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Teatro

A Falecida

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 16.07.2021
08.06.1953 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro – Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Primeira montagem do texto de Nelson Rodrigues (1912-1980), espetáculo de estréia da Companhia Dramática Nacional, subvencionada pelo Serviço Nacional de Teatro, em 1953.

Texto

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Primeira montagem do texto de Nelson Rodrigues (1912-1980), espetáculo de estréia da Companhia Dramática Nacional, subvencionada pelo Serviço Nacional de Teatro, em 1953.

A peça narra a vida de Zulmira, mulher de classe média baixa, figura típica dos papéis femininos do universo rodriguiano. Tuberculosa, julga-se perto da morte e planeja obsessivamente os detalhes de seu próprio enterro. Em seus delírios, vê-se perseguida pela prima Glorinha, que subitamente deixara de falar com ela. No leito de morte, pede ao marido, Tuninho, um enterro de luxo, para que a prima morra de inveja. Zulmira o instrui a procurar um certo homem para custear o funeral. Mais adiante, este se revela amante de Zulmira, sendo este o motivo do rompimento com Glorinha, que a surpreendera junto ao amante. Tuninho força o amante a lhe dar o dinheiro determinado por Zulmira, mas, ao invés de usá-lo no enterro, gasta tudo no jogo, festejando a morte da mulher que o traíra em vida.

 As interpretações de Sergio Cardoso (1925-1973) no papel de Tuninho e de Sônia Oiticica (1918-2007) como Zulmira estão entre os principais destaques do espetáculo. A concepção cenográfica de Tomás Santa Rosa (1909-1956) constrói diversos planos sobre os quais objetos de diferentes formatos e cores criam ambientes plásticos, possibilitando ao diretor simultaneidade e ritmo.

As críticas da época mostram que, dez anos depois do grande acontecimento que foi a estréia de Vestido de Noiva, o estilo dramatúrgico de Nelson Rodrigues ainda não havia sido assimilado. O autor reconhece que sua história caminha para "um pessimismo surdo e vital" e que ele "faz questão de uma tristeza intransigente, como se alegria fosse uma leviandade atroz"1. Os críticos reconhecem a qualidade da encenação de José Maria Monteiro (1923-2010) e louvam com entusiasmo a cenografia de Tomás Santa Rosa, mas rechaçam as idéias do autor, mostrando-se escandalizados com sua linguagem e revoltados com sua obra.

O crítico de O Jornal condena José Maria Monteiro, o diretor da companhia, pela escolha do texto em que vê brutalidade, grosseria e uma busca vazia pelo escabroso. Segundo ele, "A sua peça parece um prato muito enfeitado, tendo no fundo um bife duro e sem paladar. É a história, em que não há uma estrutura dramática, nem preparo cênico, nem caracterização dos personagens. Um 'fait-divers' dialogado em gíria, que não emociona nem interessa; o quotidiano mais rasteiro, que o autor não teve forças para elevar ao plano artístico e muito menos dramático, um folhetim que se transviou no palco (...) a procura mórbida do mórbido"2.

Segundo o crítico da Tribuna da Imprensa, "saiu-se impassível do teatro, apesar das interpretações empolgantes". Ele vê, na forma como Tuninho usa o dinheiro ao final, apenas a fraqueza de um jogador, e garante que não se compreende o ódio de Zulmira por Glorinha e que os fracassos e sonhos da protagonista "mereciam uma peça mais desenvolvida, menos forçada", já que as demais personagens, escritas como caricaturas, "estão na peça mais para criar um riso fácil que para desenvolver o fracasso final"3.

Em 1989, Antunes Filho encenará A Falecida, juntamente com Os Sete Gatinhos, também de Nelson, montagem intitulada Paraíso Zona Norte, um dos marcos do teatro paulista dos anos 80.

Notas

1. RODRIGUES, Nelson. Citado por MICHALSKI, Yan; TROTTA, Rosyane. Teatro e estado: as companhias oficiais no Brasil: história e polêmica. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, 1992. p. 82.

2. MELO, Renato Vieira de. Citado por Citado por MICHALSKI, Yan; TROTTA, Rosyane. Teatro e estado: as companhias oficiais no Brasil: história e polêmica. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, 1992. p. 84-85.

3. VINCENT, Claude. Citado por MICHALSKI, Yan; TROTTA, Rosyane. Teatro e estado: as companhias oficiais no Brasil: história e polêmica. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, 1992. p. 85-86.

Ficha Técnica

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Autoria
Nelson Rodrigues

Direção
José Maria Monteiro (Prêmio da Associação Brasileira de Críticos Teatrais - ABCT)

Cenografia
Santa Rosa

Figurino
Santa Rosa

Elenco
Agostinho Maravilha / A Falecida
Aurimar Rocha / Oromar
Edson Batista / A Falecida
Gusta Gamar / A Falecida
Guy Welder / A Falecida
José Araújo / 2º Homem
Lauro Simões / A Falecida
Leonardo Villar / A Falecida
Leste Iberê / A Falecida
Luiz Oswaldo / A Falecida
Luiza Barreto Leite / A Falecida
Maria Elvira / A Falecida
Marina Lelia / A Falecida
Miriam Roth / A Falecida
Orlando Macedo / A Falecida
Renato Restier / A Falecida
Sergio Cardoso / A Falecida
Sônia Oiticica / A Falecida
Waldir Maia / A Falecida
Walter Gonçalvez / A Falecida

Fontes de pesquisa 4

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  • A Falecida. Rio de Janeiro: Funarte / Cedoc. Dossiê Espetáculos Artes Cênicas.
  • MELO, Renato Vieira de. 'A Falecida'. O Jornal, Rio de Janeiro, 10 jun. 1953.
  • MICHALSKI, Yan; TROTTA, Rosyane. Teatro e estado: as companhias oficiais de teatro no Brasil: história e polêmica. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, 1992. 235 p. (Teatro, 21).
  • VINCENT, Claude. 'A Falecida'. Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 10 jun. 1953.

Como citar

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