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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

A Maldição do Vale Negro

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 02.10.2015
09.05.1986 Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre – Clube de Cultura
Encenação de Luiz Arthur Nunes (1946), para o Teatro Vivo, de texto de sua autoria em parceria com Caio Fernando Abreu (1948-1996). A proposta resgata criticamente o melodrama, gênero dramático que reina no século XIX e, posteriormente, nas novelas de rádio e televisão. Um esboço desse espetáculo transparece em algumas cenas de Sarau das Nove às...

Texto

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Histórico

Encenação de Luiz Arthur Nunes (1946), para o Teatro Vivo, de texto de sua autoria em parceria com Caio Fernando Abreu (1948-1996). A proposta resgata criticamente o melodrama, gênero dramático que reina no século XIX e, posteriormente, nas novelas de rádio e televisão. Um esboço desse espetáculo transparece em algumas cenas de Sarau das Nove às Onze, também escrita em parceria com Caio Fernando Abreu e montado por Luiz Arthur Nunes em 1976, com o Grupo de Teatro Província.

A história é sobre uma órfã criada num castelo, sob o rígido controle do tio, o velho Conde Maurício, e da governanta, ambos personagens que guardam um segredo que pode mudar a vida da garota. A jovem é seduzida pelo Marquês D'Allençon, credor da hipoteca do conde. Quando o tio descobre o relacionamento dos dois, expulsa a menina do castelo e lança as mais terríveis maldições sobre ela. No acampamento de ciganos onde é acolhida, a pobre órfã descobre seu passado e os segredos que envolvem o Vale Negro. Ambientada no século XIX, a ação dramática se passa em 1834 e utiliza características do gênero melodramático, como o sofrimento e o final feliz.

Na montagem, protagonizada por Mirna Spritzer (1957), em elogiada e premiada atuação, o melodrama é levado a sério, sem deboche, e com todos os ingredientes comuns aos dramas do gênero: o escapismo, o maniqueísmo, o simplismo e a intervenção decisiva da providência divina. O gênero ultrapassado, como técnica de atuação, é resgatado com um olhar contemporâneo e uma temática mais ousada do que a habitualmente tratada pelo melodrama. Nas palavras de Flávio Mainieri, o texto e a montagem "são perpassados por traços indeléveis de outros textos, como os da pós-modernidade".1

A encenação utiliza não só os clichês do texto, mas também cenários, figurinos e adereços de época, tentando recuperar a forma usada no tempo em que o melodrama predomina nos teatros. Os três ambientes em que transcorre a narrativa são recriados por telões reversíveis, pintados em perspectiva, dando forma aos castelos, paisagens, criptas e corredores em que as personagens vivem suas angústias e glórias.

A representação tem um tom exacerbado e emocional, levando os atores a reconstituir as atuações dos grandes atores do melodrama. O diretor comenta que a encenação é carregada de inflexões vocais, gesticulações enfáticas e cenas de violência, e que "apesar da peça ser uma paródia do gênero, o comportamento cênico está longe do deboche. Os atores trabalham com seriedade, acontece que como se está lidando com uma acumulação de clichês, muitas vezes o espetáculo provoca o riso".2

Sobre a encenação, o crítico Cláudio Heemann (1930-1999) observa que o "resultado é excelente. Uma piada intelectual do melhor nível, apresentada com capricho. A direção de Luiz Arthur mostrou-se inspiradíssima ao criar uma sugestão divertida do artificialismo da ópera, com telões pintados, figurinos fantasiados e poses enfáticas. [...] O resto fica por conta da habilidade do elenco, cujos integrantes jogam-se com alma no trapézio sem rede de agudos dós-de-peito interpretativos. Valquíria Peña, como a cigana, merece o elogio maior. Ela consegue o impossível, dá veracidade sem caricatura, a um tipo que não passa de um deslavado chavão. Ida Celina defende o papel com força e a beleza de uma grande primadona, realizando o pastiche da ária-clímax de uma soprano coloratura. Sua entrada em cena, pelo alçapão, é um golpe de teatro digno do 'grandguinol'. Mirna Spritzer é outra intérprete com destaque especial. Ela parece a típica órfã-na-tempestade dos primeiros anos do cinema mudo. Uma heroína à maneira de Lilian Bish, que ela faz com elaborada composição".3

