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Teatro

Cabaré da Rrrrraça

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.02.2016
08.08.1997 Brasil / Bahia / Salvador – Teatro Vila Velha
Espetáculo mais popular e de maior longevidade na trajetória do Bando de Teatro Olodum, o Cabaré da Rrrrraça traz profunda marca de credibilidade e relevância social em sua abordagem sobre a questão racial no Brasil. Nenhuma outra peça encenada exclusivamente por artistas negros fez tanto sucesso na história das artes cênicas na Bahia quanto est...

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Histórico

Espetáculo mais popular e de maior longevidade na trajetória do Bando de Teatro Olodum, o Cabaré da Rrrrraça traz profunda marca de credibilidade e relevância social em sua abordagem sobre a questão racial no Brasil. Nenhuma outra peça encenada exclusivamente por artistas negros fez tanto sucesso na história das artes cênicas na Bahia quanto esta montagem dirigida por Marcio Meirelles (1954).  

Com este trabalho, o Bando circula em turnê por várias cidades do país, além de se apresentar em Angola e Portugal. A principal característica é o discurso de afirmação identitária assinalado no caráter contestatório dos temas abordados, na defesa do sentido político da ideia de raça (a repetição da consoante "r" no título traz um significado de resistência, superação de dificuldades) e no chamamento público feito pelo Bando para denunciar o racismo ainda latente na sociedade brasileira.

O espetáculo possui estrutura típica dos cabarés, uma forma de entretenimento que esteve muito em voga na Alemanha no período entre as duas guerras mundiais. É um gênero pontuado por canções e com forte acento cômico, mas também muito crítico e político no discurso, além de ser formado por personagens que interagem com o público.

Assumidamente didático e em diálogo voltado diretamente para o espectador, o Cabaré da Rrrrraça reúne em seu texto um painel de questões relacionadas ao preconceito racial: miscigenação, ideologia do branqueamento, discriminação no trabalho, religião, sexualidade, educação, indústria cultural, mídia e consumo, dentre outras.

Sob um cenário composto por três pequenos tablados montados sobre um palco maior, homens e mulheres afrodescendentes de diferentes faixas etárias, níveis de escolaridade e posições no mercado de trabalho expõem suas opiniões e divergem entre si, num ambiente que parece ser um espaço midiático (informação não explicitada no texto), possivelmente um estúdio de televisão, onde eles participam de uma espécie de talk show.

A peça não tem uma estrutura cênica realista. O suposto estúdio de tevê pode, de repente, se transformar numa passarela de desfile de moda ou na residência de algum personagem. O debate, porém, em nenhum momento se dissocia da observação crítica de uma realidade social.

O recurso do humor é utilizado estrategicamente para excitar a plateia e atrair espectadores para as discussões. Oito papéis femininos, seis masculinos e um que transita entre os dois gêneros (mostrando-se como um estado de mulher no corpo biológico de um homem) compõem a galeria de tipos deste cabaré do Bando. Todos eles são negros e assumem as escolhas dentro das quatro vias de condução presentes na trama: o caminho da negação, da omissão, do reconhecimento e do enfrentamento da discriminação racial.

Fazem parte dessa galeria personagens como a engajada estudante de teatro Dandara, defensora da política de cotas nas universidades; o modelo Taíde, que rejeita as mulheres negras e superestima as loiras; o músico, cantor e dançarino Abará, morador da periferia baiana, vítima de humilhações em blitz policial; a empresária Rose Maria, de alto poder aquisitivo e com comportamento alheio ao racismo; e a engajada advogada Janaína, que se defende do preconceito exigindo o cumprimento da lei.

Ao ser convocado a dar uma opinião ou relatar histórias reais sobre preconceito racial, o público do Cabaré da Rrrrraça impõe a sua presença, interfere na dinâmica da encenação no papel de testemunha ativa das discussões e rompe com a imutabilidade do texto.

