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Teatro

Bugiaria - O Processo de João Cointa

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.02.2016
03.12.1999 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro – Teatro Glauce Rocha
Com dramaturgia formada por fragmentos de documentos históricos, Moacir Chaves (1965) concebe uma linguagem que confronta dois tipos de estética para falar de colonizadores e colonizados.

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Histórico
Com dramaturgia formada por fragmentos de documentos históricos, Moacir Chaves (1965) concebe uma linguagem que confronta dois tipos de estética para falar de colonizadores e colonizados.

A pesquisa histórica que dá origem ao espetáculo parte do processo movido pela inquisição brasileira contra o luterano João Cointa.

Os documentos selecionados são de basicamente duas fontes: os arquivos do processo, que relatam depoimentos e procedimentos - como a tortura, por exemplo - com relatos de historiadores sobre o Brasil Colônia. O diretor Moacir Chaves vê neste material a possibilidade de confrontar duas éticas: a dos selvagens brasileiros e a das instituições colonizadoras. A cada trecho histórico corresponde uma cena independente, cada cena com sua própria técnica de teatralização. Esta diversificação cênica ajuda a delinear uma narrativa, na medida em que o texto do espetáculo é desprovido de ação dramática e a linguagem dos documentos se repete. O contraste entre uma cena e outra faz com que a platéia passe por vários modos de fruição.

Há sempre dois discursos em curso, o da palavra e o da ação, que nunca são uníssonos. O texto que se ouve pertence a um português de muitos termos em desuso e de termos técnicos do meio judiciário. A história de João Cointa se oculta em vários momentos por trás de textos que não dão pistas da trajetória do dito protagonista. Ao mesmo tempo, o discurso da ação traz um alto grau de teatralidade - seja por meio do circo, do elemento musical, da comicidade rasgada, do humor chulo, do histrionismo do ator. O resultado deste confronto é que a maior parte do público tende a desistir de extrair uma história daquilo que se passa em cena - e se diverte com as macaquices (bugiarias) dos atores. Para o público que insiste e, além de perseguir a história, procura extrair um sentido do confronto entre o texto e a cena, o espetáculo oferece algumas surpresas. Um exemplo dos mais claros é a cena em que a única atriz do elenco, Josie Antello, no meio de uma roda de homens, é inesperadamente erguida do chão e rodopiada no ar. O texto descreve o processo de tortura. O susto da atriz se repete. Até que ela começa a temer a repetição. Mas tudo se realiza sem nenhum clima de seriedade. Pelo contrário, toda a cena é preparada de forma a se tornar o mais hilariante possível. Os movimentos da atriz a fazem parecer uma boneca; seu grito agudíssimo no final, surpreende e faz rir pela sua impotência.

Em alguns poucos momentos o contraste se inverte - a palavra passa a ser a portadora da bugiaria enquanto a cena é construída com solenidade. O exemplo mais evidente é a música pornográfica cantada com arranjo vocal e posição empostada de quem entoa um madrigal; ou o hino nacional tocado em um serrote. 

Enfim, a linguagem de Bugiaria se forma pela investigação das possibilidades de confronto entre o grotesco e o elevado, por meio do texto e da interpretação. O desempenho dos atores é o que dá sustentação a uma proposta que necessita ser francamente cômica e teatralmente irresistível para atingir seu objetivo. Alberto Magalhães, que também atua como pianista, e Cláudio Baltar, que assina a preparação corporal, se encarregam dos trechos circenses e de virtuosismo físico. Cândido Damm, Cláudio Mendes e Orã Figueiredo (1965) compõem os vários tons de comicidade do espetáculo. O cenário de Fernando Mello da Costa (1950) acompanha a proposta da direção, construindo um espaço caótico, composto de pedaços de outros cenários, de restos de objetos, de volumes sem identificação.

O crítico Macksen Luiz (1945) observa que: "Os hábitos antropofágicos dos índios, o processo contra o francês João Cointa, julgado pela simpatia pelo luteranismo, e os rituais de execução da Santa Inquisição saltam dos relatórios para o palco sem qualquer preocupação de torná-los atuais ou com linguagem acessível. Conservam-se a terminologia empolada e o detalhamento de minudências, e apenas quando uma palavra soa desconhecida recorre-se a uma pausa didática, sempre bem-humorada, para revelar seu significado. É a única concessão ao "didatismo", já que Bugiaria deixa tudo evidente sem recorrer a explicações desnecessárias sobre os ritos de aniquilação dos índios e dos europeus".1

O espetáculo recebe o Prêmio Governador do Estado do Rio de Janeiro.

Notas

1. LUIZ, Macksen. Relatório irreverente e empolado. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 dez. 1999.

Ficha Técnica

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Dramaturgia
Moacir Chaves

Concepção
Moacir Chaves

Direção
Moacir Chaves (Prêmio Governador do Estado)

Direção (assistente)
Júlia Sarmento

Cenografia
Fernando Mello da Costa

Figurino
Bia Salgado
Luciana Maia

Figurino (assistente)
Maysa Braga

Iluminação
Aurélio de Simoni

Direção musical
Marco Abujamra

Coreografia (assistente)
Patrícia Costa

Preparação corporal
Cláudio Baltar

Preparação vocal
Victor B. Olivares

Elenco
Alberto Magalhães
Cândido Damm
Cláudio Baltar
Cláudio Mendes
Josie Antello
Orã Figueiredo

Direção de produção
Lucas Mansor

Produção (assistente)
Wilson Rodrigues

Fotografia
Andréa Cals

Maquinista
Anderson M Bispo

Camareira
Arminda Farley

Fontes de pesquisa 3

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  • BUGIARIA - O PROCESSO DE JOÃO COINTA. Direção Moacir Chaves. Rio de Janeiro, 1999. 1 folder. Programa do espetáculo, apresentado no Teatro Glauce Rocha em dezembro de 1999.
  • BUGIARIA. Rio de Janeiro: Funarte / Cedoc. Dossiê Espetáculos Teatro Adulto.
  • OLIVEIRA, Roberta. O retrato teatral de um francês perseguido pela Inquisição no Rio. O Globo, Rio de Janeiro, 22 nov. 1999.

Como citar

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Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: