Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

A Menina dos Olhos

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 13.10.2015
13.12.1989 Brasil / Distrito Federal / Brasília
A Menina dos Olhos é uma produção do Grupo Circo Teatro Udi Grudi que convida o diretor uruguaio radicado em Brasília, Hugo Rodas, para realizarem juntos uma montagem que integre o teatro e o circo com o teatro de animação e com o teatro negro.1  Com esse espetáculo o grupo investe na elaboração de projetos artisticamente interdisciplinares. No ...

Texto

Abrir módulo

Histórico

A Menina dos Olhos é uma produção do Grupo Circo Teatro Udi Grudi que convida o diretor uruguaio radicado em Brasília, Hugo Rodas, para realizarem juntos uma montagem que integre o teatro e o circo com o teatro de animação e com o teatro negro.1  Com esse espetáculo o grupo investe na elaboração de projetos artisticamente interdisciplinares. No elenco participam os fundadores da trupe, Luciano Astiko, Luciano Porto e Marcelo Beré, e Beto Techmeier, Cecília Borges, Luiza Viegas e Verônica Maia. Essa é a primeira peça do Udi Grudi reconhecida pelo meio teatral e pela crítica especializada.

Desde sua fundação, em 1982, o circo é a prática principal do grupo. Entre 1986 e 1989, a trupe dedica-se à linguagem do circo tradicional. Nesse período, iniciam seus espetáculos com números circenses e, em seguida, apresentam esquetes cômicas do palhaço brasileiro. Marcelo Beré observa que essa vivência é fundamental para a formação deles. Quando fazem o convite a Hugo Rodas, os participantes estão discutindo a pertinência de prosseguir com esse estilo, é um momento de questionamento. A união do coletivo com esse diretor proporciona a troca dos conhecimentos de ambos e resulta em um espetáculo, no qual o fazer teatral e circense se organizam de forma diferenciada.

Luciano Porto relata que no primeiro encontro com Hugo Rodas, o grupo descreve ao encenador os números circenses que realizam e suas ideias para um espetáculo de circo e de teatro negro. No dia seguinte, Hugo apresenta material para iniciar os trabalhos, uma folha com desenhos como um story-board, e lhes diz: "Aqui está a peça, vai se chamar A Menina dos Olhos."2  Após as explicações das cenas delineadas no papel, o Udigrudi escreve projeto com o qual ganham o edital nacional de patrocínio da Concorrência Fiat 1989 e começa a construir a montagem.

O texto não é estruturado com falas, mas sim com palavras soltas. A trama inicia-se com uma porta que se abre no fundo negro do palco, por onde passa um mágico que caminha até o proscênio e faz aparecer uma pomba.  Essa ave voa e, em seguida, põe um ovo, e um segundo, que se transformam em um ovo gigante. Outros iguais a ele entram em cena e juntos realizam uma coreografia, na qual palhaços bebês nascem dos ovos, com fraldas, choram e recebem mamadeiras gigantes que descem das varas cenográficas do urdimento.3 

Os bebês se vestem, saem de cena e voltam tocando instrumentos musicais, executando acrobacias e saltos. Uma menina de vestido azul os segue, acaba se perdendo e fica sozinha. Nesse momento, uma boca gigante suspensa pergunta para a menina: "Cadê seus olhos?", e em trapézios ao fundo aparecem duas meninas de vestidos azuis, emolduradas por duas armações de óculos gigantes que flutuam no fundo. Na sequência, em um espaço onde incide a luz negra para esconder os malabaristas, surgem ossos coloridos fluorescentes flutuando, compondo várias formas que se modificam até o momento em que todos os ossos caem no chão e se transformam em dois gigantescos esqueletos, feitos por atores em pernas-de-pau cuspindo fogo. Um casal de sapatos enormes, também em fachadas coloridas conduzidas por atores em pernas-de-pau, os expulsa. Em seguida os sapatos namoram e jogam bola - uma grande armação redonda, que esconde Porto, que move-se rapidamente com seu monociclo. O casal de sapatos foge ao quebrar uma janela.

Entra uma ema, feita por Beré em perna-de-pau, com um anão no dorso. Ela persegue uma lagarta que sobe uma corda indiana4  negra e se transforma em borboleta no alto. Surgem mais duas borboletas dançando ao fundo nos trapézios. A menina que usa o vestido azul reaparece vestida como o mágico e persegue as borboletas. Os palhaços passam cantando e fazendo piruetas, ela os segue novamente e o espetáculo termina.

