Artigo da seção eventos Roda Viva

Roda Viva

Artigo da seção eventos
Teatro  
Data de inícioRoda Viva: 22-05-1968
Local de realização: (Brasil / São Paulo / São Paulo)
Tipo do evento: espetaculo | Classificação do evento: a classificar
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Registro fotográfico Derly Marques

Primeira obra para teatro escrita por Chico Buarque (1944), Roda Viva é uma comédia musical em dois atos e título da canção que dá nome à peça. Estreia no Rio de Janeiro, em 1968, como uma crítica contundente à sociedade de consumo e à violência institucional. Lançada no ano de acirramento da censura praticada pela ditadura civil-militar brasileira, é considerada um marco da luta artística por liberdade de expressão.

O enredo acompanha a transformação de Benedito da Silva, um cidadão comum, em Ben Silver, ídolo pop fabricado na esteira do sucesso dos festivais de música e da crescente massificação cultural, que submete os corpos à roda viva das engrenagens capitalistas. Ben Silver é lançado como cantor de iê-iê-iê (rock), mas aderindo às novas tendências, transforma-se em compositor engajado, rebatizado de Benedito Lampião, até ser descartado pela indústria de entretenimento e substituído pela namorada Juliana, que adere à Tropicália.

Na estreia, Heleno Prestes e Marieta Severo (1946) são os protagonistas, orientados na expressão corporal pelo coreógrafo Klauss Vianna (1928-1992). Na segunda temporada, Rodrigo Santiago (1942-1999) e Marília Pêra (1943-2015) assumem as personagens Ben e Juliana. O elenco ainda traz Paulo César Pereio (1940), como Mané, e mais de uma dezena de integrantes do coro, entre eles os então estreantes Zezé Motta (1944) e Pedro Paulo Rangel (1948).

O cenógrafo e figurinista Flávio Império (1935-1985) cria, no palco em semicírculo, um estúdio de televisão com uma estátua de São Jorge e ícones da cultura pop, uma paródia à religião católica e à comunicação de massa. Uma passarela faz o palco avançar em direção à plateia, à maneira de um show de rock.

A direção de José Celso Martinez Corrêa (1937) radicaliza a proposta tropicalista apresentada um ano antes em O Rei da Vela1. Investida de uma estética grotesca, o diretor faz uma crítica feroz e debochada à sociedade de consumo e à violência das instituições. 

O espetáculo mobiliza debates e torna-se alvo de perseguição política por desafiar, com despudor e selvageria, a moral burguesa, baseada em valores cristãos e capitalistas, como a família e a propriedade. A estrutura musical, marcante como forma de oposição política no show Opinião (1964), dirigido por Augusto Boal (1931-2009), é retomada para realizar uma crítica à indústria fonográfica, em expansão no país.

Em termos de linguagem, a obra se destaca por ampliar as possibilidades da cena para além da representação tradicional. Em busca de abertura da forma teatral, a peça propõe intensificar a presença dos corpos no aqui e agora do acontecimento cênico. Há uma relação mais próxima e direta com o público, sob influência da performance art. Em sintonia com a virada performática das artes na Europa e nos Estados Unidos, a encenação se desprende do texto e sobrepõe a ação à representação.

Para o músico Caetano Veloso (1942), “Roda Viva não explicitava considerações políticas. Seu escândalo nascia da selvageria de sua linguagem cênica. Numa cena que se dava em meio à plateia, um coro de atores representava a turba fanática que queria tocar no seu ídolo. Zé Celso levava a ação dos fãs até o canibalismo”2. Durante essa cena de devoração de um fígado de boi cru, metáfora do coração do artista, era comum o sangue espirrar no público.

Esses aspectos formais inovadores procuram chamar a atenção não apenas para o enredo e os personagens, mas também para a energia pulsional dos corpos presentes. Esse recurso é explorado a partir da materialidade da carne – a seminudez de alguns artistas e a exposição do fígado de boi – e se evidencia também a partir das improvisações do coro e da maior proximidade da cena com o público. 

Esses procedimentos provocam a quebra de convenções que sustentam a ilusão teatral, exemplificada pelo avanço dos atores, de modo provocativo, em direção aos espectadores, exacerbando atitudes para levá-los a uma tomada de posição. As reações da crítica foram de admiração e choque. A violência da linguagem e da interação com o público leva Anatol Rosenfeld (1912-1973) a cunhar a expressão “teatro agressivo” para peças como Roda Viva, provocando discussões sobre o valor da irracionalidade e a satisfação do público que se permite ser agredido.

A temporada de estreia no Teatro Princesa Isabel acirra os ânimos de alguns grupos conservadores, que reagem com agressões aos artistas e destruição do cenário. Cenas como a simulação de sexo com uma câmera pela atriz, que depois se torna uma Nossa Senhora de bobes nos cabelos, são repudiadas por agentes de censura como degradantes e subversivas.

Em São Paulo, na noite de 18 de julho de 1968, no Teatro Ruth Escobar, a sala Galpão é invadida por um grupo de vinte homens do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que depredam o espaço, agridem os artistas e destroem equipamentos3. Em setembro do mesmo ano, em Porto Alegre, os atores são brutalmente agredidos no hotel onde estão hospedados, e a peça é censurada.

Por décadas, Chico Buarque não autoriza novas montagens da peça. Em 2018, entretanto, José Celso obtém autorização do compositor para que o Teatro Oficina Uzyna Uzona faça a remontagem do musical. A nova versão mantém a crítica política, mas a agressividade dirigida ao público dá lugar a uma conjunção celebratória.

Roda Viva é testemunho da violência política contra as artes e importante ponto de germinação da estética que o Teatro Oficina desenvolve nas décadas seguintes. A peça abre caminho para a aproximação entre a linguagem do teatro e a linguagem da performance, além de radicalizar as possibilidades de enfrentamento das instituições e de subversão dos costumes nos palcos.

Notas

1. FARIA, J. R. (Dir.). História do Teatro Brasileiro, Volume 2: Do Modernismo às Tendências Contemporâneas. São Paulo: Perspectiva: Edições Sesc, 2013, p. 204.

2. VELOSO, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 385.

3. FARIA, J. R. (Dir.). História do Teatro Brasileiro, Volume 2: Do Modernismo às Tendências Contemporâneas. São Paulo: Perspectiva: Edições Sesc, 2013, p. 215.

Ficha Técnica do evento Roda Viva:

Fontes de pesquisa (11)

  • FARIA, J. R. (dir.). História do Teatro Brasileiro, Volume 2: Do Modernismo às Tendências Contemporâneas. São Paulo: Perspectiva: Edições Sesc, 2013.
  • GALINDO, Rogério. “Depois de apanhar nua na ditadura, Marília Pêra pedia tolerância na política”. Gazeta do Povo, Curitiba, 5 dez. 2015. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/caixa-zero/depois-de-apanhar-nua-na-ditadura-marilia-pera-pedia-tolerancia-na-politica/. Acesso em: 21 set. 2019
  • GLOBO TEATRO. Bis!: ‘Roda Viva’ é um marco do teatro nacional. Globo Teatro, 13 set. 2013. Disponível em: http://redeglobo.globo.com/globoteatro/bis/noticia/2013/09/roda-viva-peca-de-chico-buarque-e-um-marco-do-teatro-nacional.html. Acesso em: 21 set. 2019
  • PECORELLI, Biagio. A pulsão performativa de Jaceguai: 50 anos de Roda Viva, 50 anos do “teatro agressivo”. Sala Preta, São Paulo, v. 18, n. 1, p. 55-71, 2018.

  • PIRES, Ericson. Zé Celso e a Oficina-Uzyna de Corpos. São Paulo: Annablume, 2005.
  • RUSSOMANO, M. F. Documento oficial enviado pelo Censor ao Departamento de Censura de São Paulo. São Paulo, 1968.
  • SÁ, Nelson. Censura a “Roda Viva” faz 30 anos amanhã. Folha de S.Paulo, São Paulo, 17 jul. 1998. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq17079832.htm. Acesso em: 21 set. 2019
  • SÁ, Nelson. Chico Buarque autoriza Zé Celso a remontar 'Roda Viva', mas falta dinheiro. Folha de S.Paulo, São Paulo, 29 abr. 2018. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/04/chico-buarque-autoriza-ze-celso-a-remontar-roda-viva-mas-falta-dinheiro.shtml. Acesso em: 21 set. 2019
  • SOUZA, Newton de. A Roda, a Engrenagem e a Moeda: Vanguarda e Espaço Cênico no Teatro de Victor Garcia no Brasil. São Paulo: Unesp, 2003.
  • TOLEDO, Paulo Bio. ‘Roda Viva' faz sátira mordaz da política e investe contra Bolsonaro. Folha de S.Paulo, 21 jan. 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/01/roda-viva-faz-satira-mordaz-da-politica-e-investe-contra-bolsonaro.shtml. Acesso em: 21 set. 2019
  • VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras,1997.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • RODA Viva. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento405843/roda-viva>. Acesso em: 18 de Nov. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7