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Teatro

Comédia do Fim - Quatro Peças e Uma Catástrofe

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 15.02.2016
05.11.2003 Brasil / Bahia / Salvador – Teatro Castro Alves
Composto por cinco textos curtos do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989) encenados na íntegra, o espetáculo Comédia do Fim - Quatro Peças e uma Catástrofe aborda questões complexas da alma humana. O absurdo da existência, a incomunicabilidade latente na sociedade contemporânea e a solidão pairam sobre as cabeças das personagens desses ...

Texto

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Histórico

Composto por cinco textos curtos do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989) encenados na íntegra, o espetáculo Comédia do Fim - Quatro Peças e uma Catástrofe aborda questões complexas da alma humana. O absurdo da existência, a incomunicabilidade latente na sociedade contemporânea e a solidão pairam sobre as cabeças das personagens desses "dramatículos" de Beckett, em que o ser humano se decompõe em imagens desfiguradas. É como se fossem apenas restos, pedaços de gente.

Escritos no período final de sua produção teatral (posterior a Esperando Godot, Fim de Partida e Dias Felizes), os cinco textos (Eu Não, Improviso em Ohio, Teatro I, Comédia e Catástrofe) transitam entre a estranheza e o enigmático, o humor e a crueldade. Pode-se reconhecer nestas obras uma radicalização das rupturas do autor com a dramaturgia realista.

A direção é de Luiz Marfuz, que utiliza na encenação o conhecimento adquirido e aprofundado na pesquisa acadêmica, realizada sobre a poética da destruição no teatro de Beckett, tema de sua tese de doutorado. Marfuz tem intimidade com essa dramaturgia tão insólita e irônica, que faz reflexões sobre o sentido de estar vivo. A consistência do trabalho se nota no resultado do espetáculo, conduzido por um encenador que afirma ter se esvaziado de si mesmo para garantir a intensidade dessa produção.

Em Comédia do Fim, o ser humano se encontra perdido em fragmentos e quase não se reconhece mais. Algumas questões ficam em aberto, sem respostas para o espectador. Há de se indagar, por exemplo, o que leva três personagens a estar com os corpos praticamente enterrados em três blocos de cimento, deixando aparecer para o público apenas as suas cabeças. Do que falam essas pessoas? Quem fala? Isto, porém, não significa que a encenação seja impenetrável.

O elenco é porta-voz de textos com grande carga de humanidade e que se encerram por si só, sem necessariamente estarem ligados por algum significado comum. Os atores entram em cena para provocar dúvidas, privilegiando o talvez.  Falam do ser humano na sua essência, na sua plenitude, sem que isso esteja ligado a um tempo histórico. São questões universais que podem estar em qualquer época ou lugar. 

No primeiro texto (Eu Não), a plateia assiste ao nascimento de uma voz. No palco quase escuro, apenas a boca da atriz Hebe Alves (indicada ao Prêmio Braskem de Teatro pelo êxito neste trabalho) é vista sob um foco de luz, dando a impressão de que está solta. A boca verborrágica descobre a sua capacidade de falar aos 60 anos de idade, quando passa a derramar para um ouvinte desconhecido do público um desesperado jato de palavras num fluxo contínuo. Fragmentos de memória e sensações do presente se misturam neste desabafo desenfreado.

A voz do outro que conta em um livro a sua experiência com um amor perdido que não vai mais ser recuperado (uma das raras histórias amorosas escritas por Beckett) está presente no Improviso em Ohio. Esta peça pode ser compreendida como um rito de consolação.

Já em Fragmentos de Teatro I as vozes se perdem no tempo, através do encontro numa esquina do fim do mundo entre um cego de fragilidade quase infantil e uma personagem que se movimenta numa cadeira de rodas. Ambos tentam se aproximar um do outro, numa sequência em que o grotesco divide espaço com o lirismo e o desalento.  

Em Comédia, predomina o que o diretor Luiz Marfuz chama de ecos das palavras mortas. No texto original, três personagens aparecem dentro de jarras funerárias. Nesta adaptação, surgem enterrados até o pescoço em caixas de cimento e dentro delas fazem uma espécie de paródia das comédias de boulevard, numa evidência de como o humor está presente em Beckett, associado a um riso nervoso, cruel, irônico e desconcertante. Neste momento do espetáculo, o encenador assinala a idéia de imobilidade, outra característica forte na obra beckettiana.

Em Catástrofe, a última das cinco peças, a montagem de Marfuz mostra com mais ênfase o tormento da condição humana. Mesmo o humor sutil não dilui a dramaticidade desta parábola da opressão, sublinhada na imagem silenciosa de um ator protagonista anulado e entregue ao abandono, deixando-se submeter ao poder de outra personagem, um diretor teatral que se comporta como um deus e exerce uma personalidade tirana sobre o corpo do ator, através de seu assistente.

Uma das máximas beckettianas, grafadas pelo autor irlandês na peça Fim de Partida, diz que nada é mais engraçado do que a infelicidade. É uma afirmação que também combina com a provocação embutida no próprio título desta Comédia do Fim. A julgar pelo tratamento dado à encenação, o diretor parece querer nos dizer, ironicamente, que a grande "comédia do fim" é estar vivo, já que estamos todos aprisionados à vida, obrigados a dormir e acordar sempre carregando conosco o nosso próprio corpo. A única saída para solucionar esta prisão é a morte.

