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A Mais Forte

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 05.09.2017
31.05.1984 - 07.1984 Brasil / Pernambuco / Recife – Teatro de Santa Isabel
Segundo espetáculo da companhia Casa de Ópera Corporação Artística, A Mais Forte se notabiliza pelo apuro conceitual e estilístico da encenação de Carlos Bartolomeu (1953) e pela qualidade da atuação de Augusta Ferraz e Magdale Alves.

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Histórico
Segundo espetáculo da companhia Casa de Ópera Corporação Artística, A Mais Forte se notabiliza pelo apuro conceitual e estilístico da encenação de Carlos Bartolomeu (1953) e pela qualidade da atuação de Augusta Ferraz e Magdale Alves.

A Mais Forte é uma das peças de câmara de August Strindberg, escrita em 1889. A ação se passa na década de 1880, em um café na cidade de Estocolmo, onde duas mulheres se encontram às vésperas do Natal. Ambas são atrizes e estão ligadas ao mesmo homem, uma é sua esposa, Sra. X, e outra, sua amante, Srta. Y. A primeira fala o tempo todo, enquanto a segunda permanece em silêncio. Trata-se de um jogo de ideias e de poder.

O encenador propõe duas versões da peça e divide o espetáculo em dois atos: no primeiro, Bartolomeu valoriza o conflito das personagens, sua dramaticidade; no segundo, revela o que há de risível no texto de Strindberg, transformando-o em uma comédia. A encenação valoriza a relação conflituosa entre as duas personagens, ressaltando a conotação homossexual. Em vez de ex-amigas, elas se transformam em ex-amantes, fazendo prevalecer no subtexto não a disputa pelo mesmo homem, mas o lamento de uma amante abandonada.

Além disso, podem-se observar referências ao cinema, particularmente aos filmes Blade Runner, de Ridley Scott, de 1982, Fome de Viver (The Hunger), de Tony Scott, de 1983, ao cinema noir, em geral, e aos filmes B norte-americanos, no primeiro ato; e a O Boulevard do Crime (Les Enfants du Paradis), de Marcel Carné, de 1946, no segundo ato.

O ritmo do primeiro ato é lento, valorizando as nuanças da atuação, com gestos contidos, palavras sussurradas e jogo minimalista - tanto das intérpretes quanto do encenador -, como se a direção fizesse um close-up do estado da alma das personagens. Na segunda parte, os papéis se invertem: as atrizes trocam de personagens. Para o crítico Valdi Coutinho, nesse ato, enfatiza-se o recurso à "mímica, com palavras pronunciadas de forma abafada pela máscara de expressão [...], que ora escondem, ora camuflam e até mesmo deturpam o verdadeiro sentido das falas. Seria [...] a liberação das personagens e das circunstâncias levadas às últimas consequências do deboche e do histrionismo".1 Instaura-se, portanto, uma atmosfera cômica que redireciona o tônus da encenação, acelerando-lhe o ritmo. Tanto no primeiro quanto no segundo ato, valoriza-se a linguagem corporal, com marcações rigorosas, quase coreográficas.

A trilha sonora é pontuada, no primeiro ato, pela canção As Time Goes By, de Herman Hupfeld, música-tema do filme Casablanca, que também conclui esse ato. No segundo, ela é baseada em cançonetas napolitanas da Idade Média e do Renascimento, que também ajudam a imprimir um ritmo aligeirado e um clima farsesco ao espetáculo.

Quanto à cenografia, no primeiro ato, ela se resume a um biombo ao estilo art déco, uma mesa nua e duas cadeiras. No biombo, há o desenho de um labirinto, que remete ao labirinto de Cnossos. Tudo em tons claros e escuros, inclusive o figurino das atrizes - enquanto a Sra. X usa um vestido negro de detalhes cobreados, a Srta. Y veste uma indumentária em tom pérola, quase branco. A predominância de um visual ao mesmo tempo passadista e futurista, a partir da referência à cultura pop dos anos 1980, imprime ao espetáculo paradigmas e atitudes da pós-modernidade.

No segundo ato, o cenário é basicamente o mesmo, porém variam as cores: as atrizes jogam uma cortina em tons cinza e rosa, com motivos florais costurados no tecido, por cima do biombo, e vê-se uma máscara no ângulo esquerdo da quina desse móvel. A mesa e as cadeiras também são recobertas por uma toalha no mesmo estilo da cortina. O figurino muda para um estilo barroco, caracterizando o espetáculo como uma mascarada de ópera-bufa. Na verdade, a segunda parte da peça funciona como uma espécie de paródia da primeira.

Antes de encerrar sua trajetória, A Mais Forte se apresenta no Teatro Lima Penante, em João Pessoa, e no Teatro Valdemar de Oliveira, no Recife, no 2º Festival Brasileiro de Teatro Amador, como representante do estado de Pernambuco.

O professor e dramaturgo Paulo Vieira descreve o espetáculo: "As atrizes se comportam como se fossem um espelho e a sua imagem. Uma fala, a outra nada diz, mas no entanto reflete em sua gestualidade a fala da outra. A que cala traduz a gradação emocional da que fala. Uma tem a voz, a outra tem o gesto. A peça é um constante diálogo entre o som e o silêncio, como se fosse a ressonância de um eco, a voz que volta no espaço vazio. Na tensão deste diálogo a que cala é a imagem da que fala em seu espelho. Este espelho é a diferença entre uma e outra personagem".2

Notas
1. COUTINHO, Valdi. Strindberg: novo e forte. Diario de Pernambuco, Recife, [s.p.], jul. 1984.

2. VIEIRA, Paulo. Grande anatomia. João Pessoa, p. 3, 3 jun. 1984. [Texto inédito. Acervo Carlos Bartolomeu].

 

Ficha Técnica

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Autoria
August Strindberg

Tradução
João Marschner

Adaptação
Carlos Bartolomeu

Direção
Carlos Bartolomeu

Cenografia
João Denys

Figurino
João Denys

Iluminação
Sulamita Ferreira

Maquiagem
João Denys

Trilha sonora
Carlos Bartolomeu

Elenco
Augusta Ferraz / Sra. X; Srta. Y
Magdale Alves / Srta. Y; Sra. X

Produção executiva
Augusta Ferraz

Fontes de pesquisa 8

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  • ALVAREZ, Enéas. A mais forte - crítica. Jornal do Commercio, Recife, [s.p.], 19 jun. 1984.
  • CADENGUE, Antonio. Pequena cirurgia. Correio das Artes, João Pessoa, p. 10, 24 jun. 1984.
  • CASA DE ÓPERA CORPORAÇÃO ARTÍSTICA. A mais forte. Direção Carlos Bartolomeu. Recife, Teatro de Santa Isabel, maio/jun. 1984.
  • CAVALCANTI, Medeiros. A mais forte. Jornal do Commercio, Recife, [s.p.], 9 jun. 1984.
  • COUTINHO, Valdi. Strindberg: novo e forte. Diario de Pernambuco, Recife, [s.p.], jul. 1984.
  • MACHADO, Lúcia. A Modernidade no Teatro - Ali e Aqui - Reflexos Estilhaçados. Vol. III. Monografia (Especialização em Artes Cênicas). Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística, Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1986. p. 237-406.
  • MOSTAÇO, Edélcio. A surpreendente dupla articulação da arte. 1984. [Texto inédito. Acervo Carlos Bartolomeu].
  • VIEIRA, Paulo. Grande anatomia. João Pessoa, 3 jun. 1984. [Texto inédito. Acervo Carlos Bartolomeu].

Como citar

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