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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 02.10.2015
1960 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro – Teatro de Arena da Faculdade de Arquitetura da UFRJ
Registro fotográfico autoria desconhecida

A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar, 1960
Acervo Cedoc/FUNARTE

A montagem do texto de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), o Vianinha, sob direção de Chico de Assis (1933-2015), reúne artistas e intelectuais interessados em ampliar o alcance do teatro político no Brasil, com base em dois pressupostos: o de que é preciso compreender os mecanismos da exploração capitalista para superá-los e o de que o espetácul...

Texto

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Histórico

A montagem do texto de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), o Vianinha, sob direção de Chico de Assis (1933-2015), reúne artistas e intelectuais interessados em ampliar o alcance do teatro político no Brasil, com base em dois pressupostos: o de que é preciso compreender os mecanismos da exploração capitalista para superá-los e o de que o espetáculo teatral deve ser um instrumento de conscientização das massas. O projeto de levar o espetáculo a platéias populares dá origem ao Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes - UNE.

O texto de Vianinha, em versos rimados, procura despertar a reflexão crítica no público e, ao mesmo tempo, busca a popularização da linguagem. O didatismo da peça propõe uma teatralidade cômica das personagens e das situações. A ação se dá pela contraposição dos Desgraçados, representantes do proletariado, e dos Capitalistas, que personificam a classe dominante. D4, um dos Desgraçados, inicia um percurso investigativo de sua condição miserável, deparando-se com a explicação esclarecedora da origem do lucro e da mais-valia, ou seja, dos modos de exploração econômica; imagina uma situação exemplar que o faça vivenciar na prática essas relações e a partir dessa consciência, parte para a mobilização e o enfrentamento de seus opressores, rompendo a cadeia estabelecida, preconizando o fim do capitalismo e, conseqüentemente, da mais-valia.

O caráter experimental do espetáculo é reforçado pelos filmes selecionados e montados por Leon Hirszman e pela cenografia, que procura sugerir sinteticamente, com módulos, cada ambiente em que se passa a história. Na arena da Faculdade Nacional de Arquitetura - FNA, setenta atores constroem a plasticidade de uma cena sobrecarregada de informações, segundo a opinião do crítico Miguel Borges: "Nenhum espetáculo até hoje feito no teatro brasileiro foi mais exaustivo no uso de recursos de encenação do que A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar, de Oduvaldo Vianna Filho, sob a direção de Chico de Assis. Num aparente paradoxo, isso representa também seu principal defeito. O espetáculo permanece todo o tempo em um alto nível de competência. Houve um superesforço, da parte do diretor, que resultou numa composição plástica onde todos os tons são altos. É como uma peça musical feita quase inteiramente de acordes onde a orquestra em peso entra com toda a carga. (...) Vianna escreveu a peça para empolgar o espectador pela revelação da mais-valia. Se o espetáculo empolga, porém, é pela beleza plástica. (...) A equipe de intérpretes do Teatro Jovem é a mais eficiente que já vimos no Rio, no plano do amadorismo. Só mesmo atores livres de vícios e maneiras de interpretar poderiam ter rendido tanto sob o comando do diretor, (...) permitindo-lhe utilizar cada componente como uma parte do todo plástico. O trabalho de Francisco de Assis exigiu de cada ator uma grande maleabilidade, pois a direção varia entre o circense (cena dos barbeiros) e o dramático (cena da greve) (...)".1

Há, na encenação do texto de Vianinha, uma confluência de diversos grupos e uma coincidência de ações que marcarão o nascimento do CPC. O espetáculo inaugura uma nova política de ocupação do teatro da FNA por intermédio de um convênio entre o Diretório Acadêmico e o Teatro Jovem. Recém-fundado e ainda sem nenhum espetáculo no currículo, o grupo decide dedicar o ano de 1960 a uma "fase experimental". No Teatro de Arena, de onde acabara de sair Vianinha, as discussões do Seminário de Dramaturgia haviam chegado a um impasse: as aspirações políticas mais abrangentes não cabiam na prática do Arena e nem na pequena sala de seu teatro. Chico de Assis, ao sair do Teatro de Arena, decide estrear como diretor com o texto de Vianinha, de cuja elaboração havia participado no Seminário de Dramaturgia. É Carlos Estevam Martins, aluno do Instituto Social de Estudos Brasileiros - ISEB, quem auxilia o grupo dissidente do Arena - Flavio Migliaccio, Nelson Xavier, Chico de Assis, Vera Gertel e Milton Gonçalves, liderados por Oduvaldo Vianna Filho - na compreensão das questões econômicas didaticamente apresentadas em A Mais-Valia. A idéia de formar um grupo que, rompendo com as barreiras do teatro convencional, percorresse sindicatos, fábricas e periferias encontra, entre os estudantes, as bases concretas para sua realização. O projeto atendia aos anseios do Teatro Jovem, como escreve o diretor artístico, Kleber Santos, no programa do espetáculo: "...cabe aos novos grupos ampliar os horizontes de penetração do teatro, pois esse novo teatro a ser feito já não mais representará uma atividade de diversão ou de cultura em âmbitos limitados. Será sim uma atividade social da maior amplitude (...). E para o Teatro Jovem significará a primeira prática de uma de nossas diretrizes teóricas: o teatro popular".2

A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar é o primeiro de uma série de textos em que Vianinha procura unir teatralidade e didatismo, reunindo propostas cênicas e políticas de Bertolt Brecht e Erwin Piscator. É também o primeiro espetáculo do Teatro Jovem, grupo que depois transforma sua sede em lugar de encontros e discussão, ponto de partida para a fundação do CPC.

Notas

1 BORGES, Miguel. Ainda a Mais-Valia. Estado da Guanabara, Rio de Janeiro, 7 ago. 1960.

2 A MAIS-VALIA VAIA ACABAR, SEU EDGAR. Direção Francisco de Assis; texto Kleber Santos. Rio de Janeiro, 1960. 1 folder. Programa do espetáculo, apresentado no Teatro de Arena da Faculdade de Arquitetura da UFRJ em 1960.

Ficha Técnica

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Autoria
Oduvaldo Vianna Filho

Direção
Chico de Assis

Cenografia
Kléber Santos

Iluminação
Jorge Levi
Rafael Mario

Direção musical
Allan Vianna

Trilha sonora
Carlos Lyra

Elenco
Alberto Reis / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Allan Vianna / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Angelo Antônio / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Arthur Maia / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Heleno Prestes / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Ignes Maia / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Joel Ghivelder / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Kléber Santos / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Marília Martins / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Mauro Martins Ribeiro / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Moysés Ghivelder / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Paulo Hime / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Pedro de Camargo / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Sylvia Granville / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Vera de Sant'anna / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar
Zelinda Paes de Souza / A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar

Obras 1

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Fontes de pesquisa 4

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  • A MAIS-VALIA vai acabar, Seu Edgar. Rio de Janeiro: Funarte / Cedoc. Dossiê Espetáculos Teatro Adulto.
  • BARCELOS, Jalusa. CPC da UNE: uma história de paixão e consciência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
  • BETTI, Maria Silvia. Oduvaldo Vianna Filho. São Paulo: Edusp: Fapesp, 1997. (Coleção Artistas Brasileiros).
  • MOSTAÇO, Edelcio. Teatro e política: Arena, Oficina e Opinião. São Paulo: Proposta, 1982.

Como citar

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