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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

O Imperador Jones

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 11.08.2022
08.05.1945 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro – Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Espetáculo de estreia do Teatro Experimental do Negro (TEN), dirigido por Abdias do Nascimento (1914-2011) e baseado no texto do dramaturgo estadunidense Eugene O’Neill (1888-1953), O imperador Jones demarca a primeira produção teatral com artistas negros a se apresentar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1945. A iniciativa é precursora ...

Texto

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Espetáculo de estreia do Teatro Experimental do Negro (TEN), dirigido por Abdias do Nascimento (1914-2011) e baseado no texto do dramaturgo estadunidense Eugene O’Neill (1888-1953), O imperador Jones demarca a primeira produção teatral com artistas negros a se apresentar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1945. A iniciativa é precursora também na proposição de um teatro feito a partir de vivências e da intelectualidade negra brasileira, em um movimento de conscientização cultural e política contra a exclusão histórica no país.

Formado por Abdias do Nascimento, Aguinaldo Camargo (1918-1952) e Ruth de Souza (1921-2019), entre outros pioneiros do teatro negro no país, o TEN entra em ação em 1944, com o projeto de inclusão social, cultural e política da população negra brasileira por meio de atividades formativas e criações artísticas. Reúne trabalhadores de diversas áreas, dentre eles, prestadores de serviços, como pintores e empregadas domésticas, e operários, além de profissionais graduados. Em seminários e cursos, com palestrantes convidados, debate caminhos para uma dramaturgia que expresse a perspectiva negra e antirracista em uma sociedade pós-abolição da escravidão, em que a cultura negra permanece invisibilizada.

A peça de Eugene O’Neill é escolhida para a primeira montagem do TEN, depois de o diretor assistir a uma representação protagonizada pelo ator argentino Hugo D’Evieri, do Teatro del Pueblo, maquiado com tinta para escurecer a pele, prática conhecida como blackface. Abdias do Nascimento decide criar uma produção feita por pessoas negras, com sua versão dos fatos, para grande público. No texto, ambientado no Haiti, um homem negro explorado por patrões nova-iorquinos foge após um assassinato e se torna imperador nas Antilhas, adotando uma postura cruel com o povo nativo, até a eclosão de uma revolta. Para o diretor, a peça condensa a experiência do negro no mundo dominado pelo branco, que, tendo o escravizado, liberta-o, atirando-o nos desvãos da sociedade.

A peça estreia em seção única na noite de 8 de maio de 1945. Com a pauta do Theatro Municipal esgotada, a data de apresentação é obtida por intervenção direta do então presidente Getúlio Vargas (1882-1954), o que Abdias considera um gesto insólito na cultura carioca. Para angariar recursos para a encenação, os artistas vendem antecipadamente ingressos e camarotes para elite. A autorização da montagem é concedida por O’Neill sem custos e o tradutor Ricardo Werneck de Aguiar transpõe o texto “com uma linguagem [...] viva e ajustada ao meio brasileiro”1. Desse modo, as dificuldades econômicas são contornadas para a estreia, embora não consigam estender a temporada.

Aguinaldo Camargo assume o papel de Brutus Jones, o protagonista, após se destacar em uma colaboração que o TEN fizera com o Teatro do Estudante do Brasil na encenação da peça Palmares (1944), com elenco negro. Ruth de Souza faz a única personagem feminina, em participação breve. A peça começa com um diálogo entre Jones e Smith, representado por Sadi Cabral (1906-1986), único ator não negro na montagem. As cenas seguintes mostram a crescente desordem mental do protagonista, em fuga pela floresta, perseguido por visões do passado, vozes, sombras, pesadelos e criaturas vivas, até morrer atingido por bala disparada por seus algozes. Um drama psicológico em que o medo se agrava até o terror alucinatório.

A expectativa em relação à estreia do TEN é de desconfiança por parte de intelectuais da época, que questionam o preparo de uma companhia iniciante para encenar a alta complexidade e carga dramática do texto de O’Neill, além da diferença de porte físico entre Camargo e o ator Paul Robeson (1898-1976), que havia representado Jones nos Estados Unidos. O descrédito se sustenta em uma hierarquização cultural racista e na crença no mito da democracia racial miscigenada.

Apesar disso, a recepção crítica, entusiasmada, considera O imperador Jones um acontecimento extraordinário no teatro brasileiro. Segundo o escritor Ascendino Leite (1915-2010), “nossa surpresa foi tanto maior quanto as dúvidas que alimentávamos relativamente à escolha do repertório que começava, precisamente, por incluir um autor da força e da expressão de um O'Neill. Augurávamos para o Teatro Experimental do Negro um redondo fracasso. E, no mínimo, formulávamos censuras à audácia com que esse grupo de intérpretes, quase todos desconhecidos, ousava enfrentar um público que já começava a ver no teatro mais do que um divertimento, uma forma mais direta de penetração no centro da vida e da natureza humana. Aguinaldo Camargo em O Imperador Jones foi, no entanto, uma revelação”.2

Com o teatro cheio, Aguinaldo Camargo conquista o envolvimento do público ao longo da apresentação. A direção de Abdias do Nascimento e os cenários de Enrico Bianco (1918-2013) também ganham notabilidade na imprensa. Comentários críticos exaltam as atuações com qualificativos como “instintivo”, “intuitivo” e “primitivismo”, que associam o desempenho de artistas negros a características consideradas inatas, por uma lógica de hierarquização racial. Exemplo disso é a observação do crítico literário Franklin de Oliveira (1916-2000), segundo o qual o TEN acerta em não “oferecer a uma plateia de gente branca, simples espetáculos de exotismo, levando à cena flagrantes de macumba e outras crendices nativas” e esquecendo “o lado pictórico do morro e da senzala”.3

Em um meio cultural segregador, o TEN encena um espetáculo histórico, que abre espaço para o reconhecimento da importância fundamental do teatro negro na cultura brasileira.

Notas

1. NASCIMENTO, Abdias. Teatro experimental do negro: trajetória e reflexões. Estudos avançados, São Paulo, v. 18, n. 50, p. 209-224, 2004. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ea/a/B8K74xgQY56px6p5YQQP5Ff/?lang=pt. Acesso em: 1 out. 2021.

2. SILVA, Júlio Cláudio da. Relações raciais, gênero e memória: a trajetória de Ruth de Souza entre o Teatro Experimental do Negro e o Karamu House (1945-1952). 2011. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2011. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/teses/Tese-2011_Julio_Claudio_Silva.pdf. Acesso em: 2 out. 2021.

3. LEÃO, Fernando Antônio Fontenele; MACENA FILHA, Maria de Lourdes. Teatro Experimental do Negro: contribuições ao teatro brasileiro. In: CONGRESSO NORTE NORDESTE DE PESQUISA E INOVAÇÃO, 7., 2012. Anais [...]. Tocantins: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Tocantins, 2012. Disponível em: https://propi.ifto.edu.br/ocs/index.php/connepi/vii/paper/view/1216. Acesso em: 1 out. 2021.

Ficha Técnica

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Autoria
Eugene O'Neill

Tradução
Ricardo Werneck de Aguiar

Direção
Abdias Nascimento

Cenografia
Bianco

Iluminação
Bianco

Trilha sonora
Abigail Moura

Elenco
Abdias Nascimento / Recita "Sempre o Mesmo", de Langston Hughes
Aguinaldo Camargo / Brutus Jones
Aguinaldo Camargo / Recita "Negro, Irmão Negro", de Regino Pedroso
Arinda Serafim / Velha Nativa
Fernando Oscar de Araujo / Jeff
Ilena Teixeira / Recita "Menina do Morro", poesia de Aladir Custódio
Ilena Teixeira / Recita "Negro, Irmão Negro", de Regino Pedroso
José da Silva / Feiticeiro do Congo
Natalino Dionísio / Lem
Sadi Cabral / Smithers

Fontes de pesquisa 5

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  • AGUINALDO Camargo. Ipeafro. Rio de Janeiro. Personalidades. Disponível em: https://ipeafro.org.br/personalidades/aguinaldo-camargo/. Acesso em: 1 out. 2021.
  • IPEAFRO. Peças e Espetáculos do Teatro Experimental do Negro: Fichas Técnicas. Rio de Janeiro, RJ, 2016, 15 p.
  • LEÃO, Fernando Antônio Fontenele; MACENA FILHA, Maria de Lourdes. Teatro Experimental do Negro: contribuições ao teatro brasileiro. In: CONGRESSO NORTE NORDESTE DE PESQUISA E INOVAÇÃO, 7., 2012. Anais [...]. Tocantins: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Tocantins, 2012. Disponível em: https://propi.ifto.edu.br/ocs/index.php/connepi/vii/paper/view/1216. Acesso em: 1 out. 2021.
  • NASCIMENTO, Abdias. Teatro experimental do negro: trajetória e reflexões. Estudos avançados, São Paulo, v. 18, n. 50, p. 209-224, 2004. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ea/a/B8K74xgQY56px6p5YQQP5Ff/?lang=pt. Acesso em: 1 out. 2021.
  • SILVA, Júlio Cláudio da. Relações raciais, gênero e memória: a trajetória de Ruth de Souza entre o Teatro Experimental do Negro e o Karamu House (1945-1952). 2011. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2011. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/teses/Tese-2011_Julio_Claudio_Silva.pdf. Acesso em: 2 out. 2021.

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