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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Arena Conta Tiradentes

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 20.01.2016
21.04.1967 Brasil / São Paulo / São Paulo – Teatro de Arena Eugênio Kusnet
Registro fotográfico Derly Marques

Dina Sfat (Marília) em cena de Arena Conta Tiradentes, 1967
Derly Marques, Dina Sfat
Acervo Idart/Centro Cultural São Paulo

Peça concebida no Sistema Coringa, aborda a vida de Tiradentes, integra a fase dos musicais do Teatro de Arena e reforça seus propósitos de mobilização política.

Texto

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Histórico
Peça concebida no Sistema Coringa, aborda a vida de Tiradentes, integra a fase dos musicais do Teatro de Arena e reforça seus propósitos de mobilização política.

Após o grande sucesso de Arena conta Zumbi, o Teatro de Arena se debruça sobre outro movimento histórico: a Inconfidência Mineira. Tomando Tiradentes como o protótipo do herói revolucionário, o texto de Augusto Boal (1931-2009) e Gianfranceso Guarnieri (1934-2006) expande e intensifica os procedimentos em torno do Sistema Coringa, que ganha, então, sistematização teórica.

No enredo, a Inconfidência é vista pelo ângulo dos acontecimentos dos anos 1960. A história, é refeita para incluir fatos, tipos e personagens relativos ao período anterior e posterior ao golpe militar de 1964. Do ponto de vista estilístico, o Sistema Coringa alterna um procedimento realista (stanislavskiano) para configurar o herói, Tiradentes, e um procedimento distanciado (brechtiano) para as demais figuras. Pensa-se, desse modo, equacionar a recepção da montagem em duas frentes: criando uma empatia com a personagem que deve despertar o entusiasmo revolucionário e uma perspectiva crítica sobre as demais.

Guarnieri vive o Coringa, importante figura em cena, uma vez que lhe cabe interpretar os fatos, associá-los a pessoas, fazer prosseguir ou retroagir certas cenas, sempre com o intuito de explicar os acontecimentos. David José (1942) vive Tiradentes, imprimindo força e vigor ao desempenho. Os demais integrantes do elenco dividem-se numa multiplicidade de figuras, necessárias para compor os quadros em que a peça se estrutura.

A música sobretudo desempenha não apenas a função de ligação entre cenas como também, conduz o fluxo emocional. O refrão "de pé, povo, levanta na hora da decisão" pontua toda a montagem, que tem a direção musical de Theo de Barros. Igualmente importante é o trabalho de Flávio Império (1935-1985), cenógrafo e figurinista, responsável pela unidade visual e criação dos diversos signos possibilitam a identificação de uma mesma personagem, interpretada, ao longo do espetáculo, por diferentes atores.

Em penetrantes ensaios, o crítico e estudioso Anatol Rosenfeld (1912-1973) discute longamente as propostas levantadas em torno do Sistema Coringa: "É preciso salientar a contradição manifesta na tentativa de apresentar um herói mítico de forma naturalista. Se, graças ao esforço de David José, apesar de ele cantar, se obtiveram efeitos aproximados de realismo, houve precisamente nisso certo desacordo com o empenho dos autores em mitizar o herói. O mito não permite o naturalismo, nem tampouco a proximidade da arena que revela em demasia a materialidade empírica do ator como ator. Nenhum arquétipo resiste ao fato de se poder vê-lo transpirando e tocá-lo com a mão". E, destacando certo descompasso entre a proposta teórica e sua materialização cênica, considerada de melhor qualidade, conclui Anatol: "A peça, neste ponto resiste galhardamente à teoria. Funciona, apesar dela (o que por vezes ocorre também no caso de Brecht)".1

Sobre as intenções políticas do espetáculo e as relações entre os fatos da Inconfidência Mineira e o Brasil de 1967, escreve Claudia de Arruda Campos: "A proposta de ação política, o chamar em armas um povo que está ausente do processo revolucionário, atraí-lo para uma resistência organizada sem a sua participação, pode ser autoritária, mas recai também no gesto de desespero, quase na mesma rebeldia romântica que transborda em Zumbi. Historicamente, no Brasil de 1967, ela resultou na substituição de uma 'política de massas' populista pela ação armada de vanguarda, tão paternalista no substituir as massas, quanto generosa em heroísmo".2

Notas
1 ROSENFELD, Anatol. O mito e o herói no moderno teatro brasileiro. São Paulo: Perspectiva, 1982. p.23
2 CAMPOS, Claudia de Arruda. Zumbi, Tiradentes. São Paulo: Perspectiva, 1988. p.116.

Ficha Técnica

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Autoria
Augusto Boal
Gianfrancesco Guarnieri

Direção
Augusto Boal

Cenografia
Flávio Império

Figurino
Flávio Império

Iluminação
Orion de Carvalho

Direção musical
Théo de Barros

Trilha sonora
Caetano Veloso
Gilberto Gil
Sidney Miller
Théo de Barros

Música
Manini
Romário José Borelli
Zelão

Elenco
Cláudio Pucci / Cláudio Manoel da Costa; Sargento-mor Francisco Oliveira Lopes; Domingos de Abreu; Bêbado; Álvares Maciel; Pe. Carlos de Tolledo; Cônego Luiz Vieira; Embuçado
David José / Tiradentes
Dina Sfat / Mulher; Deolinda; Cláudio Manoel da Costa; Bárbara Heliodora; Viúva Inácia; Escrivão
Gianfrancesco Guarnieri / Coringa; Gonzaga; Cabo Jerônimo; Garimpeiro; Mineiro; Domingos de Abreu; Alvarenga, Juiz
Jairo Arco e Flexa / Cláudio Manoel da Costa; Gonzaga; Domingos de Abreu; Maya; Pe. Rollim; Álvares Maciel; Tte. Cel. Francisco de Paula; Silvério dos Reis
Renato Consorte / Alvarenga; Carrasco; Cunha Menezes; Homem do Povo; Barbacena; Tte. Cel. Francisco de Paula; Silvério dos Reis; Embuçado
Sylvio Zilber / Cláudio Manoel da Costa; Jefferson; Taverneiro; Silvério dos Reis; Tte. Cel. Francisco de Paula; Alvarenga
Vânia Sant'Anna / Mulher; Mônica; Marília; Bárbara Heliodora; Pe. Antônio; Filha da Viúva Inácia; Pregão

Fotografia
Dirceu Leme

Camareira
Maria Borges

Obras 4

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Fontes de pesquisa 7

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  • BOAL, Augusto. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
  • BOAL, Augusto; GUARNIERI, Gianfrancesco. Arena conta Tiradentes. São Paulo: Sagarana, 1967.
  • MAGALDI, Sábato. Um palco brasileiro: o Arena de São Paulo. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Tudo é história, 85).
  • MERCATO NETO, A. A crítica teatral de Alberto D'Aversa no Diário de São Paulo. São Paulo, SP, 1979. Tese (Doutorado). Escola de Comunicação e Artes, 1979.
  • MOSTAÇO, Edelcio. Teatro e política: Arena, Oficina e Opinião. São Paulo: Proposta, 1982.
  • ROSENFELD, Anatol. O mito e o herói no moderno teatro brasileiro. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.
  • TEATRO de Arena. Dyonisos, Rio de Janeiro, n. 24, out. 1978.

Como citar

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