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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Decameron

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 15.02.2016
18.06.1993 Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre – Teatro Renascença
Montagem do grupo gaúcho Cia. Teatro di Stravaganza, com direção de Luiz Henrique Palese, Decameron é uma adaptação da obra homônima do italiano Giovanni Boccaccio.

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Histórico

Montagem do grupo gaúcho Cia. Teatro di Stravaganza, com direção de Luiz Henrique Palese, Decameron é uma adaptação da obra homônima do italiano Giovanni Boccaccio.

O livro parte da devastadora peste bubônica que assola a Europa em meados do século XIV. Apresenta dez jovens, sete mulheres e três homens, que trocam Florença pelo campo, para evitar o contágio e fugir do embrutecimento da sociedade. Longe da cidade, o grupo passa o tempo contando histórias recheadas de amor e sexo, num período de dez dias.

A versão da Cia. Stravaganza reúne sete contos encenados por uma suposta companhia teatral formada por quatro atores saltimbancos. O roteiro da peça começa e termina sob o signo da peste. Em cena, a morte e os efeitos da epidemia são representados por meio de bonecos criados por Mário de Ballenti e Paulo Balardin. Num ambiente de dor, a trupe celebra os prazeres da vida para superar o lado trágico da existência. Porta-vozes do entretenimento, os saltimbancos transformam-se, diante do público, nos diversos personagens das histórias, como o camponês que se finge de jardineiro mudo no convento de freiras; a bela mulher transformada em égua por ação de um feitiço; os indivíduos que passam o tempo tratando de mandar o diabo ao inferno; a moça que mente aos pais para passar uma noite de sexo com o namorado; o amante no barril; e os dois casais que dividem muito mais que a amizade. Segundo Julio Novoa, Decameron propõe "não só anedotas picantes, mas sim um painel sociológico de sua época, atacando hipocrisias e costumes, denunciando privilégios".1

O cenário é uma grande carroça no estilo das companhias mambembes, com portas frontais que se abrem, formando o palco com proscênio, interior e teto-terraço. O crítico Marcos Savini destaca que "graças a um inventivo jogo de portinholas, encaixes e uma escada embutida, o carroção assume ares de convento, palácio ou de casa modesta - de acordo com as necessidades do conto encenado".2

Com objetivo de manter a sonoridade original, o espetáculo é totalmente falado em italiano. O conteúdo das narrativas torna-se mais claro pelo uso de recursos gestuais e corporais, com foco na ação dos personagens. Alberto Guzik (1944-2010) afirma que a opção pelo idioma não perturba em nada a compreensão da peça por dois motivos: "Em primeiro lugar porque o texto foi bem adaptado do italiano quase medieval de Bocccaccio por uma linguagem coloquial e próxima do português. Em segundo, porque a interpretação do quarteto de atores é certeira e precisa. Seguros na mímica, eles são capazes de fazer o público entender não só o texto como as nuanças expressadas pelo autor".3

O figurino rústico completa o clima boccacciano: as roupas que deixam em evidência parte dos corpos dos atores e podem ser rapidamente despidas. Sexo e humor são apresentados sem apelação ou constrangimento pela trupe. De acordo com Alfredo Goldestein, "a aposta de Luiz Henrique Palese se nutre dos mínimos espaços, procura que o elenco festeje, sem medos, a veneração da carne, enquanto os desnudos vão surgindo da estrita ação, porque se trata de revelar o que na sua época era pecado: glorificar um corpo que o Renascimento vai exibir sem dissimulação".4 Savini completa: "Quando estão despidos nas cenas de sexo, é como se estivessem perguntando 'o que é sexo? O que é ficar nu?' - tamanha é a naturalidade e a integração da sexualidade com as intenções do espetáculo". Barbara Heliodora salienta que os quatro elementos do elenco estão inteiramente à vontade e que "o espetáculo tem o humor da ironia, tem riso inteligente, usa fartamente o sexo e a nudez como instrumentos perfeitamente válidos, totalmente integrados na linguagem dos contos".5

Grupo que inicia suas atividades em 1988, a Cia. Teatro di Stravaganza caracteriza-se pela pesquisa de técnicas diversas de atuação. O objetivo é atingir uma comunicação direta com a plateia pela experimentação de estilos não naturalistas com elementos da commedia dell'arte, clown e o jogo de máscaras. Decameron estreia no Teatro Renascença, em Porto Alegre, com os atores Adriane Mottola, Angélica Borges, Marcelo Fagundes e Roberto Oliveira.

A peça faz temporadas em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Buenos Aires, Montevidéu, e na cidade do Porto, em Portugal. Participa dos festivais de teatro de Curitiba, Paraná, e de Campina Grande, na Paraíba. Conquista o Prêmio Açorianos 1993, concedido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, nas categorias de melhor espetáculo, melhor diretor, ator coadjuvante (Roberto Oliveira) e atriz coadjuvante (Angélica Borges), e o Prêmio Florêncio Sánchez de melhor espetáculo estrangeiro de 1995, outorgado pela Asociación de Críticos Teatrales del Uruguay.

Notas
1. NOVOA, Julio. Jornal La Mañana, Montevidéu, 21 jan. 1995

2. SAVINI, Marcos. Jornal de Brasília, Brasília, 09 set.1994

3. GUZIK, Alberto. Jornal da Tarde, São Paulo, 25 fev.1994

4. GOLDSTEIN, Alfredo. Jornal Brecha, Montevideo, 20 jan.1995.

5. HELIODORA, Barbara. O Globo, Rio de Janeiro, 16 jan.1994.

 

Ficha Técnica

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Fontes de pesquisa 5

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  • GOLDSTEIN, Alfredo. Jornal Brecha, Montevideo, 20 jan. 1995.
  • GUZIK, Alberto. Jornal da Tarde, São Paulo, 25 fev. 1994.
  • HELIODORA, Barbara. Uma divertida anomalia em italiano. O Globo, Rio de Janeiro, 16 jan. 1994. Matutina, Segundo Caderno, p.15.
  • NOVOA, Julio. Jornal La Mañana, Montevidéu, 21 jan. 1995.
  • SAVINI, Marcos. Jornal de Brasília, Brasília, 09 set. 1994.

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