Em sua crítica, Yan Michalski (1932-1990) compara a produção do Teatro Vivo ao que de melhor se faz no eixo Rio-São Paulo: "Os autores Caio Fernando Abreu e Luiz Arthur Nunes mergulharam fundo na herança cultural do melodrama clássico, e escreveram um espirituoso texto que reúne, despudoradamente, vários dos mais batidos clichês e arquétipos do gênero. E Luiz Arthur encenou esse texto com a maior seriedade e com total respeito às convenções do seu anacrônico estilo cênico. Essa seriedade e esse respeito produziram, é claro, um resultado de notável poder cômico".4

Notas
1. MAINIERI, Flávio. A maldição do vale negro e os outros textos. In: Teatro: textos e roteiros. Porto Alegre: IGEL / IEL, 1988.

2. BARBOSA, Luiz Carlos. Explosão de riso na volta do melodrama. Gazeta Mercantil Sul, Porto Alegre, 9 maio 1986.

3. HEEMANN, Cláudio. A maldição..., melodrama divertido. Zero Hora, Porto Alegre, 23 maio 1986.

4. MICHALSKI, Yan. 1º Encontro Renner de Teatro. Boletim Informativo do Inacen, ano II, no 5, p. 9, 1986.

 

Ficha Técnica

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Autoria
Caio Fernando Abreu
Luiz Arthur Nunes

Direção
Luiz Arthur Nunes

Cenografia
Alziro Azevedo

Figurino
Alziro Azevedo

Iluminação
João Acir

Trilha sonora
Wesley Coll

Elenco
Antônio Carlos Brunet / A Maldição do Vale Negro
Bira Valdez / A Maldição do Vale Negro
Breno Ruschel / A Maldição do Vale Negro
Graça Nunes / A Maldição do Vale Negro
Ida Celina / A Maldição do Vale Negro
Mirna Spritzer / A Maldição do Vale Negro
Raul Machado / A Maldição do Vale Negro
Valquíria Peña / A Maldição do Vale Negro

Fontes de pesquisa 12

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  • ABREU, Caio Fernando e Luiz Arthur Nunes. A maldição do vale negro. Porto Alegre, IGEL / IEL, 1988.
  • BARBOSA, Luiz Carlos. Dois núcleos confirmam uma receita de sucesso. Gazeta Mercantil Sul, Porto Alegre, 23 de mai. 1986.
  • BARBOSA, Luiz Carlos. Explosão de riso na volta do melodrama. Gazeta Mercantil Sul. Porto Alegre. 9 maio 1986.
  • BARBOSA, Luiz Carlos. O melodrama revivido com o apelo da emoção. Gazeta Mercantil Sul. Porto Alegre. 24 abril 1986.
  • HEEMANN, Cláudio. A Maldição..., melodrama divertido. Zero Hora. Porto Alegre. 23.05.1986.
  • HEEMANN, Cláudio. Um melodrama como manda o figurino. Zero Hora. Porto Alegre. 9.05.1986.
  • HOHLFELDT, Antonio. Como a melhor receita de folhetim romântico. Gazeta Mercantil Sul. Porto Alegre. 16.05.1986.
  • KHALED, Maria Luiza. Melodrama transformado em comédia. Correio do Povo. Porto Alegre. 19.05.1986.
  • LULKIN, Angela. Perfeita maldição. Jornal do Comércio. Porto Alegre. 16.05.1986.
  • MAINIERI, Flávio. A maldição do vale negro e os outros textos. In; Teatro: textos e roteiros. Porto Alegre, IGEL / IEL, 1988.
  • MICHALSKI, Yan. 1º Encontro Renner de Teatro. Boletim Informativo do INACEN - ano II, no 5. p. 9. 1986.
  • RIBEIRO, Célia. Difícil obter material para figurino de época. Zero Hora. Porto Alegre. 8.05.1986.

Como citar

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