O espetáculo integra o repertório do Núcleo de Teatro do TCA. Os atores selecionados (após uma audição com 320 candidatos) e a atriz convidada Hebe Alves estão em cena guiados por um método de trabalho que Marfuz chama de referências de desfiguração. Há momentos em que as personagens se desfiguram tanto que não importa mais o corpo, somente a voz ou o silêncio, representações da metáfora da finitude. No conteúdo das cinco peças, nem mesmo a tragédia se instala entre eles, pois não há espaços para a previsibilidade da morte. A certeza do fim é ironizada no espetáculo. Nenhuma personagem morre, pois isto significa acabar com o sofrimento.

O resultado da encenação mostra como no teatro de Beckett o que está em questão não é a construção de sentidos, já que o autor coloca o próprio sentido em questão. O espetáculo é composto por alguns signos de fácil decodificação e outros muito abstratos e apresenta uma estrutura que não está alicerçada por elementos temáticos, lógicos ou psicológicos. A base de sustentação é bem mais técnica e sua dinâmica (tempo, ritmo, velocidade da fala, dramaticidade) depende da interferência direta dos dispositivos cênicos.. Tanto que a cenografia é uma estrutura que se move, inclusive, para que o vazio tão presente na dramaturgia beckettiana possa ser materializado.

A ideia de vazio se concretiza para caracterizar uma montagem ambientada por poucos elementos plásticos, na qual a eficácia dos recursos estéticos é alcançada através de um trabalho marcadamente técnico, sutil e matemático. Os deslocamentos da luz são executados de forma milimétrica e não pode haver imprecisão na hora de revelar ou não para o público a imagem de determinada personagem. É necessário calcular, por exemplo, o momento exato em que o refletor ilumina a boca em destaque no palco escuro durante a exibição do "dramatículo" Eu Não.

O resultado do espetáculo é tecnicamente impecável. A estrutura cenográfica dialoga bem com a iluminação, que estabelece confrontos simbólicos entre luz e escuridão. Isso também ajuda a tornar perceptível a dialética entre sim e não, voz e silêncio. Muitas vezes, o foco da luz torna-se determinante na explicitação do embate da personagem consigo mesmo, através do realce da palavra (seca, enxuta e estranha) ou da ausência dela.  Nas entrelinhas do que é dito, percebe-se uma sutil reserva emotiva, sobretudo na trilha sonora, que sublinha a transição de uma peça para outra. A trilha é executada em doses mínimas, já que o próprio texto de Beckett traz em si musicalidade.

Em meio à aridez, ao desconforto e à atmosfera de solidão, tão presentes em Comedia do Fim, há de se destacar a contribuição da técnica de clown no processo criativo da montagem, não do ponto de vista estético, mas sim filosófico. Notadamente, em imagens como a do perdedor feliz, que tem a capacidade de enfrentar derrotas.

O enfrentamento, aliás, é uma das qualidades da direção de Luiz Marfuz neste trabalho. Ele escreve no programa da peça: "Cada cena teve sua instalação. Percorremos o caminho do insondável e lá ficamos, às vezes, estirados. Fazer Beckett é, quase sempre, caminhar no escuro, pois, mesmo quando nos defrontamos com a luz, podemos nos perder. E talvez a escuridão mais profunda seja o estado mais revelador".1

Comédia do Fim conquista do Prêmio Braskem de Teatro de melhor espetáculo adulto baiano de 2003 e a participa, em 2004, no 7º Festival Recife do Teatro Nacional.

Notas

1 PROGRAMA do espetáculo Comédia do Fim, Núcleo de Teatro do TCA, Salvador, Sala do Coro do Teatro Castro Alves, nov. 2003.

 

 

Ficha Técnica

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Autoria
Samuel Beckett

Tradução
Cleise Mendes

Direção
Luiz Marfuz

Direção (assistente)
Ney Wendell

Cenografia
Moacyr Gramacho

Figurino
Moacyr Gramacho

Iluminação
Irma Vidal

Maquiagem
André Cruz
Marie Thauront

Trilha sonora
Brian Knave

Preparação vocal
Hebe Alves

Preparação circense
Rafael Morais

Elenco
André Tavares / Comédia do Fim - Quatro Peças e Uma Catástrofe
Frieda Gutmann / Comédia do Fim - Quatro Peças e Uma Catástrofe
Hebe Alves / Comédia do Fim - Quatro Peças e Uma Catástrofe
Ipojucan Dias / Comédia do Fim - Quatro Peças e Uma Catástrofe
Luiz Pepeu / Comédia do Fim - Quatro Peças e Uma Catástrofe
Marcos Machado / Comédia do Fim - Quatro Peças e Uma Catástrofe
Urias Lima / Comédia do Fim - Quatro Peças e Uma Catástrofe
Zeca Abreu / Cego e Assistente

Direção de produção
Sibele Américo

Produção executiva
Eneida Rebouças
Manolo Araújo

Fontes de pesquisa 7

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  • ANDRADE, Fábio. Samuel Beckett: o silêncio possível. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
  • MARFUZ, Luiz. Escola de Teatro da UFBA, Salvador, 08 ago. 2011. Entrevista a Marcos Uzel.
  • PROGRAMA do espetáculo Comédia do Fim, Núcleo de Teatro do TCA, Salvador, Sala do Coro do Teatro Castro Alves, nov. 2003.
  • UZEL, Marcos. A noite do teatro baiano. Salvador: P55 Edições, 2010.
  • UZEL, Marcos. O que nos diz a solidão. Correio da Bahia, Caderno Folha da Bahia, Salvador, 06 nov. 2003, p.1.
  • UZEL, Marcos. Solidão com limpidez e humanidade. Correio da Bahia, Caderno Folha da Bahia, Salvador, 14 nov. 2003, p. 6.
  • UZÊDA, Eduarda. Poética indecifrável. A Tarde, Caderno 2, Salvador, 05 nov., 2003, p. 5.

Como citar

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