São poucos os momentos em que os personagens dialogam entre si. As falas, em sua maioria, se dirigem diretamente ao espectador, algo comumente encontrado nas formas épicas de elaboração teatral teorizadas pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht. A opção do diretor Marcio Meirelles de fazer a peça se prolongar no público evidencia uma das metas da técnica do distanciamento trabalhada por Brecht, com a finalidade de provocar uma reação crítica e reflexiva nas pessoas que estão na plateia, tirando-as do conforto da isenção.

Essas referências do teatro brechtiano também mostram o interesse do Bando de Teatro Olodum de analisar as questões humanas sob o ponto de vista das relações sociais. A influência do autor alemão se faz perceber, ainda, no tratamento dado à trilha sonora, utilizada com o propósito de promover rupturas no desenrolar da narrativa.

Através das letras das canções, os atores e atrizes do Cabaré se deslocam dos seus respectivos personagens para comentar ironicamente as ações. São momentos que enfatizam o discurso de militância da companhia baiana e fazem o elenco se unir em um mesmo coro para, através da música, defender uma causa. A trilha, portanto, dá uma contribuição fundamental para realçar a visão ideológica e engajada do espetáculo.

Outro alicerce importante é o trabalho corporal. O efeito gerado pelas coreografias nos números musicais fortalece o texto verbal e faz do corpo do ator ou atriz um potente instrumento de aproximação entre quem realiza o espetáculo e quem o acompanha da plateia. O recurso da dança fortalece visualmente um discurso que o espectador nem sempre está disposto a ouvir.

O figurino e a maquiagem têm a função de acentuar a atmosfera de show e a espetacularidade deste cabaré pop e fashion. As roupas e as pinturas utilizadas não entram em cena para ilustrar a personalidade de um determinado personagem. Seu papel não é de ajudar na construção da individualidade, na caracterização de uma época ou de um meio social. Pelo contrário. O que os tipos representados pelo elenco vestem ou a forma como pintam seus rostos não traduz necessariamente o que eles são ou o modo como enxergam o mundo.

Inspirada na aparência estética dos modelos negros fotografados para a revista Raça Brasil (a mais bem-sucedida publicação comercial do país a ter como público alvo os leitores afrodescendentes), a encenação reproduz imagens do lema setentista black is beautiful, uma das máximas do movimento black power norte-americano na década de 1960 em sua luta pela igualdade de direitos civis nos Estados Unidos. E que teve eco na Bahia dos anos 1970, tornando-se referência para o surgimento dos blocos afros no carnaval de Salvador.

Ao mesmo tempo em que preserva esse viés político, a peça atualiza o lema ao refletir com ironia e senso crítico sobre a postura dos meios de comunicação de massa dos anos 2000 em relação à estética negra. Mídia, negritude, consumo e modismo nos dias atuais fazem parte da discussão. A afirmação do cabelo crespo no Cabaré da Rrrrraça, por exemplo, é um discurso político sem o recurso da palavra.

O interesse de pensar sobre o negro como sujeito e objeto de consumo levou o Bando de Teatro Olodum a criar o conjunto de papéis dessa peça. A história de cada personagem surgiu no exercício das improvisações, a partir do material colhido nas entrevistas e nas pesquisas de campo feitas pelo elenco em ambientes socioculturais de Salvador.

Esta, aliás, é uma forma de construção dramatúrgica que a companhia coloca em prática desde o primeiro espetáculo. O método consiste na elaboração coletiva e simultânea do texto e da encenação. É um trabalho que demonstra como os seus atores e as atrizes contribuem de forma autoral em suas produções teatrais.    

Dentre as reflexões levadas ao palco por eles no Cabaré, merece destaque a crítica ao estereótipo do homem negro representado na figura do atleta fálico, libidinoso e selvagem. Os personagens Taíde e Luciano Patrocinado capitaneiam essa discussão. Ambos fazem propaganda de si mesmos como potentes máquinas de prazer infalíveis na cama, utilizando seus corpos sexuados como um instrumento de afirmação de poder masculino.

Mitificada e idealizada pela dupla, a mulher branca (em especial, a loira) surge como paradigma da beleza, considerada por ambos o único modelo capaz de lhes proporcionar uma mobilidade positiva numa sociedade racista. Esta meta de ascensão social pela estratégia do sexo implica numa absoluta rejeição de Taíde e Patrocinado às mulheres negras, resultando numa importante abordagem sobre gênero e raça na trama da encenação.

Fora do palco, a relevância do Cabaré também se faz notar na mudança do perfil do público do Bando, até então majoritariamente branco. Desde a estreia, esse quadro se reverte radicalmente: de acordo com o diretor Marcio Meirelles, atualmente mais de 60% dos espectadores da montagem mais popular da companhia baiana são negros.

 

Ficha Técnica

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Autoria
Marcio Meirelles

Direção
Marcio Meirelles

Cenografia
Marcio Meirelles

Figurino
Marcio Meirelles

Iluminação
Rivaldo Rio

Maquiagem
Luiz Santana
Marcio Meirelles

Direção musical
Jarbas Bittencourt

Música
André Luís / Cabaré da Rrrrraça
Clésia Nogueira / Cabaré da Rrrrraça
Edgar Sacramento / Cabaré da Rrrrraça
Inaiara Ferreira / Cabaré da Rrrrraça
Márcio Néri / Cabaré da Rrrrraça

Coreografia
Zebrinha

Preparação corporal
Anita Bueno
Carla Leite
Rejane Maia
Zebrinha

Preparação vocal
Marcelo Jardim

Elenco
Agnaldo Buiú / Cabaré da Rrrrraça
Auristela Sá / Cabaré da Rrrrraça
Cássia Valle / Cabaré da Rrrrraça
Cristovão da Silva / Cabaré da Rrrrraça
Gerimias Mendes / Cabaré da Rrrrraça
Jorge Washington / Cabaré da Rrrrraça
Lázaro Machado / Cabaré da Rrrrraça
Lázaro Ramos / Cabaré da Rrrrraça
Leno Sacramento / Cabaré da Rrrrraça
Luís Fernando Araújo / Cabaré da Rrrrraça
Merry Batista / Cabaré da Rrrrraça
Nildes Vieira / Cabaré da Rrrrraça
Rejane Maia / Cabaré da Rrrrraça
Tânia Toko / Cabaré da Rrrrraça
Valdinéia Soriano / Cabaré da Rrrrraça

Direção de produção
Chica Carelli

Produção executiva
Auristela Sá
Érico Brás
Fábio Santana
Jorge Washington
Valdinéia Soriano

Fontes de pesquisa 10

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  • BITTENCOURT, Jarbas. [Bando de Teatro Olodum]. Teatro Vila Velha, Salvador, 12 jul. 2011. Entrevista a Marcos Uzel.
  • BORNHEIM, Gerd. Brecht: a estética do teatro. Rio de Janeiro: Graal, 1992.
  • BRECHT, Bertolt. Estudos sobre teatro. Tradução de Fiama Pais Brandão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
  • MEIRELLES, Marcio. Cabaré da Rrrrraça - Texto. Salvador: Teatro Vila Velha, 2005.
  • PEIXOTO, Fernando. Brecht, vida e obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
  • PRODUÇÕES, Formiga Vídeo; OLODUM, Bando de Teatro; MEIRELLES, Marcio. Cabaré da Rrrrraça. Salvador: Teatro Vila Velha, 2005. 1 DVD, son., color.
  • PROGRAMA do espetáculo Cabaré da Rrrrraça, Bando de Teatro Olodum, Salvador, Teatro Vila Velha, ago. 1997.
  • RAÇA BRASIL, Editora Símbolo, São Paulo, n. 01, 02 set.1996.
  • RISÉRIO, Antonio. Carnaval ijexá. Salvador: Corrupio, 1981.
  • UZEL, Marcos. O teatro do Bando - Negro, baiano e popular. Salvador: P555, 2003. (Cadernos do Vila).

Como citar

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Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: