Artigo da seção termos e conceitos Novecento

Novecento

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Definição

O Novecento é um movimento que nasce em Milão em 1922 e reúne a obra de um grupo de artistas ligados à galeria Pesaro: Anselmo Bucci (1887 - 1955), Leornado Dudreville (1885 - 1975), Achille Funi (1890 - 1972), Gian Emilio Malerba (1880 - 1926), Pietro Marussig (1879 - 1937), Ubaldo Oppi (1889 - 1942) e Mario Sironi (1885 - 1961). No início, o grupo é liderado pela crítica de arte Margherita Sarfatti Grassini (1880 - 1961), amante do ditador Benito Mussolini, que por duas ocasiões (1923 e 1926) discursa na abertura de exposições do Novecento. O nome sugere uma dupla associação: ao século XX e aos grandes períodos clássicos da arte italiana como o Quattrocento e o Cinquencento. Pretende-se revitalizar a arte italiana com base em uma volta a sua fonte mais pura, o classicismo, inaugurando uma nova fase de ouro na história dessa arte.

No decorrer da década de 1920 e 1930, no período do entreguerras, o Novecento torna-se cada vez mais popular e ganha novos adeptos. Em 1925, o grupo é rebatizado com o nome de Novecento Italiano, refletindo a ambição de representar a arte nacional italiana. Passa a contar com comitê diretor (Comitato del Novecento) presidido por Sarfatti e responsável por promover seus artistas na Itália e no exterior. A primeira grande exposição do novo grupo, que contou com a participação de 110 artistas dos 130 convidados, ocorre em 1926 em Milão, e pela diversidade de artistas participantes sugere a expansão da tendência a toda Itália. Entre os novos integrantes do movimento encontram-se Carlo Carrà (1881 - 1966), Massimo Campigli (1895 - 1971), Felice Casorati (1883 - 1963), Marino Marini (1901 - 1980), Arturo Martini (1889 - 1947) e Arturo Tosi (1871 - 1956).

Do ponto de vista estilístico, o Novecento é um movimento que abarca diversas poéticas. No âmbito geral, insere-se nas tendências de retorno à ordem que atingem a Europa e a América após a 1ª Guerra Mundial (1914-1918) - por exemplo, a nova objetividade, o Realismo Mágico, a pintura da cena americana. Na Itália, a pintura metafísica de final dos anos 1910 exerce enorme influência sobre o Novecento. Em todos esses movimentos, percebe-se um ímpeto antivanguardista que se manifesta por uma volta aos códigos realistas de representação (a recuperação de uma noção de arte como tradução idealizada ou não do real), a reabilitação da tradição, o gosto pela obra bem-acabada e a revalorização do trabalho especializado mediante a ênfase no métier do artista, a preservação da autonomia da obra de arte e a retomada dos valores culturais nacionais.

Essas características gerais estão presentes no Novecento Italiano e são particularizadas em três vertentes principais, segundo o estudioso italiano Marco Lorandi. A primeira, denominada "arcaico-mítica", mantém uma maior ligação com a pintura metafísica anterior, com sua solenidade e caráter atemporal. Visa a construção de uma realidade "mágica" ou utópica, mediante a leitura singular do primeiro Renascimento italiano por meio das conquistas visuais da pintura pós-impressionista - sobretudo Paul Cézanne (1839 - 1906). A esse grupo estariam ligados os artistas Sironi, Carrà, Campigli, Martini, entre outros. A segunda corrente, intitulada neo-renascentista ou neoclassica, é representada por Funi, Bucci, Casorati, o De Chirico dos anos 1920, Dudreville, Marussig, Oppi, Tosi, entre outros. Caracteriza-se pela retomada de toda tradição da "grande arte italiana" clássica posterior, como Ticiano (ca.1488 - 1576), Giorgione (1477 - 1510) e Rafael (1483 - 1520). Por fim, há a corrente "cezanniana", que como indica o nome, visa a compreensão, principalmente no âmbito da pintura de paisagem, do espaço plástico pós-impressionista de Cézanne. Essa vertente também recupera os paisagistas italianos do século XIX, os macchiaioli, e sua possível relação com os artistas do Quattrocento. Entres seus principais representantes estão Tosi, Caligiani, Alberto Vitali (1898 - 1974) e Christoforo de Amicis (1902 - ?).

Nos últimos anos, alguns estudiosos têm pesquisado a existência do movimento na América do Sul. Isso se daria, entre outras razões, pela forte presença italiana no continente. Na Argentina, por exemplo, sabe-se que a mostra Novecento Italiano, montada em Buenos Aires em 1930 pelo governo italiano, teve um importante impacto no ambiente artístico. Apesar da exposição não chegar ao Brasil, o Novecento se faz presente mediante artistas italianos ou ítalo-brasileiros que aqui residem. Entre eles encontram-se Vittorio Gobbis (1894 - 1968), Rossi Osir (1890 - 1959), Fulvio Pennacchi (1905 - 1992) e Hugo Adami (1899 - 1999), sendo que este último participa da grande mostra do Novecento em 1926, quando estudava na Itália.

Fontes de pesquisa (5)

  • ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução Denise Bottmann, Frederico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
  • CHIARELLI, Tadeu. Arte internacional brasileira. São Paulo: Lemos, 1999.
  • CHILVERS, Ian (org.). Dicionário Oxford de arte. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  • DEMPSEY, Amy. Estilos, escolas & movimentos: guia enciclopédico da arte moderna. Tradução Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. 304 p., il. color.
  • NOVECENTO Sudamericano: relazioni artistiche tra Italia e Argentina, Brasile, Uruguay. Apresentação Roberto Formigoni, Gabriele Albertini, Mario Banccini, Salvatore Carrubba, Guido Clemente, Flavio Caroli; tradução Mariagrazia D'Alessandri Aprile, Roberta Barni, Gabriele Frigerio, Marcelo C. Huernos Cervini. Milano: Skira, 2003. 144 p., il. p&b color.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • NOVECENTO . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo886/novecento>. Acesso em: 16 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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