Artigo da seção termos e conceitos Futurismo Paulista

Futurismo Paulista

Artigo da seção termos e conceitos
Artes visuais  

Definição
Termo que se associa ao grupo de artistas, escritores e intelectuais reunidos em São Paulo, no início dos anos 1920, em torno da renovação estética e cultural nacional, cuja ação configura o modernismo brasileiro e tem como marco a realização da Semana de Arte Moderna de 1922. A denominação é dada por alusão ao futurismo italiano, que tem o primeiro manifesto datado de 1909. Pelas inovações que propõe e pela polêmica que suscita, o movimento italiano torna-se logo conhecido. No Brasil, a palavra futurismo surge associada, principalmente pela crítica conservadora, às obras que apresentam algo novo ou fora do comum. É empregada com sentido depreciativo e, não raro, está ligada à idéia de absurdo, loucura e doença. Artistas como Victor Brecheret (1894 - 1955), Vicente do Rego Monteiro (1899 - 1970), Di Cavalcanti (1897 - 1976), Anita Malfatti (1889 - 1964) e John Graz (1891 - 1980) são acusados de futuristas sem, no entanto, filiar-se ao movimento.

Os debates sobre a renovação do cenário cultural e artístico no Brasil e, em especial, em São Paulo, deflagrados pela polêmica acerca da exposição de 1917/1918 da pintora Anita Malfatti, propiciam o delineamento de um grupo de escritores, intelectuais e artistas defensores de uma arte nova. A definição do grupo e o início de suas ações sistemáticas ocorrem em 1920. Além de artistas como Anita Malfatti e Victor Brecheret, contam-se, entre outros, os escritores Guilherme de Almeida (1890 - 1969), Sérgio Milliet (1898 - 1966), Cândido Mota Filho (1897 - 1977), Oswald de Andrade (1890 - 1954), Mário de Andrade (1893 - 1945) e Menotti del Picchia (1892 - 1988) - os três últimos, grandes responsáveis pela divulgação de suas idéias -, interessados na ruptura com os valores literários estabelecidos. Com origens e orientações diversas, os modernos são classificados pela crítica como futuristas, não propriamente por se filiar à estética do movimento italiano, mas por se distanciar dos cânones artísticos nacionais. Pela carga de significados e provocações que desperta, a denominação futurista acaba sendo incorporada pelos modernistas.

No fim de 1920, Del Picchia passa a reconhecer o valor do movimento italiano na nova configuração e indica a existência de um futurismo paulista. O grupo de São Paulo aceita o futurismo por ele oferecer uma doutrina cujos fundamentos podem ser ampliados e adaptados à realidade nacional e que servem, num primeiro momento, à tarefa de ruptura com o ambiente literário e artístico vigente, representado fundamentalmente pelo rigor do parnasianismo e do academismo. Assim como no movimento italiano, o desejo de eliminação do atraso cultural também é patente: os futuristas de São Paulo tomam para si a tarefa de modernizar as artes no Brasil ao promover, na capital paulista, uma arte que, de acordo com seu novo estado de desenvolvimento, aponte o crescimento populacional e industrial,  inovações tecnológicas e condição de metrópole cosmopolita.

Dentro do grupo, porém, a identificação com o futurismo não é completa e há os que o combatem. Exemplo disso é a polêmica que Oswald de Andrade cria ao lançar, em 1921, Mário de Andrade como um poeta futurista. Envolvido em verdadeira celeuma, Mário de Andrade rechaça a idéia de pertencer ao futurismo, apelando para seu catolicismo e seu repúdio à renegação total do passado. No entanto, não se afasta de seus companheiros "futuristas".

O grupo procura marcar suas distinções em relação ao futurismo dogmático e extremado promovido pelo poeta Filippo Tommaso Marinetti (1876 - 1944), pregando a "máxima liberdade dentro da mais espontânea originalidade". Se mesmo nesse diferencial é possível entrever a proximidade com o futurismo na vertente florentina, mais moderada, é possível, no entanto, perceber que não há uma doutrina rigorosa a nortear o grupo dos modernistas e que a experiência do futurismo não tem no Brasil o mesmo alcance que experimenta em outros países.

Após a Semana de 1922, as divergências sobre o uso do repertório futurista se tornam nítidas, como demonstra a crítica empreendida por Menotti Del Picchia a partir desse ano ao futurismo de seus antigos companheiros de movimento, Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Diferentes abordagens de temas relativos ao passado histórico e artístico e à necessidade de construção de uma arte nacional evidenciam os limites nos quais o futurismo paulista se circunscreve em relação ao movimento italiano. O lançamento, em 1928, do livro Macunaíma: O Herói sem Nenhum Caráter, de Mário de Andrade, é apontado pela historiadora da arte Annateresa Fabris como o fim do diálogo brasileiro com o futurismo.1 Ao apresentar uma visão negativa da máquina, das aglomerações urbanas e ao defender a preguiça, caracterizada como ócio criador, o autor exemplifica o debate que então se estabelece acerca da constituição de uma arte calcada na realidade nacional e indica o total afastamento dos preceitos do movimento italiano.

 

Notas

1 FABRIS, Annateresa. O Futurismo paulista: hipóteses para o estudo da chegada da vanguarda ao Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1994. p. 278-282. 

Fontes de pesquisa (5)

  • BRITO, Mário da Silva. História do modernismo brasileiro: antecedentes da Semana de Arte Moderna. 6. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.
  • FABRIS, Annateresa. O Futurismo paulista: hipóteses para o estudo da chegada da vanguarda ao Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1994. (Estudos, 138).
  • HUMPHREYS, Richard. Futurismo. Tradução Luiz Antônio Araújo. São Paulo: Cosac & Naify, 2000. 80 p., il. color. (Movimentos da arte moderna).
  • KLAXON. São Paulo: Livraria Martins Ed., 1972. Edição fac-símile composta de 9 números editados entre 1922-1923.
  • ZANINI, Walter (Coord.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Instituto Moreira Salles: Fundação Djalma Guimarães, 1983. v.2.

Como citar?

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  • FUTURISMO Paulista. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo52/futurismo-paulista>. Acesso em: 17 de Jul. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7
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