Artigo da seção eventos A Mais Forte

A Mais Forte

Artigo da seção eventos
Teatro  
Data de inícioA Mais Forte: 31-05-1984 | Data de término: 07-1984
Local de realização: (Brasil / Pernambuco / Recife) | Instituição de realização: Teatro de Santa Isabel
Tipo do evento: espetaculo | Classificação do evento: a classificar

Histórico
Segundo espetáculo da companhia Casa de Ópera Corporação Artística, A Mais Forte se notabiliza pelo apuro conceitual e estilístico da encenação de Carlos Bartolomeu (1953) e pela qualidade da atuação de Augusta Ferraz e Magdale Alves.

A Mais Forte é uma das peças de câmara de August Strindberg, escrita em 1889. A ação se passa na década de 1880, em um café na cidade de Estocolmo, onde duas mulheres se encontram às vésperas do Natal. Ambas são atrizes e estão ligadas ao mesmo homem, uma é sua esposa, Sra. X, e outra, sua amante, Srta. Y. A primeira fala o tempo todo, enquanto a segunda permanece em silêncio. Trata-se de um jogo de ideias e de poder.

O encenador propõe duas versões da peça e divide o espetáculo em dois atos: no primeiro, Bartolomeu valoriza o conflito das personagens, sua dramaticidade; no segundo, revela o que há de risível no texto de Strindberg, transformando-o em uma comédia. A encenação valoriza a relação conflituosa entre as duas personagens, ressaltando a conotação homossexual. Em vez de ex-amigas, elas se transformam em ex-amantes, fazendo prevalecer no subtexto não a disputa pelo mesmo homem, mas o lamento de uma amante abandonada.

Além disso, podem-se observar referências ao cinema, particularmente aos filmes Blade Runner, de Ridley Scott, de 1982, Fome de Viver (The Hunger), de Tony Scott, de 1983, ao cinema noir, em geral, e aos filmes B norte-americanos, no primeiro ato; e a O Boulevard do Crime (Les Enfants du Paradis), de Marcel Carné, de 1946, no segundo ato.

O ritmo do primeiro ato é lento, valorizando as nuanças da atuação, com gestos contidos, palavras sussurradas e jogo minimalista - tanto das intérpretes quanto do encenador -, como se a direção fizesse um close-up do estado da alma das personagens. Na segunda parte, os papéis se invertem: as atrizes trocam de personagens. Para o crítico Valdi Coutinho, nesse ato, enfatiza-se o recurso à "mímica, com palavras pronunciadas de forma abafada pela máscara de expressão [...], que ora escondem, ora camuflam e até mesmo deturpam o verdadeiro sentido das falas. Seria [...] a liberação das personagens e das circunstâncias levadas às últimas consequências do deboche e do histrionismo".1 Instaura-se, portanto, uma atmosfera cômica que redireciona o tônus da encenação, acelerando-lhe o ritmo. Tanto no primeiro quanto no segundo ato, valoriza-se a linguagem corporal, com marcações rigorosas, quase coreográficas.

A trilha sonora é pontuada, no primeiro ato, pela canção As Time Goes By, de Herman Hupfeld, música-tema do filme Casablanca, que também conclui esse ato. No segundo, ela é baseada em cançonetas napolitanas da Idade Média e do Renascimento, que também ajudam a imprimir um ritmo aligeirado e um clima farsesco ao espetáculo.

Quanto à cenografia, no primeiro ato, ela se resume a um biombo ao estilo art déco, uma mesa nua e duas cadeiras. No biombo, há o desenho de um labirinto, que remete ao labirinto de Cnossos. Tudo em tons claros e escuros, inclusive o figurino das atrizes - enquanto a Sra. X usa um vestido negro de detalhes cobreados, a Srta. Y veste uma indumentária em tom pérola, quase branco. A predominância de um visual ao mesmo tempo passadista e futurista, a partir da referência à cultura pop dos anos 1980, imprime ao espetáculo paradigmas e atitudes da pós-modernidade.

No segundo ato, o cenário é basicamente o mesmo, porém variam as cores: as atrizes jogam uma cortina em tons cinza e rosa, com motivos florais costurados no tecido, por cima do biombo, e vê-se uma máscara no ângulo esquerdo da quina desse móvel. A mesa e as cadeiras também são recobertas por uma toalha no mesmo estilo da cortina. O figurino muda para um estilo barroco, caracterizando o espetáculo como uma mascarada de ópera-bufa. Na verdade, a segunda parte da peça funciona como uma espécie de paródia da primeira.

Antes de encerrar sua trajetória, A Mais Forte se apresenta no Teatro Lima Penante, em João Pessoa, e no Teatro Valdemar de Oliveira, no Recife, no 2º Festival Brasileiro de Teatro Amador, como representante do estado de Pernambuco.

O professor e dramaturgo Paulo Vieira descreve o espetáculo: "As atrizes se comportam como se fossem um espelho e a sua imagem. Uma fala, a outra nada diz, mas no entanto reflete em sua gestualidade a fala da outra. A que cala traduz a gradação emocional da que fala. Uma tem a voz, a outra tem o gesto. A peça é um constante diálogo entre o som e o silêncio, como se fosse a ressonância de um eco, a voz que volta no espaço vazio. Na tensão deste diálogo a que cala é a imagem da que fala em seu espelho. Este espelho é a diferença entre uma e outra personagem".2

Notas
1. COUTINHO, Valdi. Strindberg: novo e forte. Diario de Pernambuco, Recife, [s.p.], jul. 1984.

2. VIEIRA, Paulo. Grande anatomia. João Pessoa, p. 3, 3 jun. 1984. [Texto inédito. Acervo Carlos Bartolomeu].

 

Ficha Técnica do evento A Mais Forte:

Fontes de pesquisa (8)

  • ALVAREZ, Enéas. A mais forte - crítica. Jornal do Commercio, Recife, [s.p.], 19 jun. 1984.
  • CAVALCANTI, Medeiros. A mais forte. Jornal do Commercio, Recife, [s.p.], 9 jun. 1984.
  • COUTINHO, Valdi. Strindberg: novo e forte. Diario de Pernambuco, Recife, [s.p.], jul. 1984. 
  • VIEIRA, Paulo. Grande anatomia. João Pessoa, 3 jun. 1984. [Texto inédito. Acervo Carlos Bartolomeu].
  • CADENGUE, Antonio. Pequena cirurgia. Correio das Artes, João Pessoa, p. 10, 24 jun. 1984.
  • CASA DE ÓPERA CORPORAÇÃO ARTÍSTICA. A mais forte. Direção Carlos Bartolomeu. Recife, Teatro de Santa Isabel, maio/jun. 1984.
  • MACHADO, Lúcia. A Modernidade no Teatro - Ali e Aqui - Reflexos Estilhaçados. Vol. III. Monografia (Especialização em Artes Cênicas). Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística, Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1986. p. 237-406.
  • MOSTAÇO, Edélcio. A surpreendente dupla articulação da arte. 1984. [Texto inédito. Acervo Carlos Bartolomeu].

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • A Mais Forte. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento517471/a-mais-forte>. Acesso em: 17 de Nov. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7