dos personagens.

Assinada pelo diretor musical Jarbas Bittencourt, a trilha sonora composta para clarinete, fagote e violão exerce um papel decisivo na criação dos tons e climas das cenas. É composta originalmente para o espetáculo durante os ensaios com a presença dos músicos e dos dois protagonistas nos laboratórios propostos pela direção. Nesta fase preparatória são criadas sequências como a valsa do perna-de-pau, o treinamento do Sobrinho e toda a base musical da encenação inspirada em marchas, valsas e música circense. A trilha é posteriormente gravada no estúdio do TVV, em Salvador.

O espetáculo O Sapato do meu Tio marca um momento importante na carreira do diretor, ator e palhaço João Lima, que a partir desse projeto ganha visibilidade na imprensa baiana. Também celebra a vitoriosa parceria entre Alexandre Luís Casali (um estudioso da arte do palhaço no teatro, no circo e nas ruas) e Lúcio Tranchesi (um dos atores mais importantes da história das artes cênicas na Bahia).

A peça recebe seis indicações ao Prêmio Braskem de Teatro, em Salvador, conquistando os troféus de melhor ator (Lúcio Tranchesi), direção e espetáculo adulto do teatro baiano em 2005. Ao participar do projeto Sesc Palco Giratório, o elenco se apresenta em mais de 70 cidades brasileiras, numa extensa turnê que inclui quase todas as capitais do país. Além do êxito em seu país, a peça representa quatro vezes o Brasil em festivais e eventos internacionais, com passagens por Espanha, Chile, Guiana Francesa e República Dominicana.

Nota

1 REIS, Demian Moreira. A palhaçaria em O sapato do meu tio. Repertório – Revista Acadêmica de Teatro & Dança, n. 15, 2010, p. 165-175.

 

Ficha Técnica

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Autoria
Alexandre Luís Casali
Lúcio Tranchesi

Direção
João Lima (Melhor Direção - Prêmio Braskem de Teatro)

Direção (assistente)
Alda Souza

Cenografia
Agamenon de Abreu

Cenografia (assistente)
Agamenon de Abreu

Adereço
Agamenon de Abreu

Figurino
Rino Carvalho

Iluminação
Fabio Espírito Santo

Direção musical
Jarbas Bittencourt

Elenco
Alexandre Luís Casali / Sobrinho
Lúcio Tranchesi / Tio (Melhor Ator - Prêmio Braskem de Teatro)

Direção de produção
Selma Santos

Produção executiva
Karina Rabinovitz

Produção (assistente)
Augusto Souza
Natália José

Fontes de pesquisa 6

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  • CASALI, Alexandre Luís. Alexandre Luís Casali. Salvador: [s.n.], 2012. Entrevista concedida a Marcos Uzel.
  • PROGRAMA do espetáculo O sapato do meu tio, Salvador, Teatro do Goethe-Institut, 21 set. 2005.
  • REIS, Demian Moreira. A palhaçaria em O sapato do meu tio. Repertório – Revista Acadêmica de Teatro & Dança, n. 15, 2010, p. 165-175. Disponível em: < http://www.portalseer.ufba.br/index.php/revteatro/article/viewFile/5222/3772 >. Acesso em: 26 nov. 2012.
  • SANTOS, Selma. Selma Santos. Salvador: [s.n.], 2012. Entrevista concedida a Marcos Uzel.
  • UZEL, Marcos. A noite do teatro baiano. Salvador: P55 Edições, 2010.
  • UZÊDA, Eduarda. Linguagem gestual. A Tarde, Salvador, 21 set. 2005, p. 2.

Como citar

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