Artigo da seção termos e conceitos Beaux-Arts

Beaux-Arts

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Definição
O termo beaux-arts (belas-artes) é aplicado às chamadas "artes superiores", de caráter não-utilitário, opostas às artes aplicadas e às artes decorativas. Essa noção é incorporada ao vocabulário da história e da crítica de arte com o auxílio da obra Les Beaux-Arts Réduits à un Même Principe, 1746, de autoria de Charles Batteaux (1713-1780). Batteaux defende ser a "imitação da beleza natural" o princípio comum e definidor da poesia, da pintura, da música e da dança, consideradas, por isso mesmo, belas-artes, distintas daquelas que combinam beleza e utilidade (a arquitetura, por exemplo). Um pouco mais tarde, na Enciclopédia, 1751/1772, de Diderot (1713-1784) e D'Alembert (1717-1783), é incluída a arquitetura entre as belas-artes, em clara crítica ao que diz serem "imprecisões" de Batteaux. Na Inglaterra, o termo "cinco artes" é empregado nessa mesma época com sentido semelhante.

Se a noção beaux-arts é estabelecida no século XVIII, a distinção entre "artes maiores" e "menores" (ou aplicadas) remonta à Antiguidade clássica, pela separação entre artes liberais (relacionadas às "atividades mentais") e artes mecânicas, ligadas aos trabalhos práticos e manuais. De modo similar, os gregos distinguem as artes superiores (que dizem respeito aos sentidos considerados superiores, visão e audição) das menores, de modo geral associadas aos ofícios manuais e ao artesanato. "Artes nobres", porque mais "perfeitas" (século XVI); "artes memoriais", que mantêm a memória das coisas e acontecimentos (século XVI), "artes pictóricas", que trabalham com imagens (século XVII); "artes agradáveis" (Giambattista Vico, 1744), todos esses são termos empregados para classificar e hierarquizar as várias formas de criação artística. A obra de Giorgio Vasari (1511-1574) - pintor, arquiteto e pensador do Renascimento italiano - tem um papel fundamental no estabelecimento dessas distinções. Segundo ele, um artista seria aquele dotado de capacidades intelectuais específicas que o diferenciam de seus contemporâneos. Desse modo, a atividade artística é definida como fruto de um trabalho reflexivo individual, que confere superioridade ao seu criador. A essa definição liga-se o estabelecimento das "grandes artes", todas aquelas baseadas no disegno: pintura, escultura e arquitetura. As outras artes são, então, consideradas inferiores, associadas ao artesanato.

A separação entre artes e ofícios ganha novo impulso com o surgimento das academias de arte, a partir do século XVI, fundamentais na alteração do status do artista, personificado por Michelangelo (1475-1564). Não mais artesãos das guildas e corporações, os artistas são considerados teóricos e intelectuais, a merecer formação especializada. As academias garantem a formação científica (geometria, anatomia e perspectiva) e humanística (história e filosofia), rompendo com a visão de arte como artesanato. Atingindo o auge no século XVIII, as academias são responsáveis por conferir caráter oficial ao ensino das belas-artes, além de organizar exposições, concursos, prêmios e periódicos, o que significa controle da atividade artística e fixação rígida de padrões de gosto. No decorrer dos séculos XVIII e XIX, o ensino das belas-artes passa progressivamente às Escolas Nacionais de Belas-Artes, criadas em todo o mundo, e o das artes aplicadas fica sob a responsabilidade dos Liceus de Artes e Ofícios e de instituições congêneres.

Se as academias separam artistas e mestres de ofícios, fazendo das belas-artes sinônimos de arte acadêmica, é possível notar ao longo da história da arte ocidental - e, sobretudo, no interior da arte moderna - aproximações entre as conhecidas como belas-artes e as chamadas artes aplicadas. Lembrando, entre outros, o exemplo do Arts and Crafts inglês, quando teóricos e artistas reafirmam a importância do trabalho artesanal diante da mecanização industrial e da produção em massa; o art nouveau europeu e norte-americano que esmaece as fronteiras entre arte e artesanato pela valorização dos ofícios e trabalhos manuais; a experiência da Bauhaus, ancorada na associação entre arte, artesanato e indústria; ou ainda o art déco, ou "estilo anos 20", que aproxima arte e design.

Fontes de pesquisa (4)

  • CHILVERS, Ian (org.). Dicionário Oxford de arte. Tradução Marcelo Brandão Cipolla. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  • ENCYCLOPEDIE DE L'ART. Paris, La Pochothèque, Garzanti. Nouvelle édition revue et mise à jour. Paris, Librarie Générale Française, 2000, 1122 pp. il. p&b. color.
  • MARCONDES, Luiz Fernando. Dicionário de Termos Artísticos. São Paulo, Edições Pinakotheke, 1998, 381 pp.
  • VINJE, Eiliv. Aesthetics and the Boundaries of Rhetoric. Charles Batteaux's Les beaux arts réduit à un même principe (1746) and its Danish Translation (1773-74). The Nordic Network for the History of Rhetoric, Aug. 2002. Disponível em: [https://bora.hib.no/bitstream/10049/94/1/HelsinkiEndeleg.pdf]. Acesso em: maio 2007.

Como citar?

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  • BEAUX-ARTS . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo6177/beaux-arts>. Acesso em: 20 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7