Em 1989, A Menina dos Olhos inaugura a Casa do Teatro Amador em Brasília (atual Teatro Plínio Marcos, da Funarte) e realiza sete temporadas até 1991 no Distrito Federal. O grupo estima que mais de dez mil pessoas assistem à peça. O Jornal de Brasília descreve o teatro com todas suas vestimentas negras, a caixa preta montada para destacar os símbolos e personagens manipuladas pelos atores à luz negra e ressalta o trabalho de direção observando que "Hugo Rodas chegou à síntese do argumento de um teatro onírico, de ilusionismo, próprio para as características do teatro negro. [...] Fez um roteiro adequado para que os atores pudessem utilizar com ênfase todos os seus recursos cênicos circenses."5 

A trilha sonora é desenvolvida por Fernando Corbal e Rênio Quintas e o Jornal de Brasília identifica na música a presença das "onomatopéias, das gags musicais e de uma sequência estonteante de magia e invenção."6  Em 1991, a peça recebe três Prêmios APAC-DF para Espetáculo Infantil, Cenário e Trilha Sonora original. As apresentações encerram-se nesse ano, com a ida de Beré para a Inglaterra com bolsa do Conselho Britânico. No ano seguinte, Porto recebe a mesma bolsa e também viaja.

O aprendizado obtido com a realização de A Menina dos Olhos reflete de maneira positiva na trajetória do Udi Grudi, promovendo uma evolução na trajetória do grupo. Os estudos dos integrantes na Europa e o encontro com a diretora Leo Sykes no fim da década de 1990, também contribuem para esse desenvolvimento. O que pode ser identificado na peça O Cano, em 1998, na qual a trupe redireciona suas investigações estéticas e esse novo processo o conduz por outras pesquisas em relação ao circo, ao teatro e principalmente ao palhaço e inicia uma fase internacional. Muito além do riso, o palhaço deve sim encantar o público, em uma obra que equilibre dramaturgia, encenação e interpretação, privilegiando a mestria corporal, a plasticidade e a musicalidade. Essas outras formas de associações entre os campos artísticos e um trabalho centrado na construção por meio de improvisações conduzidas por Leo passam a permear todos os trabalhos do coletivo no século XXI.

Notas
1 Teatro realizado com a caixa preta (o teatro com todas suas vestimentas cênicas negras), e com o efeito da luz negra, que destaca objetos e cores fluorescentes, criando formas e movimentos mágicos.
2 VILLAR, Fernando Pinheiro; SYKES, Leo; PORTO, Luciano; BERÉ, Marcelo; VIEIRA, Márcio e CATALAO, TT. Udi Grudi: seis apontamentos curtos sobre vinte e cinco anos insistencialistas. Revista VIS (UnB), v. 5 n.2. Brasília, 2006, p. 126.
3 O urdimento é a parte superior da caixa cênica, oculta à visão do público e que comporta varas de luz e de cenografia, que podem ser abaixadas e elevadas, mecanicamente ou manualmente.
4 Aparato aéreo (pendurado verticalmente) circense,  onde artistas escalam a corda lisa de algodão e evoluem em acrobacias que exigem equilíbrio e controle muscular dos membros superiores e inferiores.
5 A Menina dos olhos de Hugo e do Udigrudi. Jornal de Brasília, 13 dez.1989, Caderno 2, p. 4.
6 Idem.

 

 

 

Ficha Técnica

Abrir módulo
Autoria
Hugo Rodas

Direção
Hugo Rodas

Cenografia
Hugo Rodas (Prêmio APAC Associação dos Produtores de Arte e Cultura)

Adereço
Hugo Rodas

Figurino
Hugo Rodas

Iluminação
Hugo Rodas

Trilha sonora
Fernando Corbal
Rênio Quintas

Elenco
Beto Techmeier
Cecília A. Borges
Luciano Astiko
Luciano Porto
Luiza Viegas
Marcelo Beré
Verônica Maia / A Menina dos Olhos

Fontes de pesquisa 5

Abrir módulo
  • A Menina dos olhos de Hugo e do Udigrudi. Jornal de Brasília, Brasília, 13 dez. 1989. Caderno 2, p. 4.
  • BERÉ, Marcelo. O grupo, seu cotidiano e a importância do registro. In: VILLAR, Fernando Pinheiro e CARVALHO, Eliezer Faleiros de (Orgs.). Histórias do teatro brasiliense. Brasília: Artes Cênicas - IdA/UnB, 2004, p.184-97.
  • CARVALHO, Eliezer Faleiros. Breve panorama histórico do teatro brasiliense. In: VILLAR, Fernando Pinheiro e CARVALHO, Eliezer Faleiros de (Orgs.). Histórias do teatro brasiliense. Brasília: Artes Cênicas - IdA/UnB, 2004, p. 25-56.
  • Udi Grudi. Site oficial do Grupo. Brasília. Disponível em: http://www.circoudigrudi.com.br/. Acesso em: 23 set. 2011.
  • VILLAR, Fernando Pinheiro; SYKES, Leo; PORTO, Luciano; BERÉ, Marcelo; VIEIRA, Márcio e CATALAO, TT. Udi Grudi: seis apontamentos curtos sobre vinte e cinco anos insistencialistas. Revista VIS (UnB), v. 5, n. 2, Brasília, 2006, p. 122-140.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: