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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Pedro Mico

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 23.05.2016
10.09.1957 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Registro fotográfico Julio Agostinelli Em cena Milton Moraes (Pedro Mico), Haroldo de Oliveira (Zemédio) e Nicette Bruno (Aparecida)

Cena do espetáculo Pedro Mico, 1959
Julio Agostinelli
Acervo Idart/Centro Cultural São Paulo

Pequena peça de Antônio Callado, Pedro Mico estréia no Teatro Nacional de Comédia, em um espetáculo composto por outros dois textos: O Telescópio, de Jorge Andrade, e Jogo de Crianças, de João Bethencourt. Com cenário de Oscar Niemeyer e direção de Paulo Francis, é o espetáculo de maior êxito também da companhia.

Texto

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Histórico
Pequena peça de Antônio Callado, Pedro Mico estréia no Teatro Nacional de Comédia, em um espetáculo composto por outros dois textos: O Telescópio, de Jorge Andrade, e Jogo de Crianças, de João Bethencourt. Com cenário de Oscar Niemeyer e direção de Paulo Francis, é o espetáculo de maior êxito também da companhia.

Pedro Mico se passa no Morro da Catacumba e aborda a vida do favelado e do malandro carioca. Milton Moraes, no papel título, se empenha em um trabalho de composição que desperta elogios, mas também críticas ao exagero da fala e dos gestos. Décio de Almeida Prado comenta: "Milton Moraes é o protagonista, numa criação também altamente estilizada, como a própria peça, lembrando certos atores de 'musical' norte-americano que carregam nos traços para que se crie a necessária atmosfera de farsa. É uma caricatura, se quiserem, mas sem dar obrigato­riamente à palavra um sentido pejorativo. As vezes, Milton Moraes passa dos limites, no sentido de ir além do que estamos dispostos a conceder-lhe; outras vezes, com muito maior freqüência, extrai do papel excelentes efeitos, tanto na afetação quanto na pseudosimplicidade, criando uma personagem inteiramente artificial e nem por isso menos engraçada".1 Embora a montagem carregue demais no linguajar típico do malandro e recorra a atores brancos pintados de preto, para por em cena um texto que se pretende realista, Pedro Mico consegue a primeira boa repercussão da companhia.

O espetáculo é também pivô de um conflito entre a companhia e o então arcebispo-auxiliar do Rio de Janeiro Dom Hélder Câmara. Incomodado com a cena final, em que o povo conclama Pedro a liderar uma descida do morro para tomar as casas da Lagoa, bairro de classe média do Rio de Janeiro. Dom Hélder afirma, em entrevista ao jornal O Globo, que a peça coloca "tochas acesas nas mãos de 500 mil favelados" ao fazer uma analogia entre o protagonista e Zumbi, e declara achar "inconcebível que órgãos oficiais se mostrem tão solícitos em divulgar o apelo para o levante geral das favelas".2

A possibilidade de suspensão da temporada e a publicação da declaração do arcebispo-auxiliar dão origem a uma polêmica nos jornais. Respondendo simultaneamente a ele e às críticas à composição de Milton Moraes, Paulo Francis escreve um extenso artigo. Com seu estilo irônico, o diretor tenta provar o realismo de sua linguagem narrando sua amizade de juventude com um malandro preso por vários homicídios e afirmando que: "Os malandros de morro fazem coisas, assumem posturas e maneiras de andar, perto das quais Oscarito parece Alec Guinnes, em matéria de discrição".3

A crítica reconhece os méritos do texto e da direção - mas a montagem não chega a ganhar nem a contundência nem a dimensão supostas pela igreja. Yan Michalski, apesar de considerar Pedro Mico a mais bem realizada das três peças que compõem o espetáculo, escreve: "O cenário de Oscar Niemeyer, estilizadíssimo, é muito bonito, mas a nosso ver totalmente inadequado para a peça (...). Achamos que a direção teria obtido maior rendimento se não mantivesse toda a representação num tom violento, exacerbado. Três quartos de hora de gritaria e intensa movimentação cansam e terminam por não impressionar mais. Se Pedro Mico ficasse algumas vezes calmo, suas explosões e sua fúria causariam muito mais efeito".4

O crítico Paschoal Carlos Magno, do Correio da Manhã, ao contrário, aprova integralmente a realização, inclusive o cenário de Oscar Niemeyer, que "com meios simples, de grande vigor sintético e plástico, criou o ambiente daquele barraco plantado à beira de um precipício".5

Pedro Mico se torna um pequeno clássico da dramaturgia nacional e, pela repercussão de sua montagem de estréia, o espetáculo mais polêmico da companhia oficial brasileira.

Notas
1 PRADO, Décio de Almeida. Teatro em progresso. São Paulo: Martins, 1964, p. 128.
2 Citado por MICHALSKI, Yan; TROTTA, Rosyane. Teatro e estado: as companhias oficiais de teatro no Brasil: história e polêmica. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, 1992. p. 134.
3 FRANCIS, Paulo. Pedrinho Mico. Diário Carioca, Rio de Janeiro, 20 set. 1957.
4 MICHALSKI, Yan. Citado op. cit. p. 132.
5 MAGNO, Paschoal Carlos. Citado por op. cit. p. 133.

Ficha Técnica

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Autoria
Antonio Callado

Direção
Paulo Francis

Cenografia
Oscar Niemeyer

Figurino
Kalma Murtinho

Elenco
Beyla Genauer / Pedro Mico
Edson Silva / Pedro Mico
Fábio Sabag / Pedro Mico
Haroldo de Oliveira / Pedro Mico
Milton Moraes / Pedro Mico
Munira Haddad / Pedro Mico
Soriano / Pedro Mico

Obras 1

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Registro fotográfico Julio Agostinelli Em cena Milton Moraes (Pedro Mico), Haroldo de Oliveira (Zemédio) e Nicette Bruno (Aparecida)

Fontes de pesquisa 3

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  • MICHALSKI, Yan; TROTTA, Rosyane. Teatro e estado: as companhias oficiais de teatro no Brasil: história e polêmica. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, 1992. 235 p. (Teatro, 21).
  • PEDRO Mico. Rio de Janeiro: Funarte / Cedoc. Dossiê Espetáculos Artes Cênicas.
  • PRADO, Décio de Almeida. Teatro em progresso: crítica teatral, 1955-1964. São Paulo: Martins, 1964.

Como citar

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Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: